Artigo

Fim de festa, candidato

Não sei se é uma impressão única, mas aquele alvoroço pré-eleitoral está escanteado. Há uma explicação para isso. É a descrença

De um lado para o outro, nos quatro cantos do DF, lá estão eles com adesivos nas camisetas, santinhos nas mãos e sorriso estridente. Não serei tão radical. Sabemos, há muito tempo, como se comportam os candidatos a alguma coisa. É necessário comer pastel na feira. O povo precisa conhecer. É o momento de apresentar propostas e torcer pela mudança. É assim que falam, não é? Quase  nunca é assim, convenhamos. 

Não sei se é uma impressão única, mas aquele alvoroço pré-eleitoral está escanteado. Os carros de som, as bandeiras e até as musiquinhas que não saíam da cabeça parecem ter perdido espaço. Há uma explicação para isso. É a descrença. De tropeço em tropeço, candidatos, a incredulidade ocupa o trono. Uma pesquisa conduzida pelo cientista político Jairo Pimentel, da Fundação Escola de Sociologia e Política, revelou que 41% dos leitores estão desiludidos com a política; 73% não têm simpatia por nenhum partido; e 22% se abstêm de votar. Os motivos não estão centralizados na esquerda, na direita ou no centro, mas na incapacidade de resolver problemas básicos. 

O postulante sente esse clima gélido. Sente tanto que tenta aquecê-lo a todo custo, a começar pelo discurso no palanque. Vomitam promessas, apropriam-se da dor alheia e das tragédias. Outro dia, erraram feio o nome da Flávia Gomes, assassinada na frente da filha de 4 anos no Itapoã, ao clamar pelo fim da violência contra as mulheres. Nervosismo ou não, erraram. Não me lembro de ter visto nenhum deles no local do crime em apoio à família ou à criança, que permanecia aos fundos da casa, assustada e em choque. Nas redes sociais, porém, não faltaram manifestações de solidariedade.

Sinto informar, futuros governantes, mas os eleitores sabem distinguir o real e a novela. Estamos a menos de um mês das eleições. Se eu pudesse definir esta reta final, a palavra seria desespero. Preocupa-me. A afobação leva ao esvaziamento de pautas sérias e importantes. 

Ainda no contexto da segurança pública, tomo como exemplo o discurso montado em torno do sistema prisional: superlotação, o polêmico saidão e ressocialização. Os defensores do bordão "bandido bom é bandido morto" sobem ao estrado para berrar o que todos querem ouvir. Na prática, há uma âncora que parece arrastar essas pautas para o fundo do mar. 

No sistema de busca de Projetos e Proposições, no site da Câmara Legislativa, fiz uma consulta com as palavras-chaves "Papuda", "sistema prisional" e "saída temporária". Em 35 anos, desde 1991, constam 21 projetos de lei — uma média de um PL a cada 1 ano e 8 meses. Há propostas sobre implementação de câmeras corporais, criação de biblioteca na Papuda, suspensão da saída temporária em datas comemorativas, programa de ensino, homenagem etc.

Não cabe a mim dizer se 21 projetos são muito ou pouco. Cabe observar fora do papel. Entre 2025 e agosto de 2026, as cadeias do DF receberam 1.648 novos presos, segundo dados da Secretaria de Administração Penitenciária (Seape-DF). Em reportagem publicada pelo Correio em novembro do ano passado, mostramos também que o DF tinha mais presos que a Bahia e outros 15 estados. Se o sistema acumula presos e a reincidência aumenta, as políticas estão cambaleando, e os discursos políticos não se sustentam. 

Ao que parece, o cidadão deixou a ingenuidade para trás. Continuem pulando, dançando e sorrindo no palanque. Convencer, porém, será uma tarefa mais árdua.

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