Artigo

Quando os jovens permanecem, o Brasil avança

Nenhum jovem produz resultados duradouros sem pessoas preparadas para transformar potencial em desenvolvimento

 Alice Scartezini antropóloga e coordenadora do Instituto CNP Brasil

Inspirada pelas ciências sociais, venho fazendo a mim mesma uma pergunta que o Brasil ainda faz pouco: qual é o ativo mais importante para o desenvolvimento de um país?

Costumamos responder olhando para infraestrutura, tecnologia, inovação ou ambiente de negócios. Todos são fundamentais. Mas, ao longo da minha trajetória trabalhando lado a lado com jovens de diferentes realidades brasileiras, compreendi que nenhum deles produz resultados duradouros sem pessoas preparadas para transformar potencial em desenvolvimento.

Foi observando essas jornadas de vida que descobri algo que os números, sozinhos, não conseguem revelar: quando um jovem encontra condições para desenvolver seus talentos, o impacto vai muito além da sua própria história. Ele fortalece famílias, impulsiona comunidades e amplia a capacidade de crescimento de toda a sociedade.

Talvez por isso eu acredite que ainda tratamos as políticas voltadas às juventudes como uma agenda predominantemente social. Elas certamente cumprem esse papel. Mas são também uma estratégia de desenvolvimento econômico. Afinal, nenhum país aumenta sua produtividade, fortalece sua capacidade de inovação ou reduz desigualdades de forma consistente sem desenvolver seu principal patrimônio: as pessoas.

Os dados reforçam essa realidade. Segundo a Pnad Contínua, trabalhadores com ensino superior completo recebem, em média, R$ 5.108 por mês, enquanto aqueles que concluíram apenas o ensino médio têm rendimento médio de R$ 1.788. Mais do que uma diferença salarial, esses números mostram que investir em educação amplia a produtividade, fortalece a empregabilidade e gera riqueza para toda a sociedade.

Essa relação vai muito além da renda. Pessoas com maior escolaridade participam mais da população economicamente ativa, permanecem menos tempo desempregadas e ocupam, em média, postos de maior qualificação. Estudos do Ipea mostram, inclusive, que concluir o ensino superior aumenta os rendimentos em qualquer área de formação, mesmo quando o profissional atua em funções que não exigem diploma universitário. O conhecimento adquirido gera valor muito além da trajetória individual.

O Brasil avançou nessa agenda. Em 2000, apenas 6,8% da população com 25 anos ou mais possuía ensino superior completo. Em 2022, esse percentual chegou a 18,4%. Ainda assim, apenas 36% dos estudantes que concluem o ensino médio na rede pública ingressam no ensino superior.

Durante muito tempo, concentramos nossos esforços em ampliar esse acesso. Hoje sabemos que isso, sozinho, não basta. O verdadeiro desafio é garantir que os jovens consigam permanecer nos caminhos que conquistam.

Permanecer exige muito mais do que uma vaga. Exige condições para enfrentar dificuldades acadêmicas, financeiras e emocionais ao longo da trajetória. Estudos recentes mostram que ansiedade, depressão, sofrimento psicológico e a falta de pertencimento figuram entre os principais fatores associados à evasão no ensino superior. No ensino médio, questões emocionais, desmotivação e a ausência de perspectivas também contribuem para o abandono escolar.

É essa compreensão que orienta o trabalho do Instituto CNP Brasil. Nossos programas atuam sobre diferentes dimensões desse desafio: fortalecem a permanência escolar e universitária, desenvolvem autonomia por meio da educação financeira e ampliam perspectivas pela cultura, pelo audiovisual, pela economia criativa e pelo empreendedorismo. Embora atuem em frentes distintas, todos partem da mesma convicção: quando um jovem encontra apoio para seguir em frente, desenvolver competências e construir um projeto de vida, os impactos ultrapassam sua história e alcançam famílias, comunidades e toda a sociedade.

Os resultados mostram que essa abordagem faz diferença. Nos últimos dois anos, 67,5% dos estudantes acompanhados pelo programa Meu Caminho conquistaram uma vaga no ensino superior — foram 80% na primeira turma e 55% na segunda.

No Jovem de Expressão, projeto mais antigo do Instituto CNP Brasil, mais de 200 estudantes já conquistaram uma vaga no ensino superior por meio do Pré-Vest, desde a criação do cursinho. Mais do que aprovações, esses números representam jovens que permaneceram na escola, ampliaram seus horizontes e passaram a enxergar novas possibilidades para o próprio futuro. São trajetórias que demonstram que, quando talento encontra apoio e condições para se desenvolver, o potencial se transforma em realidade.

Costumamos dizer que os jovens são o futuro. Eu prefiro enxergá-los como protagonistas do presente. Cada jovem que conclui sua formação, fortalece sua autonomia e encontra espaço para desenvolver seu potencial já contribui para um Brasil mais produtivo, inovador e justo.

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