Artigo

Entre o cuidado e a desumanização

A dor de quem busca ajuda é legítima, mas a forma como tratamos quem oferece essa ajuda precisa ser revista. Humanizar o sacerdócio é reconhecer que ninguém é fonte infinita

Maria Elise Rivas escritora, doutora em ciências da religião, sacerdotisa da Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino

Em muitas casas religiosas, dizemos que ser pai ou mãe de santo é um chamado, um dom, um compromisso com o sagrado. Mas, por trás dessa imagem bonita, existe uma realidade dura: a desumanização de quem ocupa o cargo sacerdotal. Homens e mulheres, de diferentes origens, sentem o peso de estarem sempre disponíveis, sempre fortes, sempre prontas/os  a segurar o mundo nas mãos. Ainda assim, é preciso reconhecer: esse peso se torna mais cruel quando recai sobre as lideranças femininas negras.

Pais e mães de santo são procuradas/os dia e noite: para aconselhar, acolher, ouvir desabafos, mediar conflitos, "dar um jeito" nos problemas da vida. A comunidade chega com a expectativa de encontrar ali uma força inesgotável, alguém que nunca adoece, nunca se cansa, nunca falha. As necessidades mais básicas: descanso, silêncio, cuidado com a própria saúde física e mental, são facilmente empurradas para o fim da fila.

Quando esses sacerdotes e sacerdotisas tentam colocar limites, muitas vezes entram na classificação de egoístas, frias/os ou como se tivessem menos comprometimento com a espiritualidade. Falar de cansaço é interpretado como falta de fé. Dizer "não posso agora" vira sinal de fraqueza. Assim, a função é colocada acima da pessoa: a importância do cargo — por vezes — apaga a humanidade de quem o exerce.

Entre as mulheres que lideram terreiros e templos, essa dinâmica ganha camadas adicionais. Além das demandas espirituais e emocionais, costuma existir uma intensa sobrecarga doméstica e familiar, que raramente é dividida de forma justa. Espera-se que cuidem das/dos filhos, da casa, de parentes, do trabalho e, por fim, de toda a comunidade religiosa. A ideia de que "mulher nasceu para cuidar" entra no terreiro pela porta dos fundos, travestida de devoção.

São seres humanos maculados em sua saúde mental, emocional e comunitária, pois, apesar de cuidar de muitas/os, há pouca/os ou nenhum/a que tem preocupação real com seus cuidados, gerando um sentimento de solidão profundo em meio a uma multidão de pedintes.

Quando essa mulher é também marcada pela racialização, o cenário se torna ainda mais pesado. Há uma longa história que associa seu corpo e sua vida ao servir: na casa, na rua, no trabalho, na religião. O cuidado deixa de ser reconhecido como trabalho e passa a ser cobrado como obrigação. E, ao mesmo tempo em que se espera dela uma entrega ilimitada, sua dor é sistematicamente minimizada.

Nesse contexto, não surpreende que o número de casos de esgotamento extremo seja alto. Não estamos falando de mero cansaço, mas de burnout: um estado de colapso físico, emocional e espiritual. Crises de ansiedade, doenças recorrentes, insônia, sensação de vazio perante a própria prática religiosa, vontade de desistir de tudo acompanhada de culpa profunda, esses sinais se repetem em muitos terreiros, embora ainda sejam pouco nomeados.

Esse adoecimento não é fruto de fragilidade individual, mas da forma como estruturamos as relações com o sagrado. Quando a comunidade procura seus dirigentes diuturnamente, como se fossem um serviço sempre ligado, sem qualquer reflexão sobre os limites dessas pessoas, contribui diretamente para o desgaste. A dor de quem busca ajuda é legítima, mas a forma como tratamos quem oferece essa ajuda precisa ser revista.

Humanizar o sacerdócio é reconhecer que ninguém é fonte infinita. Isso vale para todos os pais e mães de santo. Mas, no caso das lideranças femininas negras, é necessário ir além: enfrentar o machismo e o racismo que naturalizam a sobrecarga, redistribuir responsabilidades dentro da casa religiosa, abrir espaço para que elas falem de suas dores sem serem acusadas de não "segurarem o axé".

A desumanização leva ao burnout. E, quando uma liderança espiritual entra em colapso, não é apenas uma pessoa que sofre: toda a comunidade perde. Se queremos terreiros, templos e casas de fé fortes, precisamos aprender a cuidar de quem cuida. Permitir que sacerdotes e sacerdotisas sejam plenamente humanos não diminui o sagrado. Pelo contrário: é exatamente aí que ele se revela com mais verdade.

 

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