Por Antonio José Roque. Físico, diretor-geral do CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais) e professor titular do Instituto de Física da USP
Quando tensões no Oriente Médio ameaçam a segurança do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas do comércio mundial de petróleo, os mercados reagem imediatamente. A alta dos preços lembra uma realidade: a economia global permanece profundamente dependente dos combustíveis fósseis e vulnerável à geopolítica.
Não seria a primeira vez que uma crise energética externa levaria o Brasil a buscar uma resposta própria. Nos anos 1970, diante do choque do petróleo, o país não se limitou a procurar novos fornecedores. Investiu em uma alternativa baseada em ciência, tecnologia, agricultura tropical, engenharia e coordenação pública: o Proálcool.
A experiência com o etanol mostrou que uma vulnerabilidade pode ser transformada em vantagem. O que começou como resposta a uma crise de abastecimento criou uma das maiores plataformas de bioenergia do mundo.
Cinco décadas depois, o mundo vive uma nova inflexão. A crise climática exige a redução acelerada das emissões. Ao mesmo tempo, guerras e disputas comerciais recolocam a segurança energética e tecnológica no centro da agenda internacional. A transição energética deixou de ser apenas uma agenda ambiental. Tornou-se, também, uma questão de soberania, competitividade industrial e desenvolvimento.
É nesse ponto que, talvez, seja necessário refinar a linguagem do debate. Fala-se muito em descarbonização. Mas o desafio, para uma parte importante da economia, não é eliminar o carbono. Ele continuará sendo necessário em combustíveis líquidos de alta densidade energética, na aviação e no transporte marítimo, além de ser matéria-prima para a indústria química e diversos produtos.
O problema não é o carbono em si. É o carbono fóssil. Por isso, o conceito de desfossilização pode ser mais preciso. Desfossilizar significa substituir o carbono de origem fóssil — extraído do petróleo, do gás natural e do carvão — por carbono de fontes renováveis ou recicladas. Não se trata de retirar o carbono da economia, mas de mudar sua origem. Biomassa, resíduos, carbono reciclado e CO2 capturado com energia limpa podem se tornar novas fontes.
A mudança desloca a pergunta central, que passa a ser: de onde virá o carbono de que a economia continuará precisando?
O Brasil tem condições particularmente favoráveis para responder. O país reúne matriz elétrica majoritariamente renovável, agricultura tropical de alta produtividade, experiência em biocombustíveis, biomassa, áreas degradadas passíveis de recuperação produtiva e capacidade científica.
Essa combinação pode ser a base de uma nova estratégia de desenvolvimento. A ambição brasileira pode ir além dos biocombustíveis: o Brasil pode tornar-se uma potência em carbono renovável, transformando vantagens agrícolas e científicas em produtos e cadeias industriais de maior valor.
Etanol, biometano e combustíveis sustentáveis de aviação são parte importante dessa agenda, sobretudo nos setores mais difíceis de eletrificar. Mas a oportunidade é maior: envolve biorrefinarias, química verde e processos capazes de transformar biomassa e biodiversidade em produtos de maior valor.
Essa transformação pode contribuir para reduzir desigualdades regionais. Com ciência, conservação e agregação de valor local, diferentes vocações podem sustentar bioeconomias regionais, diversificar a produção e gerar novas oportunidades fora dos grandes centros.
Mas nada disso ocorrerá automaticamente. Ter biomassa não basta. Assim como o Proálcool exigiu ciência, engenharia, indústria e coordenação de longo prazo, a economia do carbono renovável exigirá domínio tecnológico. O Brasil não pode se contentar em exportar matéria-prima. Precisa desenvolver tecnologias próprias capazes de transformar recursos renováveis em produtos de maior valor agregado.
É nesse ponto que as instituições científicas nacionais ganham importância estratégica. O desafio é aproximar biodiversidade, biomassa, ciência e indústria.
A transição energética não terá uma única solução. A eletrificação será fundamental, assim como o hidrogênio em setores específicos e a eficiência energética. Mas, em áreas como aviação, transporte pesado, navegação, indústria química e produção de materiais, o carbono renovável poderá ter papel estrutural.
O Brasil já demonstrou que uma crise global pode abrir espaço para uma solução nacional. O choque do petróleo dos anos 1970 ajudou a impulsionar o Proálcool. A crise climática e as novas disputas geopolíticas do século 21 podem abrir outra janela histórica. É nesse momento que nos encontramos.
A transição já está em curso. A questão é se o Brasil transformará suas vantagens naturais e científicas em liderança tecnológica e industrial.
A desfossilização pode ser, ao mesmo tempo, uma política climática, um passo rumo à soberania energética e uma agenda de desenvolvimento. O Brasil reúne condições para fazer dessa transformação não apenas uma resposta às crises do presente, mas uma estratégia para construir parte da indústria do futuro.
