Na política brasileira, a fé deixou de ser apenas uma expressão da consciência individual para ocupar espaço estratégico nas campanhas eleitorais. Em nome de Deus, candidatos buscam votos, adversários são transformados em ameaças e informações falsas encontram terreno fértil para se multiplicar. O fenômeno não tem dono, partido ou denominação religiosa.
Em 2022, uma das narrativas disseminadas contra Luiz Inácio Lula da Silva era a de que, se eleito, fecharia igrejas evangélicas. A acusação mobilizou lideranças religiosas e exigiu reação da campanha petista. Na ocasião, Lula citou como contraponto a sanção, em 2009, da lei que instituiu o Dia Nacional da Marcha para Jesus. A Lei 12.025 foi, de fato, sancionada por ele naquele ano.
Quatro anos depois, a religião voltou ao centro de uma controvérsia eleitoral, desta vez envolvendo Nossa Senhora Aparecida. Depois de Flávio Bolsonaro defender a declaração do Brasil como país pertencente ao Senhor Jesus Cristo, ganhou força nas redes sociais a versão de que o candidato pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do país.
Não há declaração de Flávio Bolsonaro nesse sentido. A alegação retomou, inclusive, conteúdos falsos que haviam circulado em eleições anteriores. Checagens publicadas durante a atual campanha também desmentiram a associação entre o candidato e uma suposta iniciativa para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
Os episódios têm personagens e circunstâncias diferentes, mas revelam uma característica comum da disputa política: a tentativa de mobilizar sentimentos religiosos por meio do temor.
O eleitor evangélico não pode ser tratado como alguém disposto a abrir mão de sua liberdade de culto diante de qualquer ameaça atribuída a um adversário. Da mesma forma, o católico não deve ser levado a acreditar que sua devoção está em risco com base em uma informação sem sustentação factual.
A Constituição assegura a liberdade de consciência e de crença, o livre exercício dos cultos religiosos e a proteção aos locais de culto e suas liturgias. São garantias que não pertencem a um partido, a um presidente ou a uma liderança espiritual. Protegem todos os brasileiros.
A questão merece atenção especial porque a fé é uma dimensão íntima, capaz de despertar sentimentos profundos de pertencimento, proteção e identidade. Quando a campanha transforma essa dimensão em instrumento de medo, o debate público perde espaço para a desconfiança e a hostilidade.
Não se trata de impedir que candidatos expressem suas convicções religiosas ou dialoguem com comunidades de fé. A liberdade de manifestação também os contempla. O limite está em atribuir intenções inexistentes a adversários, disseminar acusações sem provas e estimular a percepção de que a vitória de um grupo representa uma ameaça à existência religiosa do outro.
Em uma democracia plural, o cristão não precisa escolher entre sua fé e a cidadania. Tampouco deve aceitar que sua crença seja utilizada como procuração eleitoral.
A história recente oferece uma lição que atravessa os dois episódios: quando o medo religioso muda de endereço conforme o lado da disputa, talvez seja preciso olhar menos para a religião e mais para o uso político que se faz dela.
Na urna, a consciência deve falar mais alto do que a corrente de mensagens. Fé não é instrumento de manipulação. E liberdade religiosa não pode ser privilégio de quem pensa igual. Vote em paz!
