GOVERNO

Bolsonaro reconhece que recuperação econômica não será rápida

Presidente admite que volta à normalidade deve demorar, mas minimiza pandemia. E chama de ''ditadores nanicos'' prefeitos e governadores que não priorizam economia

Luiz Calcagno
postado em 09/06/2020 06:00 / atualizado em 05/09/2020 23:33
 (foto: Carolina Antunes/PR)
(foto: Carolina Antunes/PR)

O presidente Jair Bolsonaro avisou, ontem, que a recuperação econômica do país no pós-pandemia não será rápida, mas voltou a minimizar os efeitos da crise do novo coronavírus. O Brasil já registrou mais de 126 mil mortes pela covid-19. O chefe do Executivo deu a declaração durante visita às obras de recuperação da pista principal do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Ele aproveitou para atacar governadores e prefeitos, os quais chamou de “ditadores nanicos”.

“O pessoal não tem que ter medo da realidade. Eu falei, lá atrás, que (a doença) ia pegar uma grande quantidade de gente. Para tomar cuidado dos mais idosos, dos que possuem comorbidades, e enfrentar. Esperamos que volte à normalidade o país. Eu digo o mais rápido, porque não vai ter como ser rápido, mas não tão demorado, também”, enrolou-se.

Para o economista-chefe da Necton, André Perfeito, a fala de Bolsonaro sinaliza a possível influência do ministro da Economia, Paulo Guedes, em detrimento da ala militar e do Centrão, interessados em um 2021 — e 2022 — com investimentos públicos e programas sociais para reaquecer a economia. “Essa fala revela que o Paulo Guedes, talvez, tenha conseguido convencer o presidente que a velocidade vai ser lenta. Guedes está tentando controlar o longo prazo. Especialmente, a dívida pública. A fala do presidente incorpora essa leitura do ministro. Isso aponta para uma situação fiscal mais conservadora e agrada o mercado pelos juros baixos”, avaliou.

O especialista afirmou, também, que o governo acertou, na área econômica, no combate à pandemia do novo coronavírus, embora tenha sido tímido no montante destinado a apaziguar a crise. O problema, lembrou, é que o governo federal não teve coordenação. Passou por dois ministros da Saúde — Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich — e permanece há meses com um interino, o general Eduardo Pazuello. A má sinalização provocou incerteza no mercado. “A forma desencontrada do governo federal de enfrentar a pandemia, com dois ministros da Saúde e um interino, deixou o futuro nublado, a despeito de jogar os juros para baixo”, explicou.

Autonomia

O presidente Bolsonaro retornou no início da tarde de ontem a Brasília após viajar para São Paulo na quinta-feira para cumprir agendas no interior e na capital do estado. “Alguns governadores, quero deixar claro, queriam proibir pousos. Alguns governadores fecharam rodovias federais, como o do Pará (Helder Barbalho, do MDB), por exemplo, e tiraram o poder de resolver as questões como eu achava que devia resolver. Como alguns me acusam de ditador, os projetos de ditadores nanicos que apareceram no Brasil afora, não só em áreas estaduais, municipais também, fica de ensinamento essa pandemia aí”, disparou, durante a visita às obras na pista de voo do Aeroporto de Congonhas.

Ao mencionar que teria perdido “o poder de resolver as questões como eu achava que devia resolver”, o presidente fez menção à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de 15 de abril. À época, os ministros entenderam que as ações de enfrentamento à pandemia de coronavírus do governo, com base na Medida Provisória 926/2020, não retiravam de governadores e prefeitos a capacidade de tomar providências locais de combate ao vírus. Diferentemente do que disse o mandatário do país, o governo federal não ficou impedido de agir. Quando houve o julgamento, Bolsonaro estava usando a MP para interferir nas medidas de isolamento social.

A primeira escala no estado de São Paulo foi na quinta-feira, cidade de Tapiraí, onde em meio a aglomeração e sem máscara, cumprimentou apoiadores que o aguardavam no local. Já em Pariquera-Açu, no Vale do Ribeira, participou da apresentação do projeto de uma ponte que custará R$ 15 milhões. No mesmo dia, o presidente participou, ainda, de um evento de apresentação do projeto da ponte de acesso ao Bairro Boa Esperança e ao Quilombo São Pedro, na cidade de Eldorado. O presidente também cumpriu agendas no município de Registro. Bolsonaro viajou acompanhado dos ministros da Justiça, André Mendonça, e do Meio Ambiente, Ricardo Salles; e do deputado federal Marco Feliciano (Podemos-SP).

Os conselheiros de Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro tem conseguido, aos poucos, deixar o governo cada vez mais alinhado com o seu projeto de reeleição. O mandatário já não dá mais tantos ouvidos ao seu “Posto Ipiranga” e encontrou em um grupo de ministros conselheiros o que precisava para colocar em marcha um projeto de forte apelo popular, baseado no reforço dos programas sociais e dos investimentos públicos.

O ministro da Economia, Paule Guedes, é um dos poucos auxiliares, dentro do governo, que ousam dizer coisas que o presidente não gostaria de ouvir. A franqueza tornou-se em desgraça após Guedes alertar que Bolsonaro poderia ser alvo de impeachment caso se entregasse ao canto da sereia de “ministros fura-teto”. Ao destacar a necessidade do cumprimento do teto de gastos públicos, o titular da Economia referia-se a um grupo de ministros que tem convencido o presidente a ir adiante com o Pró-Brasil, um programa que inclui iniciativas de distribuição de renda e de investimentos em obras públicas para tirar o país da crise.

As declarações de Guedes foram interpretadas, no meio político, como uma crítica aos ministros que assumiram os papéis de conselheiros do presidente, também, na área econômica. São eles Braga Netto (Casa Civil); Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo); Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura); e Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) — este último é um dos maiores desafetos do titular da Economia. Os dois primeiros pertencem à chamada ala militar do governo, que defende a adoção de uma política desenvolvimentista e que, por isso, entrou em choque direto com Guedes.

Segundo o grupo de ministros, os programas sociais e os investimentos públicos são a melhor saída para o governo enfrentar os desgastes políticos provocados pela pandemia e, também, para o presidente turbinar sua popularidade. Exemplo disso é o pagamento do auxílio emergencial a milhões de brasileiros, que contribuiu para o aumento da aprovação popular de Bolsonaro, fato atestado por pesquisas de opinião.

Social

Pouco mais de um ano e meio depois da posse como presidente, Bolsonaro parece ter encontrado, finalmente, uma direção para o seu governo. Daqui até as eleições de 2022, ele vai focar no social, uma área que não vinha merecendo a menor atenção desde a campanha presidencial em 2018. Com essa bandeira, o presidente tem viajado pelo país para uma série de inaugurações, principalmente na região Nordeste, reduto eleitoral do PT e de outros partidos de esquerda.

O discurso pelo social está afiado e o chefe do governo demonstrou isso na semana passada, quando criticou publicamente a proposta da equipe de Guedes para o Renda Brasil, uma das iniciativas do Pró-Brasil e que deve substituir o Bolsa família dos governos petistas. Além de desaprovar o conteúdo, o presidente aproveitou a oportunidade para mandar aos eleitores a mensagem de que se preocupa com os pobres. Durante uma solenidade em Minas Gerais, o chefe do governo disse que não poderia “tirar de pobres para dar para paupérrimos”, ao criticar a ideia de Guedes sobre extinguir o abono salarial dos trabalhadores como forma de conseguir recursos para o Renda Brasil.

Resiliência

Para Ricardo Caichiolo, cientista político do Ibmec/DF, o melhor adjetivo para Paulo Guedes é “resiliente”, em razão das pressões que o ministro tem enfrentado. “Essa fase do governo, inaugurada por conta dos impactos da pandemia, vai ao encontro dos desejos dos ministros 'fura-teto'; por outro lado, coloca contra a parede a equipe econômica, que tem de identificar meios para ampliar o número de beneficiários com o novo programa (Renda Brasil) e, ainda, aumentar o valor do benefício. Ordens do mandatário, afinal de contas, 2022 está logo ali. Há que se verificar se até lá a resiliência do ministro terá seu prazo de validade vencido”, opina o especialista ao Correio.

Já o professor Paulo Calmon, diretor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), destaca que, por trás da guinada social do governo, está, também, o interesse nas eleições municipais deste ano, que estabelecem as bases para a disputa em 2022.

“A sociedade brasileira foi duramente atingida pela pandemia da covid-19, com impacto importante no nível de atividade econômica, geração de desemprego e aumento da pobreza e desigualdade. Nesse contexto, a insistência na manutenção de uma política de austeridade fiscal muito rígida, como a preconizada pelo ministro Paulo Guedes, é difícil de sustentar politicamente e possui um custo social e econômico muito acentuado e concentrado para os próximos meses. O conflito surge daí”, diz Calmon.

“Além de uma disputa política, o conflito entre essas diferentes visões configura, também, a disputa de interesses, poder e influência no governo... Paulo Guedes, mais associado ao capital financeiro e aos investidores estrangeiros; e os desenvolvimentistas, mais associados ao setor produtivo nacional. Era uma tensão que já existira há algum tempo, mas que ganha contornos mais dramáticos com a proximidade das eleições e que deve criar rusgas importantes na equipe ministerial nas próximas semanas”, acrescenta o docente da UnB.

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