Opinião

A ignorância 'antivax' e as bexigas

Se bexigas purulentas voltarem a cobrir rostos e corpos, causar cegueira e matar 30% dos infectados, já sabemos de quem cobrar a conta

Popularmente conhecida como bexiga, durante milhares de anos a varíola foi uma das doenças mais devastadoras da humanidade. Apesar de a doença ter sido muito associada ao período moderno, recentemente, pesquisadores do Instituto Científico Medea e da Universidade de Milão, na Itália, concluíram que a família de vírus Orthopoxvirus surgiu há pelo menos 3,8 mil anos.

Os cientistas rastrearam a evolução do micro-organismo, comparando cepas modernas e históricas. Depois, modelos matemáticos ajudaram os pesquisadores italianos a estimarem quando a varíola surgiu. A data sugerida, de quase 4 mil anos, combinou com evidências arqueológicas. Algumas múmias egípcias, incluindo a do faraó Ramsés V, tinham na pele as cicatrizes da doença, caracterizada por bolsas repletas de pus, semelhantes a bexigas cheias de ar. 

Os que sobreviviam à varíola, ao menos tornavam-se imunes a ela. Com esse conhecimento, na China, na África e na Índia já se inoculava o material das pústulas muito antes dos experimentos do franco-britânico Edward Jenner, no fim do século 18. Era um procedimento arriscadíssimo, mas, quando dava certo, protegia contra o terrível Orthopoxvirus variolae. 

A chegada dessa técnica à Europa é atribuída por historiadores à inglesa Lady Mary Wortley Montague. Em 1715, ela ficou desfigurada ao contrair a varíola. Em Istambul, descobriu que a corte otomana era adepta da inoculação e ficou impressionada. Ela havia perdido um irmão de 18 anos para a doença e, determinada a evitar que mais alguém de sua família morresse de varíola, ordenou que os filhos de 4 e 5 anos fossem inoculados com a pústula. 

No fim daquele século, o naturalista Jenner deu um passo fundamental rumo à erradicação da varíola. Inoculou o vírus no pequeno James Phipps, de 8 anos. No mês seguinte, a criança passou pelo mesmo procedimento e, dessa vez, não desenvolveu nenhum sintoma da varíola. 

Graças à sabedoria e à coragem de mulheres e homens que observaram, testaram, erraram e acertaram, a doença foi eliminada em todos os continentes na década de 1980. Isso após uma campanha massiva de vacinação, que não encontrou resistência.

Desde o fim da década de 1990, quando um artigo falso associou a tríplice viral ao autismo, porém, o movimento dos "antivacina" vem se fortalecendo. No ano passado, pesquisadores da Universidade de Washington fizeram uma revisão da literatura científica para entender o crescimento da hesitação vacinal nos Estados Unidos. Notícias falsas, má gestão da pandemia de covid-19 e polarização política foram os principais motivos. Muito parecido com o que se observa no Brasil, onde a cobertura vacinal passou de 96,3% em 2025 para 86,6%, dez anos depois. 

Um país que tanto se orgulhava de seu programa nacional de imunização — criado em 1973, durante a ditadura militar, diga-se de passagem — começa a se render à ignorância, em parte, devido a escolhas influenciadas por "lado político".  

A varíola humana não retornará. Mas há outras doenças causadas pela família dos Orthopoxvirus, como a Mpox, que poderão emergir. Se bexigas purulentas voltarem a cobrir rostos e corpos, causar cegueira e matar 30% dos infectados, já sabemos de quem cobrar a conta.

 

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