Encerradas as convenções partidárias, a campanha presidencial que se inicia daqui a nove dias começa a ganhar forma. Entre os temas que passam a disputar espaço no debate aparece um assunto que, em outras eleições, costumava ficar restrito a perguntas isoladas em debates, sem aparecer na propaganda eleitoral no rádio e na televisão: a política externa. Desta vez, porém, o acirramento das relações entre Brasil e Estados Unidos ameaça romper essa barreira e influenciar diretamente a corrida pelo Palácio do Planalto.
A restrição ao visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, em uma tentativa do governo americano para acelerar o agrément do diplomata indicado pela Casa Branca para trabalhar no Brasil é mais um ingrediente em um ambiente já desgastado desde que Donald Trump anunciou tarifas extras sobre produtos brasileiros no ano passado. Ao justificar a medida, em carta divulgada, o presidente americano relacionou a decisão ao tratamento dado pela Justiça brasileira ao ex-presidente Jair Bolsonaro no processo por tentativa de golpe de Estado. Ou seja, trata-se de retaliação na mais pura essência.
Na ciência política, há uma percepção consolidada: quando um país interfere em questões internas de outro, cresce a tendência de reação em defesa da soberania. Nem sempre importa se essa interferência existe de fato. Basta que ela seja percebida para despertar um sentimento nacionalista entre parte do eleitorado.
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As pesquisas mais recentes sugerem que esse movimento já está em curso. Levantamento da Atlas/Intel, divulgado semana passada, mostra que 53% dos brasileiros consideram provável uma tentativa de Trump de influenciar a eleição presidencial deste ano. Outra sondagem, realizada pelo Meio/Ideia, no entanto, indica que o presidente americano tem pouca capacidade de transferir apoio eleitoral no Brasil. Para 45% dos entrevistados, um eventual endosso não altera a intenção de voto, enquanto apenas uma fatia reduzida avalia essa manifestação de forma positiva.
Os números da Meio/Ideia revelam ainda outro aspecto relevante. Mais da metade dos brasileiros defende que a escolha do próximo presidente seja feita exclusivamente pelos eleitores do país, sem influência de governos estrangeiros. Trata-se de um ponto que costuma atravessar divisões ideológicas e reunir cidadãos de diferentes campos políticos em torno da defesa da autonomia nacional.
É previsível que Lula tente explorar esse ambiente. O discurso de defesa da soberania se encaixa na narrativa de resistência a pressões externas. Para a oposição, o contexto é mais delicado. Enquanto permanecer a percepção de que Washington busca influenciar o cenário político brasileiro, qualquer aproximação com Trump tende a produzir ganhos limitados e até gerar desgaste. O quadro se torna mais sensível diante do esfriamento das relações com a Argentina de Javier Milei.
Tradicionalmente, as eleições presidenciais no Brasil são definidas por temas ligados ao cotidiano da população, como inflação, emprego, renda, saúde e segurança pública. Não deixará de ser assim em 2026, mas é fato que a política externa conquistou um protagonismo incomum. Deixou de ser um tema periférico e estará presente, de forma inédita, no debate eleitoral brasileiro.
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