Artigo

Falta um mês para as eleições. E aí?

Nem mesmo as propostas para os próximos quatro anos parecem importar para grupos fiéis. Os planos de governo não são lidos, e os ouvidos estão fechados para outras opções. Os candidatos sabem disso

Por Daniel Abreu de Azevedo, professor de geografia política do Departamento de Geografia da UnB

Falta apenas um mês para as eleições e, seguramente, veremos uma chuva de denúncias sobre indivíduos que disputam o pleito ou estão, indireta ou diretamente, relacionados aos candidatos. Quanto mais acirrada for a disputa, mais tenso será esse momento pré-eleitoral. E tudo indica que este pleito será ainda mais difícil que o de quatro anos atrás.

Mas qual eleitor é, de fato, impactado por essas denúncias? Em uma sociedade altamente polarizada, para muita gente pouco importa a gravidade do que venha a público. O super-herói de estimação já foi escolhido há meses e, em alguns casos, anos. Nada impactaria o voto: apenas a militância e a adoração prévia importam. Todo o resto é tratado como perseguição ao político messiânico favorito. Paradoxalmente, nem mesmo as propostas para os próximos quatro anos parecem importar para esses grupos fiéis. Os planos de governo não são lidos, e os ouvidos estão fechados para outras opções. Os candidatos sabem disso. Não à toa, faltam deliberadamente momentos de debate: esse pouco caso com o ambiente público eleitoral não lhes tira os votos fiéis.

Há um terceiro grupo, aquele que não é fiel a um político "sob quaisquer circunstâncias". A esperança é de que denúncias e planos de governo atinjam esta parcela da população, aquela que pode decidir as eleições. Mas esse grupo reage de igual modo às denúncias, aos projetos e aos candidatos?

Na pesquisa Real Time Big Data divulgada em 1º de setembro, 11% afirmaram que votariam em branco ou nulo e 16% não souberam ou não responderam. São 27% sem voto atribuído a uma candidatura naquele momento, contingente capaz de alterar os rumos da eleição. Isso não significa que todos pertençam ao mesmo grupo. Quem rejeita as opções, quem ainda não decidiu e quem já escolheu sem aderir a uma militância incondicional têm motivações distintas.

Em artigo publicado na revista Opinião Pública em 2024, Frederico Batista Pereira e Felipe Nunes analisam um fenômeno importante para entender as eleições: as mudanças tardias na decisão do voto. A partir da diferença entre pesquisas feitas às vésperas do primeiro turno de 2022 e o resultado das urnas, mostram que nem toda discrepância decorre apenas de erros dos institutos. Uma parte pode resultar de movimentos nos últimos dias, ou horas, da campanha.

Os autores destacam dois mecanismos. O primeiro é o voto estratégico, o "voto útil": o eleitor abandona uma candidatura menos competitiva para tentar impedir a vitória daquela que mais rejeita. Infelizmente, em um ambiente polarizado, esse voto estratégico tende a ser muito grande. O problema é que mudar o voto apenas para derrotar o adversário mais rejeitado não garante uma escolha melhor. É fruto da política polarizada, que força o eleitor a votar no "menos pior" para evitar aquele que rejeita ainda mais. Assim, propostas que rompam essa lógica sequer entram em seu radar. A rejeição é compreensível, mas não deveria substituir a avaliação sobre competência, compromisso democrático e capacidade de governar. O voto útil mais útil ao país talvez seja aquele que olha além das pessoas e pergunta quais instituições cada candidatura pretende fortalecer ou enfraquecer.

O segundo mecanismo é o alinhamento tardio dos indecisos, que não necessariamente se distribuem na proporção indicada pelas pesquisas. Esses eleitores não são necessariamente os mesmos que rejeitam a militância incondicional. Os grupos podem se sobrepor, mas não se confundem. Ainda assim, o estudo lembra que a eleição permanece aberta a movimentos de última hora. A campanha importa: as denúncias, os debates, as propostas, os gestos e os silêncios. Importa também como cada candidatura reage quando confrontada: se explica, se corrige e respeita as regras ou apenas ataca quem pergunta.

Democracias não podem depender de salvadores. Indivíduos passam, mas instituições precisam permanecer. São elas que limitam o poder, protegem direitos e corrigem abusos. Quando se coloca uma pessoa acima das regras, a eleição corre o risco de deixar de ser um mecanismo de escolha para se transformar em ato de devoção.

No dia 4 de outubro, desejo sorte a todos nós. Torço para que as instituições estejam acima dos indivíduos e para que cada voto leve isso em consideração. Que, diante da urna, escolhamos não um herói de estimação, mas um projeto de país no qual ninguém seja maior do que a democracia.

 

Mais Lidas