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Senador promete mutirão de sabatinas para cargos diplomáticos

País está há 15 meses sem embaixador nos Estados Unidos e rol de recomendados só cresce. Senador Nelsinho Trad, presidente da Comissão de Relações Exteriores, promete zerar uma fila de 34 nomes cogitados para cargos diplomáticos nesta segunda-feira

Vera Batista
postado em 20/09/2020 06:00
 (crédito: Waldemir Barreto/Agencia Senado)
(crédito: Waldemir Barreto/Agencia Senado)

O Brasil completou 15 meses sem embaixador nos Estados Unidos. Indicado pelo presidente Jair Bolsonaro no posto mais importante da diplomacia brasileira, Nestor Foster continua com o cargo de encarregado de negócios. O Senado não aprova a nomeação do preferido e nem de outros tantos. Com isso, o rol de recomendados para diversas representações diplomáticas do Brasil no exterior só cresce. Essa situação pode mudar amanhã. O presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Nelsinho Trad (PSD-MS), programou um mutirão de sabatinas que deve zerar a fila.


embaixador Nestor Foster
embaixador Nestor Foster (foto: Itamaraty/Divulgação)


Segundo o senador, há 32 nomes pautados para a reunião da segunda-feira, além de dois outros que devem chegar. Ao todo, serão 34 avaliados em um sistema misto de votação. Os embaixadores serão divididos em dois grupos com quatro embaixadores, e um grupo com três representantes. Os parlamentares poderão acompanhar a sabatina de maneira virtual, mas a votação só pode ser presencial, em cabines no plenário da comissão, em um totem no corredor das comissões e por sistema de drive-thru, com duas urnas na garagem do Senado.


Do ponto de vista dos negócios bilaterais, a ausência de um embaixador em solo americano não paralisa totalmente o trabalho da representação, de acordo com vários diplomatas consultados. E Foster é conhecido no meio, tem relações com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e é amigo do ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Segundo fontes do Itamaraty, nunca a embaixada do Brasil nos EUA ficou 15 meses sem chefia. Isso só acontece quando um país quer baixar seu nível de representação, o que não é o caso.


“A julgar pela reputação do Brasil no meio diplomático, a maioria não está querendo sair do Brasil. Não somos bem-vistos, assim como também é mal-vista essa vertente ultracatólica e devota de Santo Olavo (menção a Olavo de Carvalho, guru do presidente Jair Bolsonaro). E se Trump perder as eleições, vai ser preciso um grande trabalho de reconstrução da nossa imagem”, informou um diplomata que preferiu o anonimato. Para ele, o nome de Nestor Foster, diante da conjuntura, deve passar sem problemas pelo plenário do Senado, pois já foi aceito na comissão.

Conveniência

Há boatos, no entanto, de que a demora na diplomação do responsável pela embaixada brasileira nos EUA é proposital, para esperar, possivelmente, a ida de Ernesto Araújo, que, afirmam observadores, está a ponto de cair do MRE, pela pressão dos militares e da ala política do governo. Ele não era, exatamente, o primeiro nome do ranking. Não foi à toa que, a princípio, o presidente Jair Bolsonaro guardou a vaga de Sérgio Amaral, que saiu de lá em 2019, para o filho 03, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, que acabou desistindo porque seu nome não passaria pelo crivo do Congresso.


“Para um país importante, que exige responsável de alta representatividade, Eduardo é absolutamente inepto. De qualquer forma, esses 15 meses são uma vergonha para o Brasil”, afirma o embaixador Paulo Roberto de Almeida. Assim como Foster, que segundo ele, não tem o peso de outros tantos que foram para lá. “Ele era ministro de segunda classe. Foi promovido. Vai ser um embaixador sem força. Ernesto Araújo, igualmente, não tem peso próprio. Ambos serão, hipoteticamente, representações administrativas. Situações como essa (os dois nomes), de designar gente de médio escalão, acontecem quando o governo tem o controle total do embaixador. Ou seja, o comando vai sempre a partir de Brasília. E se o governo quisesse mesmo adiantar a votação no Congresso, já tinha feito um pedido ao Senado”, conta.


O professor Creomar de Souza, especialista em ciência política e relações internacionais, da Universidade Católica de Brasília (UCB), lembra que as relações entre o Executivo e o Legislativo no nosso país, por algum tempo, eram difíceis, sem diálogo. O que pode incentivar, propositalmente, uma certa má vontade do Congresso em colocar a lista de indicados internacionais em votação. “O atual governo chegou com a intenção de mudar a política de representação. Ernesto Araújo foi encarregado de fazer isso”, assinala.
Fez o que foi mandado e com isso Araújo angariou algumas antipatias, lembra Souza. “Não são estranhos os boatos de se tentar, então, uma saída honrosa para ele com a embaixada dos EUA. É de praxe essa premiação com altos cargos, como aconteceu com o ex-ministro da Educação (Abraham Weintraub foi para o Banco Mundial). Mas, agora, a conjuntura é complexa”, afirma o professor. Seja com a permanência de Trump, ou a vitória de Joe Biden, seu oponente.


“Mesmo com Biden, temos que esperar para saber como ele reagirá diante de um país que se colocou como aliado de primeira hora de Trump. É muito cedo para dizer o que acontecerá”, diz Creomar de Souza. Nas sabatinas previstas para o Senado, estão representações em países com importância estratégica para o Brasil, como Gerson Menandro Garcia de Freitas, cotado para o Estado de Israel; e Reinaldo José de Almeida Salgado, na Argentina. Além de outros países como Chile, Guiné, Suriname, Nepal, representante na ICAO, órgão internacional no Canadá que regulamenta a aviação civil, e na AIEA, que regulamenta a energia atômica na Áustria.

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