Reforma administrativa

Articulação do governo está afinada para reforma administrativa avançar no Congresso

Apesar de prometer durante a campanha que não iria fazer "a velha política", Bolsonaro foi obrigado a se aproximar do Centrão, buscando se proteger de processos de impeachment que se acumulam na gaveta do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e também para tentar retomar a agenda de reformas econômicas

Rosana Hessel
postado em 03/09/2020 06:00
 (foto: Gustavo Sales/Câmara dos Deputados)
(foto: Gustavo Sales/Câmara dos Deputados)

O líder do governo no Congresso, senador Eduardo Gomes (MDB-TO), acredita que a nova dinâmica de articulação do governo com parlamentares vai começar “de forma mais forte”, a partir desta quinta-feira (3/9), quando o Ministério da Economia apresentar, pela manhã, a proposta de reforma administrativa, conforme o prometido pelo presidente Jair Bolsonaro.


“O primeiro passo vai ser essa reforma. Vamos começar um forte trabalho de ajuste fiscal para as negociações do Orçamento, que vai respeitar o rigor fiscal. Vamos encontrar espaço para os projetos que o presidente pretende lançar no Orçamento, mas dentro do teto de gastos”, afirmou Gomes ao Correio.


Apesar de prometer durante a campanha que não iria fazer “a velha política”, Bolsonaro foi obrigado a se aproximar do Centrão, buscando se proteger de processos de impeachment que se acumulam na gaveta do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e também para tentar retomar a agenda de reformas econômicas.


Esse processo de mudanças na articulação foi marcado pela troca da liderança na Câmara, que passou para o deputado Ricardo Barros (PP-PR) –– que tem agradado os parlamentares com a promessa de ser um interlocutor “e não um simples escudo”.


Barros, inclusive, tomou as rédeas das negociações e tem dito aos líderes que, antes de a equipe econômica apresentar alguma proposta, ela deve ser apresentada, primeiro, aos líderes de partidos. No Ministério da Economia, apesar de integrantes admitirem que Guedes está encolhendo, esse novo modelo de articulação pode ser favorável ao ministro, que não estava sabendo lidar com o Congresso. Procurado, o novo líder disse que “pretende trabalhar alinhado com a Secretaria de Governo, que passa as posições do presidente para ele repassar aos líderes”.


No café da manhã de terça-feira com os líderes, Bolsonaro e Barros reforçaram que pretendem consultar as lideranças antes de divulgar novas medidas econômicas, para que os parlamentares “não sejam pegos de surpresa”. “Esse foi um ponto que foi elogiado na reunião pelos parlamentares, e até o ministro fez elogios a essa nova dinâmica do governo com a base”, disse o deputado Efraim Filho (DEM-BA), líder do partido na Câmara. Para ele, Guedes não está enfraquecido, mas reconheceu que o ministro “precisa se acertar melhor com Rodrigo Maia” para alinharem as agendas.

Enfraquecimento

O cientista político Carlos Pereira, professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (Ebape-FGV), não tem dúvida de que Guedes está cada vez mais fraco e desprestigiado por não entregar o que promete, e a culpa, em grande parte, é de Bolsonaro. “Existe um pecado original na relação com o Legislativo do governo, que é a ausência de uma coalizão majoritária estável. A agenda de reformas é ambiciosa e, sem uma maioria estável, a sensação de desgaste é crescente, porque o governo não consegue avançar de forma eficiente em políticas concretas, uma vez que a base não é sólida e vai exigir negociações individuais em cada proposta da pauta do Executivo”, destacou.


Efraim Filho lembrou que o DEM não faz parte do Centrão e forma um bloco independente com MDB, PSDB, Podemos e PV, que será fundamental para compor a maioria nas votações do Congresso. Para ele, com a troca do líder na Câmara, o governo conseguiu melhorar a interlocução com o bloco nas pautas da área econômica, “mas não deverá unificar uma base ampliada nas pautas de costumes”.

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