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Terras raras: o Brasil entre a riqueza mineral e o poder tecnológico

A pergunta decisiva não é quanto minério o país possui, mas o que pretende fazer com ele. Desta vez, há a possibilidade de transformar a vantagem geológica em conhecimento, tecnologia e capacidade industrial

Anderson Gomes - Físico, diretor do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE)

Durante décadas, o Brasil acostumou-se a medir sua riqueza pela abundância de recursos naturais. Minério de ferro, petróleo, soja e outras commodities consolidaram uma economia integrada ao comércio internacional. Esse modelo trouxe ganhos, mas também uma pergunta recorrente: por que países ricos em recursos naturais nem sempre conseguem transformar essa riqueza em desenvolvimento tecnológico e industrial? A emergência dos minerais críticos, especialmente das terras raras, recoloca a questão em novos termos.

Presentes em turbinas eólicas, veículos elétricos, equipamentos médicos e dispositivos eletrônicos, esses elementos tornaram-se indispensáveis à economia do século 21. Por isso, integram as estratégias industriais das principais economias. A disputa não envolve apenas o acesso ao minério, mas capacidades industriais, domínio tecnológico, conhecimento e autonomia estratégica.

Essa talvez seja a principal mudança de paradigma que o Brasil precisa compreender. O verdadeiro ativo estratégico não é a reserva mineral, mas a capacidade de transformá-la em produtos, tecnologia, empregos qualificados e inserção internacional. Exportar concentrados pode gerar receitas, mas dificilmente modifica a posição de um país nas cadeias globais de valor. O maior valor está no processamento, no refino, nos materiais avançados e nos produtos finais.

Os números dimensionam o desafio. O Brasil detém cerca de 25% das reservas mundiais conhecidas de terras raras, a segunda maior participação do planeta, atrás apenas da China. Em 2024, porém, respondeu por aproximadamente 0,15% da produção global e não teve participação no refino. A China concentrou 91% dessa etapa. A distância entre esses indicadores mostra que abundância mineral e capacidade industrial não são sinônimos. A vantagem brasileira permanece no subsolo, enquanto as etapas de maior valor são realizadas fora do país.

O Brasil possui competência em mineração e engenharia e um sistema de ciência e tecnologia capaz de sustentar processos de inovação. Ao mesmo tempo, enfrenta baixa capacidade de refino, reduzida integração industrial e limitada apropriação do valor agregado. Se permanecer restrito à exportação de matérias-primas, poderá ocupar novamente uma posição periférica. Se desenvolver capacidades ao longo da cadeia, poderá transformar uma vantagem geológica em vantagem competitiva duradoura. É essa escolha que diferencia uma política mineral de uma estratégia de desenvolvimento.

O tema já integra a agenda nacional de ciência, tecnologia e inovação. A Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação 2024-2034 reconhece os minerais estratégicos e críticos como área prioritária. Nessa perspectiva, o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), supervisionado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, coordenou o estudo Terras Raras no Brasil: Estado da arte, cenários e um mapa do caminho estratégico para 2026-2040.

Publicada em 2026, a obra parte de um diagnóstico fundamental: o desafio não está apenas na descoberta de depósitos, mas na organização de uma cadeia que articule mineração, refino, indústria, ciência, inovação e sustentabilidade. Para 2026-2030, o mapa propõe medidas de governança, licenciamento, separação e refino, produção de ímãs, formação profissional e financiamento.

A principal contribuição do estudo é indicar o que precisa ser feito, por quem e em que prazo. Sem coordenação e continuidade, a abundância mineral brasileira continuará sendo apenas uma promessa. Com base no cenário da Agência Internacional de Energia, o estudo indica que o país poderá responder por 5% a 8% do refino mundial em 2040.

Essa oportunidade não permanecerá aberta indefinidamente. À medida que investimentos e alianças industriais avançam, aumenta o custo de uma entrada tardia. O Brasil, contudo, ainda pode escolher sua posição na cadeia antes que ela esteja consolidada.

O debate sobre terras raras não se limita, portanto, à mineração. A pergunta decisiva não é quanto minério o país possui, mas o que pretende fazer com ele. Desta vez, há a possibilidade de construir uma trajetória diferente: transformar a vantagem geológica em conhecimento, tecnologia e capacidade industrial. Essa escolha definirá o lugar do Brasil em uma cadeia estratégica para a economia do século 21.

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