ELEIÇÕES

A eleição que demorou a engrenar ferve na reta final

A eleição presidencial esquenta impulsionada pela crise no STF, Banco Master e a controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida, mas chega às urnas com ausência de debates diretos entre Lula e Flávio Bolsonaro

Vamos às urnas daqui a dois dias para uma eleição presidencial que demorou a engrenar. Durante boa parte dos 45 dias de campanha, candidatos e eleitores pareciam estar em uma espécie de stand-by eleitoral. A política estava presente, mas faltava aquela temperatura própria de uma disputa pelo Palácio do Planalto.

A chave virou nas últimas duas semanas. A crise institucional envolvendo o Supremo Tribunal Federal, o avanço das investigações sobre o Banco Master, as declarações cada vez mais duras dos candidatos e até a controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida levaram a campanha para o centro das conversas do país. As redes sociais fizeram o restante. A eleição passou a ocupar as ruas.

Brasília deu uma demonstração disso no fim de semana passado. Nas feiras do Guará e de Ceilândia, no Eixão do Lazer e em outros pontos de grande circulação, bandeiras de candidatos estavam espalhadas por todos os lados. Carros com bandeirinhas, uma cena quase esquecida, reapareceram. A presença simultânea de apoiadores de diferentes correntes políticas chamou atenção por um motivo simples: apesar da radicalização do discurso, não houve registro de confrontos graves.

É uma situação que merece ser valorizada. É possível, sim, o Brasil conviver com divergências profundas sem transformar adversários políticos em inimigos. Democracia pressupõe conflito de ideias. Violência é outra coisa.

Há, porém, uma frustração que não deve ser ignorada. Os dois candidatos que lideram as pesquisas, Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, não se enfrentaram em nenhum debate durante a campanha. O eleitor perdeu a oportunidade de assistir ao confronto direto entre os protagonistas da disputa.

Debates fazem parte da tradição democrática de países como Estados Unidos, França e Reino Unido. No Brasil, também se tornaram um dos momentos mais importantes das campanhas presidenciais. São imperfeitos, evidentemente. Ainda assim, permitem ao eleitor comparar discursos, propostas e respostas diante de perguntas semelhantes. Quando os principais concorrentes não se encontram, o marketing político acaba ocupando o espaço que deveria pertencer ao confronto de ideias.

É preciso ainda ficar atento nesses últimos dois dias a um fenômeno estudado à exaustão na ciência política: o voto útil. Pesquisas recentes mostram a migração crescente das intenções de voto para os dois candidatos que aparecem na frente. Os quatro nomes mais atrás nas sondagens eleitorais não decolaram e, tudo indica, desidrataram. É um comportamento conhecido nas eleições. O eleitor abandona a preferência inicial para apoiar um nome que considera mais competitivo ou capaz de impedir a vitória daquele que rejeita.

Dessa forma, a eleição que começou fria chega na reta final em alta temperatura. O domingo será o momento de transformar toda essa disputa em voto. Depois das urnas, será preciso conviver com o resultado, caso a disputa termine no primeiro turno. Esse é o compromisso básico de qualquer democracia. Se tivermos segundo turno, como aparenta ser o mais provável, teremos ainda mais três semanas até conhecermos o presidente eleito. Mas isso é assunto para depois.

 

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