Visão do Correio

Apostas entram nas salas de aula

Pesquisa mostra que um em cada cinco estudantes já fez apostas on-line; acesso começa, em média, aos 11 anos e expõe falhas na proteção de crianças e adolescentes

Um em cada cinco alunos do ensino fundamental e médio já fez apostas on-line. Entre os estudantes do terceiro ano do ensino médio, a proporção chega a quase metade. E o primeiro contato com as plataformas começa, em média, aos 11 anos. Esses são os dados de uma pesquisa divulgada na semana passada pela Frente Parlamentar Mista da Educação, com 1.912 estudantes de 191 escolas de todo o país. Os números não deixam margem para dúvida sobre a dimensão do problema.

Apostas on-line são legais no Brasil para maiores de 18 anos. Assim como bebida alcoólica e cigarro, trata-se de uma atividade permitida para adultos — regulamentada, tributada e sujeita a regras de funcionamento. O problema é que crianças e adolescentes estão acessando algo que não é para eles, em escala que as barreiras existentes claramente não conseguem conter. A lei proíbe, mas a realidade ignora a lei: 9,5% dos estudantes de até 11 anos já apostaram, e 41% dos meninos do ensino médio também.

A responsabilidade por essa falha é compartilhada, e nenhum dos atores envolvidos está se saindo bem. As plataformas operam com sistemas de verificação de idade que, na prática, não impedem o acesso de menores. Os pais, em sua maioria, desconhecem o comportamento digital dos filhos nessa área específica. As escolas incluem educação financeira nos currículos, mas a pesquisa aponta que letramento financeiro, sozinho, não reduz a exposição às apostas, e estudantes com maior conhecimento financeiro têm, na verdade, maior probabilidade de apostar. E o governo, que regulamentou o setor, ainda não conseguiu fazer com que as regras de proteção aos menores funcionem na prática.

Soluções centradas no comportamento individual, como orientações para moderar apostas e alertas nas plataformas têm efeito limitado. O que a evidência científica indica como eficaz é colocar a responsabilidade nos atores corretos: restrições à publicidade, tributação mais pesada sobre as transações e medidas de proteção específicas para menores. São escolhas de política pública, não de comportamento individual.

Professores e pais precisam estar atentos a um comportamento que acontece, em grande parte, fora do campo de visão dos adultos, no celular, na conta de um familiar, em plataformas que pedem poucos dados para liberar o acesso. A conversa sobre apostas precisa entrar no mesmo registro que já se tem sobre álcool e cigarro: não como interdição moral, mas como orientação clara sobre o que é permitido para adultos e o que não é para crianças. O problema existe, está crescendo e está nas escolas. Fingir que não está não é uma estratégia.

O governo tem instrumentos para agir, e a pesquisa aponta o caminho. O que falta é urgência. As perdas estimadas entre o público pesquisado ultrapassam R$ 1 bilhão. Não são apostas feitas por adultos que escolheram assumir esse risco. São apostas feitas por adolescentes que não deveriam ter chegado nem perto das plataformas. Enquanto isso não mudar, todas as partes envolvidas — governo, escolas, famílias e as próprias plataformas — continuam falhando.

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