Leandro Villas — presidente do Itec (Instituto de Tecnologia e Computação) e professor titular da Unicamp
Um dado do 16º Mapa do Ensino Superior, do Semesp, resume o desafio que o Brasil tem pela frente: a taxa de escolarização líquida no ensino superior permanece estagnada em torno de 20% — em 2024, foi de 20,8%, contra 19,9% no ano anterior. Ou seja, apenas um em cada cinco jovens em idade de cursar uma graduação está na universidade. Há muito talento fora desse quinto, e alcançá-lo é uma das tarefas mais decisivas para o futuro do país. Eu quase fiquei de fora.
Durante quatro anos, minha sala de estudos foi um ônibus. Eu saía de Salmourão, no interior de São Paulo, e levava duas horas por dia, entre ida e volta, para ir à faculdade em Adamantina. O resto do tempo se dividia entre as aulas e o trabalho. Entrei pela lista de espera: não passei de primeira no vestibular e só consegui a vaga quando outros candidatos desistiram.
Conto isso porque a minha nota dizia pouco sobre o que eu poderia fazer depois. Ela dizia sobre o que eu tinha recebido até ali. Meus pais, que não tiveram a oportunidade de estudar, não podiam me mostrar um caminho que eles próprios nunca haviam percorrido.
O que mudou a minha trajetória foi uma sequência de oportunidades e de pessoas. Uma iniciação científica me apresentou à pesquisa. Uma orientadora de mestrado apostou em um aluno vindo de uma instituição pouco conhecida e com nota abaixo da média no exame de acesso à pós-graduação. No doutorado, um orientador me abriu as portas de uma rede internacional. Hoje, sou professor titular de uma universidade pública, acabo de assumir a presidência acadêmica de uma instituição filantrópica de ensino e passei a carreira formando cientistas da computação.
Não conto isso como uma história de superação individual. Conto porque ela ilustra um problema coletivo e caro ao país: o Brasil tem talentos distribuídos por todo o seu território, mas a oportunidade para que se desenvolvam frequentemente não os alcança.
Nossos mecanismos de seleção são bons em medir desempenho prévio e ruins em enxergar potencial. Uma prova padronizada captura, em boa medida, a qualidade da escola que o candidato frequentou, o tempo livre que teve para estudar, o cursinho que pôde pagar. Quando a seleção se reduz a esse retrato, jovens com grande potencial ficam pelo caminho. Não por não terem condições de acompanhar um curso de excelência, mas porque chegaram à largada em desvantagem.
Isso costuma ser tratado como questão de justiça social, e é. Mas é também uma questão de competitividade tecnológica. A inteligência artificial e a computação estão redefinindo como se produz conhecimento e como se cria valor. A pergunta que o Brasil precisa responder é direta: queremos seguir sendo, sobretudo, consumidores de tecnologia desenvolvida fora ou queremos ser também criadores? Se a resposta for a segunda, precisamos encontrar esses talentos e oferecer a eles a oportunidade de desenvolverem essas habilidades com excelência técnica e responsabilidade ética.
Existe uma armadilha nessa conversa. Ampliar o acesso, sozinho, não resolve. Já vi jovens entrarem em uma universidade de excelência e saírem meses depois, derrotados não pela falta de capacidade, mas pela impossibilidade de pagar o aluguel, pela distância da família, pela sensação de não pertencer àquele lugar. Abrir a porta é apenas o começo.
Ao longo de minha trajetória, o que vi produzir os maiores saltos não foi a prova mais difícil nem o laboratório mais equipado, mas a combinação de exigência alta com acompanhamento próximo. Altas expectativas sem apoio viram pressão; com apoio, extraem das pessoas o melhor que elas têm.
É esse aprendizado que me trouxe para a presidência do Itec (Instituto de Tecnologia e Computação), iniciativa filantrópica que nasce para formar criadores de tecnologia no Brasil, com graduação em ciência da computação em regime integral e residência no campus, bolsas de estudo e um professor para cada 10 estudantes. Um novo modelo, criado para se somar ao ecossistema brasileiro e desenhado desde a origem para buscar talento onde ele costuma ser invisível.
O futuro tecnológico de um país não se decide apenas em política industrial, incentivo fiscal ou centro de pesquisa. Ele se decide no número de jovens que conseguem atravessar a distância entre o potencial que têm e a formação que recebem. Reduzir essa distância é uma construção coletiva, aberta a empreendedores, educadores e instituições que queiram participar dela. Cada jovem que a atravessa pode trazer consigo soluções para um problema que ninguém mais teria imaginado.
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