Preso ontem, o pastor Everaldo Dias Pereira organizou uma “caixinha” abastecida por propinas que era dividida com o governador do Rio, Wilson Witzel. Além disso, ele também tentou “alinhar discurso” com o delator e ex-secretário de Saúde do Rio Edmar Pereira para obstruir as investigações.
As acusações constam na decisão do ministro Benedito Gonçalves, do Superior Tribunal de Justiça, que autorizou a prisão de Everaldo, e na representação enviada pela subprocuradora-geral Lindôra Araújo à Corte. Segundo as investigações, o pastor lidera “um dos grupos criminosos influentes nos Poderes Executivo e Legislativo do Rio de Janeiro”.
“À luz dos elementos colhidos até o momento, observa-se que Pastor Everaldo instituiu uma espécie de ‘caixinha única’ para pagamentos de vantagens indevidas a agentes públicos da complexa organização criminosa sob investigação, a partir do direcionamento de contratações de organizações sociais e na cobrança de um ‘pedágio’ sobre a destinação dos ‘restos a pagar’ aos fornecedores, criando uma típica estrutura sofisticada e perene e com detalhada divisão de tarefas”, apontam os investigadores.
Para “administrar” a caixinha, Everaldo teria criado uma “típica estrutura ramificada de organização criminosa, com divisão de tarefas entre os demais integrantes do grupo”. A divisão dos repasses foi instituída da seguinte forma: 30% dos valores seriam para Edmar Santos, 20% para Witzel, 20% para o próprio Pastor Everaldo, 15% para Edson da Silva Torres e 15% para Victor Hugo Barroso, apontados respectivamente como operadores administrativo e financeiro do pastor.
O Pastor Everaldo, segundo a Procuradoria, também tentou “alinhar o discurso” com Edmar Santos após sua saída do governo, em maio deste ano, em meio às denúncias de fraudes na licitação para a compra de respiradores no valor de R$ 3,9 milhões. O objetivo do diálogo, segundo o MPF, seria criar uma versão que justificasse os atos ilícitos praticados pela organização criminosa.
“Por volta do dia 19 e 20 de maio, o colaborador foi chamado à sede do PSC por Pastor Everaldo e, lá chegando, também estava presente Victor Hugo. Eles estavam preocupados com uma possível delação de Gabriell Neves, que já estava preso naquele momento”, afirma a Procuradoria, citando delação de Edmar Santos. “Pastor Everaldo informou a necessidade de um alinhamento dos discursos, indicando, por exemplo, a criação de um álibi para o colaborador historiar a sua relação com Edson Torres, entre outras narrativas.”
Edson Torres era o operador administrativo de Everaldo, segundo o MPF, e operava empresa chefiada por um ‘laranja’ para obter ganhos ilícitos para o pastor. Um dos contratos teria sido firmado com o DER/RJ.
Dois filhos de Everaldo, Filipe e Laércio Pereira, também presos ontem, foram acusados de integrar o esquema por meio de “várias pessoas jurídicas e sociedades com outros membros da organização”. Outra transação suspeita envolvendo a família do pastor é referente à compra de um imóvel por R$ 400 mil quando avaliação fiscal apontava que o valor real seria três vezes superior. Parte do pagamento, cerca de R$ 35 mil, teria sido feito em espécie.
Em nota, Everaldo afirmou que “sempre esteve à disposição de todas as autoridades e reitera sua confiança na Justiça”.