*Por Gunther Rudzit, professores de relações internacionais da ESPM, professor convidado da Universidade da Força Aérea (Unifa), membro do grupo de análise da conjuntura internacional da USP
O eleitor brasileiro historicamente não vota pensando em política externa. O problema é que, pela primeira vez em décadas, a forma como o Brasil se insere na ordem internacional pode determinar uma parcela crescente dos problemas sobre os quais ele vota.
Quando terminar o segundo turno, os desafios do próximo presidente já estarão em boa medida definidos. Eles não dependem do resultado das urnas. A ordem internacional atravessa uma ruptura. A competição entre Estados Unidos e China alcançou áreas antes tratadas como econômicas ou tecnológicas. Semicondutores, inteligência artificial, minerais críticos, energia e infraestrutura passaram a ser analisados também sob a ótica da segurança nacional.
Isso coloca em questão uma resposta tradicional da política externa brasileira: buscar autonomia por meio da diversificação de parceiros, da equidistância e de relações de geometria variável. Essa estratégia funcionava melhor em uma ordem na qual economia, tecnologia, comércio e segurança eram vistos como esferas relativamente separadas e predominava a expectativa de que a interdependência produziria benefícios compartilhados. Esse ambiente mudou.
A Estratégia de Segurança Nacional americana de 2025 recolocou o Hemisfério Ocidental entre as prioridades de Washington. Ao mesmo tempo, a China tornou-se indispensável ao comércio exterior brasileiro e responde por parcela decisiva do superavit comercial do país.
O Brasil está, portanto, inserido no espaço estratégico que os Estados Unidos voltaram a tratar como prioritário e, simultaneamente, mantém com a China uma relação comercial estrutural. Equidistância diplomática não elimina essa dupla dependência.
O próximo governo terá de identificar quais dessas dependências podem se transformar em vulnerabilidades e em quais setores substituir fornecedores, tecnologias ou mercados seria difícil, lento ou excessivamente caro. Daí decorre um segundo desafio: a segurança econômica.
Já não basta perguntar quanto investimento será atraído ou qual será o impacto sobre as exportações. É preciso saber também quem controla determinada tecnologia, onde ocorre o processamento de um mineral crítico e o que acontece se determinado acesso for interrompido.
O Brasil tem recursos minerais, energia, capacidade agrícola e mercado consumidor. Mas possuir recursos não significa automaticamente possuir poder. O desafio será transformá-los em capacidade industrial e tecnológica e reduzir vulnerabilidades externas.
O mesmo raciocínio vale para a defesa nacional. As guerras recentes mostram que drones, inteligência artificial, satélites e redes digitais estão transformando rapidamente o poder militar. O problema brasileiro não será apenas comprar equipamentos, mas compreender como essas tecnologias alteram doutrina, organização e indústria.
Uma força pode possuir sistemas sofisticados e, ainda assim, depender de componentes, software, satélites ou munições cuja disponibilidade esteja fora de seu controle. Defesa e segurança econômica já não podem ser pensadas separadamente.
Há ainda um desafio diretamente ligado ao entorno regional: a expansão do crime organizado transnacional. Organizações que operam a partir do território brasileiro conectam fronteiras, portos, fluxos financeiros, armas, drogas e mercados externos. Combatê-las exige segurança pública, inteligência financeira, fiscalização aduaneira, cooperação internacional e controle de fronteiras.
Não é apenas um problema policial. É justamente aí que aparece talvez o desafio institucional mais importante. O Brasil precisa de uma política de segurança nacional capaz de coordenar problemas que já não cabem nas fronteiras tradicionais dos ministérios e das agências.
Segurança nacional não é sinônimo de defesa nacional, nem pode ser reduzida à segurança pública. Ela exige integrar política externa, defesa, inteligência, economia, infraestrutura, tecnologia, fronteiras, segurança pública e sistema financeiro.
O crime organizado transnacional é apenas um exemplo. Infraestrutura crítica, segurança energética e dependência tecnológica também atravessam competências distribuídas pelo Estado. Cada instituição pode cumprir sua missão e, ainda assim, o país permanecer vulnerável se não houver coordenação.
O eleitor pode continuar não votando sem perceber quanto sua vida é afetada pela inserção internacional do Brasil. Mas o próximo presidente dificilmente poderá governar sem definir como o Brasil pretende se inserir nessa nova ordem internacional.
Qualquer que seja o resultado das urnas, autonomia não significará apenas manter distância entre grandes potências. Significará compreender de que o Brasil depende, onde possui capacidade de escolha, em quais áreas precisa construir alternativas e como organizar o Estado para enfrentar riscos que já não respeitam as antigas divisões entre economia, segurança, defesa e política externa.
