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Entre gritos e sussurros: o teste da democracia

esta à população votar conforme o peso no bolso, a bolha que frequenta e sequestra sua atenção, a estabilidade do emprego, o consumo e qualidade de (des)informação

Há muito tempo defendo aqui, neste espaço, a democracia, que é o bem maior de todos os brasileiros. Também por muito tempo, carrego comigo a certeza de que as eleições, com seu legítimo instrumento, o voto, são a maior expressão desse sistema de governo em que o poder emana do povo, este sendo o responsável pela escolha de quem nos representa em governos, prefeituras e nos parlamentos.

Mas, nos últimos tempos, temos testado nossa democracia em outras frentes além das urnas. Nesta campanha, que já dava spoilers de virulência, além da paciência, precisamos de cautela para preservar o que nos resta quando estamos todos sob ataques de hospedeiros que drenam nossos recursos — corrupção, tráfico de influência, falta de transparência e de mecanismos de controle mais efetivos daqueles que se acham acima do bem e do mal. 

A crise no Supremo Tribunal Federal (STF), a reboque das revelações do Caso Master, o maior escândalo financeiro da história brasileira, é grave. Exposta em plena campanha, é gravíssima. O STF é o guardião da Constituição Federal, e seguirá sendo. Vai sobreviver ao desgaste provocado pelas controvérsias entre ministros, que devem se explicar, já que são infinitamente menores do que a instituição em si. Da mesma forma como são os políticos do Congresso e os presidentes eleitos que ocupam o poder de forma temporária. 

Assistimos a sucessivas crises institucionais e políticas em que as autoridades escolhem, entre gritos e sussurros, o que deve ser levantado e o que deve ser abafado. Fica extremamente difícil ao eleitor escolher seus candidatos quando a informação é surrupiada ou revelada a conta-gotas, em nome de interesses privados ou de ideologias políticas. 

O discurso contra a corrupção não convence, já que os tentáculos dela se estendem em múltiplas direções. Resta à população votar conforme o peso no bolso, a bolha que frequenta e sequestra sua atenção, a estabilidade do emprego, o consumo e qualidade de (des)informação. Mas talvez, seja hora do contrário: moral, ética, cidadania, honestidade, respeito ao próximo e os direitos fundamentais para a vida humana voltam a ser preceitos importantíssimos para decidir voto. 

Estamos dando passos largos para trás ou tirando a sujeira debaixo do tapete? Purgar é limpar, exterminar, purificar. É preciso aparecer a ponta de pus para vermos a infecção. Não precisava ser assim, nem neste momento. Porém, doa a quem doer, é preciso identificar as células vivas da corrupção para curar o problema. E exames de cultura, em que se isolam os bichos, costumam demorar. Por isso, é preciso cautela, atenção e controle.

Instituições fortes exigem salvaguardas fortes; democracia sustentável exige o entendimento de que o país e o coletivo são mais importantes que as pessoas, seus cargos e suas disputas de poder. Cada um deve se isolar um pouco, se distanciar, buscar um ambiente estéril para pensar com calma, fazer uma triagem segura de informações para decidir seu voto nesse momento de democracia inflamada, porém cada vez mais viva. Eu acredito na recuperação plena. Eu confio na força da Constituição e das instituições. E você? 

 

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