Alerj

Witzel diz ser vítima de injustiça e chama deputados de "omissos"

Durante discurso na Assembleia Legislativa, governador do Rio de Janeiro oscilou entre atacar deputados e reiterar que não teve direito a defesa, citando Jesus Cristo e Tiradentes. Parlamentares autorizaram a continuidade do processo em votação unânime

Sarah Teófilo
postado em 23/09/2020 22:10 / atualizado em 24/09/2020 00:03
 (crédito: Carl de Souza/AFP)
(crédito: Carl de Souza/AFP)

Ao fazer a própria defesa no processo de impeachment na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), o governador Wilson Witzel (PSC) disse estar sendo vítima de injustiças e afirmou que, se ele é responsável por algum problema na área da Saúde, todos os deputados também o são por terem sido omissos. “Algo absolutamente injusto. Não tive chance de falar nem na Assembleia, nem nos tribunais. Estou sendo linchado politicamente, sem direito a defesa”, protestou Witzel.

Como já era previsto, o que foi inclusive pontuado por Witzel, a Alerj deu prosseguimento ao processo de impeachment por unanimidade. Agora, os deputados deverão escolher cinco parlamentares para integrar um tribunal misto com cinco desembargadores, que irão julgar o processo de afastamento. Depois da formação desta comissão, o governador é afastado por 180 dias — ainda que já o esteja pelo Superior Tribunal de Justiça —, e o rito passa a ser comandado pelo Tribunal de Justiça.

Witzel citou, logo no início do discurso de 60 minutos, Tiradentes, um dos líderes da Inconfidência Mineira e que recebeu pena de morte. “Tiradentes, que foi delatado, que foi vendido, morreu enforcado e teve partes do seu corpo expostas em praça pública para servir de exemplo à tirania. A tirania escolhe suas vítimas e as expõe para que outros não mais se atrevam”, afirmou o governador afastado. Em seguida, evocou Jesus Cristo, dizendo que este também foi delatado e vendido pelos seus apóstolos.

A abertura foi seguida por ataques aos parlamentares. Ao comentar as denúncias às quais responde de fraudes na área da Saúde, Witzel atacou o delator, o ex-secretário de Saúde Edmar Santos, chamando-o de "bandido". Witzel disse que foi enganado pelo ex-secretário. “Quantos se sentaram comigo para discutir sobre o governo? As portas estavam abertas. Se eu fui omisso, todos os senhores e senhoras também foram omissos”, bradou.

O governador afastado falou isso em outros momentos de sua defesa, dizendo que os deputados deveriam ter investigado as Organizações Sociais (OSs) que foram apontadas no esquema no qual ele foi denunciado. “Os senhores também são omissos pelo trabalho que deveriam fazer. E agora, por unanimidade, querem me acusar de crime de responsabilidade. Então, todos devemos fazer a nossa mea-culpa”, afirmou. E foi além: “Renunciamos todos e fazemos uma eleição para deputados e para governador, porque todos fomos omissos. Não queiram colocar só nos meus ombros a responsabilidade”, disse.

Witzel pediu para que os parlamentares deixassem que ele fosse julgado antes pelo STJ, onde foi denunciado. “Esperem o STJ. Me deem a oportunidade de governar o estado e os senhores façam os seus trabalhos, porque eu nunca deixei de abrir a porta. Investiguem, abram CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito). Agora, todos nós precisamos pagar o preço da nossa omissão e corrigir os erros”, ressaltou.

O governador afastado chegou a falar no impeachment de Dilma Rousseff (PT), dizendo que a esquerda brasileira até hoje diz que a ex-presidente sofreu um golpe, mas que não ouviu nenhuma palavra da esquerda em sua defesa.

Poder da Toga

O governador frisou que se quisesse receber por decisões, como a investigação aponta no caso da requalificação da OS Instituto Unir Saúde (que estava desqualificada por descumprimento de contrato mas foi reabilitada pelo governador), ele teria permanecido na magistratura. “Eu tive o poder da toga e decidi pela cidadania”, afirmou.

Família

Apesar de falar que não vislumbrava um cenário em que conseguiria vitória, Witzel apelou para o lado emocional. Falou por mais de uma vez na sua mãe, que era empregada doméstica, e no seu pai, metalúrgico. “Minha mãe hoje chora pelo que está acontecendo comigo. Eu deixei uma magistratura de 17 anos ilibada. Encontrem uma sentença vendida”, disse.

O governador afirmou que sua mãe trabalhava para sustentar os filhos, quando o seu pai adoeceu, e que quem cuidava dele e de seus irmãos era a sua irmã mais velha. “Às vezes, era arroz e ovo. Passei por muitas dificuldades”, disse. Ao se defender de afirmações de parlamentares em relação a um radicalismo de sua parte (principalmente pela frase dita em 2018, de que os policiais iriam mirar na cabeça de bandidos com fuzil), Witzel se emocionou ao dizer que rejeita a intolerância, citando que tem um filho em casa que sofre com isso - o governador tem um filho transsexual.

Denúncia

O pedido de impeachment contra Witzel é baseado em investigações do Ministério Público Federal (MPF) que apontaram suspeitas de corrupção supostamente cometidas na área da Saúde. A denúncia falou em uma “sofisticada organização criminosa” no âmbito do governo do estado “encabeçada pelo governador”. O esquema usaria o escritório da primeira-dama, Helena Witzel, para lavagem de dinheiro. Um dos delatores é o ex-secretário de Saúde, Edmar Santos, que aponta que Witzel teria recebido propina de empresas ligadas ao esquema.

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