Fiz o caminho inverso: conheci a Orquestra Criança Cidadã (OCC) em Roma, há três anos, mais precisamente nas apresentações do concerto pela paz para o papa Francisco. O emocionante espetáculo no Vaticano era apenas um prelúdio do que eu veria aqui em Recife, na comunidade do Coque, nos três últimos dias. Com um grupo de jornalistas, vim acompanhar o dia a dia de crianças e jovens da orquestra, que comemorou 20 anos de história, ontem, com dois espetáculos magistrais no Teatro Santo Isabel, no Recife.
O público acompanhou apresentações da Orquestra Infanto-juvenil Criança Cidadã, regida pelo maestro Jadson Dias, e da Orquestra Jovem Criança Cidadã, sob a batuta do maestro venezuelano Rafael Dommar. Os concertos mostraram a evolução artística dos estudantes ao longo das diferentes etapas de formação oferecidas pela instituição.
Ainda na década de 1970, eu via o Coque de longe quando passava de ônibus para o centro. Também acompanhava pelas páginas de jornal, em programas de TV, por meio da figura quase mítica de Galeguinho do Coque, condenado por vários homicídios, e depois eternizado nacionalmente na famosa frase da música Banditismo por uma questão de classe, de 1994, de Chico Science & Nação Zumbi: "Galeguinho do Coque não tinha medo, não tinha / Não tinha medo da Perna Cabeluda".
A Orquestra Criança Cidadã nasceu a partir da idealização do juiz João Targino, a pedido do então presidente do Tribunal de Justiça de Pernambuco, Nildo Neri. Targino recebeu a missão de desenvolver um projeto social para acolher a comunidade no entorno da sede do Tribunal. Era nos inícios dos anos 2000, e o Coque era a região mais violenta do estado. Por isso, as bases do projeto foram assentadas ali. Aos poucos, a música começou a mudar aquela realidade. Com as barreiras do acesso à arte rompidas, as crianças podiam entrar e vislumbrar um novo jeito de crescer, longe da criminalidade.
Depois de duas décadas, a orquestra é hoje uma grande fábrica de talentos. Muitos dos que passaram por lá são hoje musicistas reconhecidos, alguns deles em orquestras de Berlim, dos Estados Unidos e de outros lugares no exterior e no Brasil. Na celebração do aniversário, houve o lançamento oficial da Orquestra Sinfônica Infantil da OCC e a criação de um programa de aulas on-line ministradas por músicos que atuam em grandes orquestras da Europa e dos Estados Unidos.
O projeto é patrocinado há 16 anos pela Caixa Econômica Federal, tem apoio do governo federal por meio da Lei Rouanet e também, no início de tudo, contou com ajudas de entidades como a CNI. Mas precisa de mais para a expansão da escola que hoje atende cerca de 470 crianças e adolescentes. Um dos núcleos funciona dentro de uma área do Exército, que tive o privilégio de conhecer por dentro. O trabalho fora do palco é tão ou mais impressionante do que aquele que o público vê e aplaude.
Nas apresentações festivas que presenciei, havia aquele ímpeto de força e juventude que acredita que pode ser muito mais do que um destino traçado pela miséria ou pelo abandono de políticas públicas. Me emocionei tanto quanto no Vaticano quando vi, brilhando no palco, o jovem pernambucano de Coque chamado Antonino Tertuliano, então integrante da Filarmônica de Israel. Aos 33 anos, o músico agora integra a Duisburg Philharmoniker, uma das importantes orquestras da região de Nordrhein-Westfalen, na Alemanha.
Se existe uma coisa que amo no jornalismo, é a possibilidade de ver como tudo pode ser transformado em algo melhor. No caminho, sempre existe a arte ou o esporte por trás de uma excelente ideia e de pessoas vocacionadas e obstinadas a mantê-la, apesar de todas as dificuldades. A história de Coque e de tantas outras comunidades prova isso. Ainda vou contar mais do que vi numa matéria aqui no Correio. Espero que leiam e comentem sobre a Orquestra Criança Cidadã por aí. Não é só notícia ruim que deve viralizar.
