NAS ENTRELINHAS

Bolsonaro na ONU: o que mudou no discurso do presidente em um ano

Discursando pela segunda vez na abertura da Assembleia Geral da ONU, mudança de abordagem do presidente fica evidente em análise das palavras escolhidas de seu texto, mas alguns pontos não devem mudar nunca

Ed Wanderley
postado em 22/09/2020 13:32 / atualizado em 22/09/2020 13:38
 (crédito: Marcos Corrêa/PR)
(crédito: Marcos Corrêa/PR)

Um ano depois de seu discurso de estreia na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Jair Bolsonaro (sem partido) optou por uma abordagem mais sucinta ao apresentar o momento do Brasil aos líderes mundiais. Na comparação dos discursos de 2020 e 2019, as palavras escolhidas revelam um chefe de Estado na mesma defensiva de sempre, mas na construção de uma agenda que não mais contempla o populismo praticamente eleitoral feito para agradar seus apoiadores, como o registrado no ano passado.

Diante de representantes de todo mundo, o discurso que Bolsonaro buscou passar foi o de grandiosidade. Não apenas de ações, como de relevância. Não por menos, as palavras "maior" e "mundo", desta vez, apareceram com peso mais significativo em um discurso radicalmente mais curto que o proferido em 2019. É em falas como a de credenciar ao Brasil a capacidade produtiva para manter 1 bilhão de pessoas a partir de sua produção que o presidente apresenta a dimensão nacional.

 

O aceno à lógica de perseguição e crédito à "intriga da oposição" só mudaram de foco de um ano a outro. Se em 2020, ele defende uma campanha massiva de desinformação, em especial na questão ambiental, passando a ideia de controle absoluto das situações; em 2019, culpava supostos ataques coordenados da "mídia", seja ela nacional ou internacional. Aliás, mídia, ideologia, esquerdas e outras muletas discursivas foram deixadas de lado neste ano. O mesmo pode ser dito de pontos como liberdades e a causa indígena, que satisfizeram praticamente uma lista protocolar no primeiro discurso e não foram citados nessa nova investida.

Um detalhe chamativo mostra uma silenciosa mudança de direção quanto ao posicionamento religioso. Educado e alinhado à problemática internacional, em 2019, Bolsonaro adotou discurso de respeito à religiosidade de minorias e levantou a bandeira da perseguição religiosa; desta vez, fica mais claro o discurso, quando o líder nacional clama por união internacional no combate à cristofobia - a perseguição sistemática e violenta aos adeptos do cristianismo. Num país em que nove em cada 10 brasileiros se dizem cristãos e cujos casos de violência mais comuns atingem as religiões de matrizes africanas, a colocação soa mais como um antídoto preventivo aos que clamam pela laicidade de um Estado fortemente ligado às igrejas, com direito a ministro pastor e ministra envolvida em escândalo de influência pautada no conservadorismo religioso.

À exceção de Donald Trump, no maior estilo "gato escaldado", Bolsonaro também evitou nominar e exaltar quaisquer figuras públicas em seu discurso. Deixou de lado a figura de Chávez, com uma única menção à Venezuela ao tocar no assunto do óleo derramado na costa brasileira no ano passado, e silenciou quanto a pessoas de seu governo, ao contrário do discurso anterior em que, diante do mundo, exaltou o juiz Sérgio Moro, a quem chamou de "símbolo do meu país".

Na questão ambiental, o líder brasileiro tirou do foco a questão das florestas, apenas atribuindo a ação estatal à condicionante de que Amazônia e Pantanal são demasiadamente grandes, maiores que países europeus, o que dificultaria as ações de combate. Bolsonaro não mencionou o desmonte das ações de fiscalização nessas mesmas áreas, impostas por decisões orçamentárias, obviamente não abriu espaço para discursos de "boiadas que passam" na pasta do meio ambiente e a única menção a indígenas foi ao dizer que "o caboclo e índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas". Em seguida, apontou esforços do país na redução da emissão de carbono e de lixo no oceano.

Em metade do tempo de duração em relação ao ano anterior, o discurso do representante brasileiro em 2020 relata um país mais relevante, de economia produtiva segura diante do contexto mundial e em pleno controle da pandemia da covid-19, que já atingiu 4,5 milhões de brasileiros, tirando a vida de 137,2 mil deles, segundo maior total no mundo até o momento. Com a mesma destreza do estilo "tirar de tempo" que tentou fazer com a questão ambiental, ele também abordou a crise do novo coronavírus, soltando informações sem contexto, como ao dizer que os brasileiros receberam mil dólares de auxílio emergencial, realidade só alcançada no caso de mães solteiras contempladas desde o primeiro mês do pagamento, somando-se cinco parcelas do benefício. Explicação que parece ter sido encarada como mais um dos detalhes que o mundo não precisa saber.

Se a sede da ONU, em 2019, serviu para que Bolsonaro resumisse o espírito de sua campanha eleitoral, mesmo já tendo assumido o posto, o vídeo transmitido nesta terça-feira (22/9), revela um chefe de Estado mais preocupado em contornar a imagem do país diante dos pares mundiais, atraindo mais votos de confiança que de urnas.

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