Jaqueline Fernandes — estrategista da cultura, reitora da Universidade Afrolatinas e idealizadora do Festival Latinidades
Toda curadoria é, antes de tudo, uma escolha política. Uma decisão sobre quem e quais perguntas merecem ocupar o centro do debate público. Por isso, o Festival Latinidades assumiu o compromisso de tornar pública a conversa sobre saúde mental de trabalhadoras e trabalhadores da cultura, a partir do tema da edição 2026: Saúde Mental Importa! O que as condições de trabalho nesse setor têm gerado de consequências para a saúde mental de suas trabalhadoras e seus trabalhadores?
Essa é uma pergunta tão difícil quanto necessária. Enquanto empresas discutem riscos psicossociais e governos revisam normas relacionadas ao ambiente de trabalho, pouco se fala sobre as condições enfrentadas no setor cultural, que continua ausente das discussões sobre saúde mental no trabalho.
Nesse sentido, a Universidade Afrolatinas articulou uma parceria entre o Instituto Mawé e o Data_Labe para realizar a Pesquisa Nacional sobre Saúde Mental de Trabalhadoras e Trabalhadores da Cultura, lançada na abertura do Festival Latinidades. Além de produzir um diagnóstico inédito sobre o setor, a pesquisa busca compreender não apenas os fatores de adoecimento, mas também as práticas, relações e condições que promovem bem-estar, pertencimento e sustentabilidade.
Segundo o IBGE, o setor cultural reúne cerca de 4,8 milhões de trabalhadores no Brasil. Quando se considera o conjunto da economia da cultura e das indústrias criativas, esse contingente chega a 7,8 milhões de pessoas, segundo o Observatório Itaú Cultural. Além de seu papel simbólico e social, trata-se de um setor de grande relevância econômica: dados do IBGE mostram que as atividades culturais movimentaram R$ 226 bilhões na economia brasileira em 2017.
Poucos setores contribuem tanto para a saúde integral de uma sociedade quanto o cultural. Mas, infelizmente, muitos trabalhadores estão adoecendo de forma silenciosa.
Existe um imaginário perigoso cristalizado no nosso setor. Aprendemos a acreditar que quem "trabalha com cultura" faz o que ama. E, por isso, suportaria qualquer condição de trabalho como se isso fosse virtude. Então, sem perceber, naturalizamos o adoecimento e a precarização. Aprendemos a naturalizar jornadas intermináveis, instabilidade financeira, a necessidade de executar e conciliar múltiplos trabalhos, burocracias excessivas e exclusórias, hiperconectividade e equipes reduzidas. Tudo isso sempre acompanhado à sensação permanente de que nunca fizemos o suficiente. Pensamos, durante muito tempo, que essa experiência é o preço inevitável para viver da cultura. Mas não é.
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Transformar evento em incidência faz parte da vocação do Festival Latinidades. Mais do que promover debates sobre saúde mental, decidimos experimentar outra maneira de produzir. Uma maneira em que o cuidado deixa de ser um intervalo entre uma atividade e outra para tornar-se parte da própria experiência coletiva. Para que o cuidado também possa produzir cultura. Se aprendemos, durante décadas, a romantizar jornadas intermináveis, relações precárias e o adoecimento como demonstrações de compromisso com o trabalho, também podemos aprender outras formas de criar e produzir.
As condições em que o trabalho no setor cultural acontece não são naturais: são fruto das escolhas que fazemos como sociedade sobre o valor que atribuímos à arte, à cultura e a quem a produz. São essas escolhas que determinam como a nossa cultura será criada, reconhecida e transmitida às próximas gerações.
A pergunta, no fundo, não é apenas quem cuida de quem produz cultura. É que tipo de cultura estamos construindo quando o cuidado deixa de fazer parte da própria forma de trabalhar. Transformar essa realidade exige mais do que reconhecer o problema. Exige coragem para rever práticas que, durante muito tempo, nós mesmos naturalizamos. Governos, financiadores, instituições culturais, lideranças, equipes e profissionais compartilham a responsabilidade, e também a oportunidade, de construir outras formas de fazer cultura.
O próximo passo não é mais reconhecer que a saúde mental importa. É transformar essa convicção em práticas institucionais, políticas públicas e condições mais saudáveis para o trabalho no setor cultural. Porque as condições em que criamos e produzimos também expressam a cultura que queremos construir.
