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Em processo de fritura, Guedes tem até amanhã para apresentar nova proposta do Renda Brasil

Bolsonaro critica proposta de Paulo Guedes de acabar com programas sociais para criar o Renda Brasil, substituto do Bolsa Família, diz que o texto está suspenso e fixa prazo de três dias para que o chefe da equipe econômica elabore novo projeto

Luiz Calcagno
Jorge Vasconcellos
Ingrid Soares
postado em 27/08/2020 06:00
 (foto: Marcos Correa/PR)
(foto: Marcos Correa/PR)

O presidente Jair Bolsonaro criticou publicamente, nesta quarta-feira (26/8), a proposta do Renda Brasil, apresentada pela equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, durante reunião na terça-feira. Ao participar da solenidade de religamento do Forno 1 da Usiminas, em Ipatinga (MG), o chefe do Executivo informou que determinou a suspensão do lançamento desse projeto e de outras ações do Pró-Brasil, um pacote de medidas econômicas e sociais para tirar o país da crise. Ele deu três dias para Guedes apresentar uma nova proposta. O episódio foi visto, no meio político, como parte de um processo de fritura e de desmoralização do ex-superministro, cuja saída do governo vem sendo dada como certa.

Uma das propostas que incomodaram Bolsonaro foi a de utilização do abono salarial dos trabalhadores (pago aos que ganham até dois salários mínimos) como uma das fontes para bancar o programa social. “Ontem (terça-feira), discutimos a proposta, a possível proposta do Renda Brasil. Eu falei: 'Está suspenso'. Vamos voltar a conversar. A proposta como a equipe econômica apareceu para mim não será enviada ao Parlamento. Não posso tirar de pobres para dar para paupérrimos”, disparou. “Não podemos fazer isso. Como a questão do abono para quem ganha até dois salários mínimo. Seria, né, um 14º salário. Não podemos tirar isso de 12 milhões de pessoas para dar para um Bolsa Família ou um Renda Brasil, seja lá o que for o nome deste novo programa.”

Em seguida, ele demonstrou que não está satisfeito com os resultados do trabalho da equipe econômica. “Ou o Brasil começa a produzir, começa a, realmente, fazer o plano que interessa a todos nós, que é o melhor programa social que existe, que é o emprego, ou estamos fadados ao insucesso”, frisou. “Não posso fazer milagre e conto com todos os brasileiros para que cada um faça o melhor de si para tirar o Brasil da situação difícil em que se encontra, que não é de hoje.”

Na proposta inicial de Guedes, o benefício do Renda Brasil, o novo Bolsa Família, teria o valor médio de R$ 247, superior aos R$ 190 pagos atualmente pelo programa criado no governo do ex-presidente Lula (PT). A ideia é atender a cerca de 21 milhões de famílias de baixa renda — os 14 milhões que já recebem o Bolsa Família e mais 6 ou 7 milhões de “invisíveis” que o governo encontrou com os cadastros do auxílio emergencial.

Bolsonaro, porém, espera que o ministro da Economia consiga aumentar a proposta, o que, entre outras repercussões, poderia turbinar sua popularidade, a exemplo do que ocorreu com o auxílio emergencial.

O presidente também não quer arcar com o ônus político de tirar benefícios já concedidos à população mais carente para bancar o Renda Brasil. Resta saber, agora, de onde virão os recursos. Uma das propostas de Guedes é dar fim às deduções do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF). Ele também vem sugerindo a extinção de programas sociais que considera ineficientes, como o seguro-defeso (pago a pescadores artesanais no período de reprodução dos peixes, quando a pesca é proibida) e o Farmácia Popular.

Mercado

As críticas públicas de Bolsonaro ao trabalho da equipe do ministro, com a suspensão do envio da proposta do Renda Brasil ao Congresso, levaram apreensão ao mercado financeiro. Além da incerteza sobre a permanência de Guedes no governo, a ideia do chefe do Executivo de elevar o valor do benefício a ser pago pelo programa provocou preocupação em relação à obrigação de cumprimento do teto de gastos.

Além disso, circularam rumores de que Guedes convocaria uma coletiva de imprensa para comunicar sua saída do governo. A assessoria de imprensa do Ministério da Economia precisou emitir uma nota para desmentir a informação. “Não procede marcação de coletiva para pedido de demissão. Ministro continua despachando normalmente. Estava em reunião com secretários de Fazenda, conforme agenda”, diz o comunicado da pasta.

Guedes tornou-se alvo de um processo de fritura dentro do governo em razão de embates com ministros que querem abrir exceções no teto dos gastos para investimentos públicos. Nessa disputa, em dois momentos, mesmo que de forma dúbia, Bolsonaro posicionou-se publicamente ao lado do chefe da equipe econômica. Nesta quarta, porém, as críticas à proposta do Renda Brasil levam a crer que esse apoio pode ter chegado ao fim.

O economista José Luís Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB), considerou que Guedes pode sair em breve. “Acho que Guedes não fica no cargo. O presidente quer o programa Renda Minha de R$ 300, e Guedes quer fundir programas já existentes que, juntos, não chegam a R$ 250. A única alternativa é flexibilizar o teto para atender ao que Bolsonaro e a ala militar desejam, mas Guedes não fará isso”, avaliou. “É um problema insolúvel. Guedes não tem como entregar o que o governo deseja.”

Dólar sobe, Bolsa cai

O mercado financeiro registrou, ontem, mais um dia de forte oscilação, ainda refletindo as apreensões em relação ao aumento do deficit fiscal do governo, mas também puxado pela indicação de novo atrito entre o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes. Depois de chegar a R$ 5,63 na máxima do dia, o dólar encerrou o pregão negociado a R$ 5,61, o que representou uma variação de 1,59%. Já o Ibovespa, principal índice da B3, teve queda de 1,46%, aos 100.627 pontos — a despeito do movimento favorável no exterior, com o S&P500 e a Nasdaq renovando máxima histórica.

Mourão defende permanência do ministro

O vice-presidente Hamilton Mourão comentou, ontem, os rumores sobre a possível saída do ministro da Economia, Paulo Guedes. Ele defendeu a permanência do “Posto Ipiranga” e disse que o titular da equipe econômica tem a “resiliência necessária”. O general também afirmou que o mercado é como um gado, um “rebanho eletrônico”. A declaração foi dada a um grupo de jornalistas na saída do Planalto. “Guedes tem a resiliência necessária. Essa discussão, aí, está sendo travada dentro do governo. Eu não estou acompanho isso, porque não faz parte das minhas funções”, afirmou. “O mercado é aquela história: o mercado é o famoso rebanho eletrônico. Já viu gado, né? Gado corre para um lado, corre para o outro. Isso faz parte. Acho que o Guedes está firme aí”, disse.

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