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"Furar teto é irresponsável"

Paulo Guedes diz que governo está comprometido com o limite de gastos e que seria inconsequente mexer na âncora fiscal "para fazer política e ganhar eleição". Ministro volta a defender a criação de imposto e a unificação de programas de assistência social

Rosana Hessel
postado em 03/10/2020 01:04

Após nova crise com o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, o ministro da Economia, Paulo Guedes, reforçou que o governo está comprometido com a manutenção do teto de gastos — emenda constitucional que limita o crescimento das despesas à inflação do ano anterior. Ele ainda qualificou qualquer medida para mexer nessa âncora fiscal de “irresponsável”, porque isso vai fazer com que os juros voltem a subir.

“É uma irresponsabilidade furar o teto. Uma coisa é furar o teto em um ano de pandemia, porque você está salvando vidas. Agora, furar o teto para fazer política e ganhar a eleição é irresponsável com as futuras gerações. Isso é mergulhar o Brasil no passado triste de inflação alta”, declarou o ministro a jornalistas, na noite de ontem. Ele voltou a falar à imprensa após criticar Marinho pelas declarações a um grupo de economistas, sinalizando uma tentativa de burlar a última âncora fiscal para as contas públicas.

De acordo com Guedes, se a pandemia recrudescer e voltar, numa segunda onda, o governo pode fazer algo a respeito. “Aí, sim, é caso de furar o teto. Agora, furar o teto para fazer política, ganhar eleição é irresponsabilidade”, reforçou.

O chefe da equipe econômica destacou que uma das consequências de furar o teto de gastos é o aumento dos juros. Pelas contas dele, cada 1% a mais na taxa básica da economia (Selic), representarão R$ 80 bilhões a mais de custo adicional na dívida pública.

O ministro disse que, no meio das discussões sobre as reformas e os programas de enfrentamento à pandemia provocada pelo novo coronavírus, ficaram dois problemas que são agudizados pela proximidade das eleições: a situação dos brasileiros mais vulneráveis e o teto de gastos. “Descobrimos que havia 40 milhões de invisíveis e uma parte desses invisíveis era realmente gente desassistida, que vai ter de ser reintegrada ao que era antigamente o programa Bolsa Família”, frisou. “Temos um problema de emprego e renda. O problema da renda é como vamos aterrissar do auxílio emergencial. O auxílio emergencial vai até 31 de dezembro e precisamos aterrissar no que tínhamos chamado então de Renda Brasil. Esse é um problema. Um outro problema diferente é o teto?’ E o dinheiro? E os orçamentos? De onde vem o dinheiro?”, declarou.

Guedes disse que a resolução desses dois problemas passa pela consolidação dos programas sociais que já existem e pela discussão do pacto federativo, que pode abrir espaço orçamentário para o governo turbinar essa política social. Ele voltou a defender a unificação de 27 programas de assistência social existentes para criar o Renda Cidadã. “Bota um pouco mais de recurso, que existe. Existe, por exemplo, o desconto simplificado para saúde e educação. É dinheiro de classe média alta. Pega ali R$ 10 bilhões, são R$ 35 bilhões a mais no Renda Brasil. É uma consolidação de programas com mais uma transferência de renda de quem tem mais para quem tem menos, pode ter várias fontes”, avaliou.

Ele frisou, contudo, que o Brasil já entrou na temporada de campanha para as eleições municipais, que atrapalha essa discussão, porque aumenta a resistência dos parlamentares a parte dessas propostas de cortes de despesas no Orçamento. “Faltam 40, 50 dias para a eleição. Aí, tem gente na Câmara que diz que não aceita um tipo de imposto. Como vou atacar? Eu preciso atacar o desemprego”, reclamou, em mais uma crítica velada ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que chamou o ministro de “desequilibrado”.

O titular da Economia também voltou a defender a criação de um novo imposto sobre transações financeiras para compensar a desoneração da folha, que é defendida por parlamentares da base aliada e da oposição, como uma forma de preservar empregos. No entanto, a então presidente Dilma Rousseff adotou a desoneração da folha no primeiro mandato, sem resultados concretos no aumento de emprego. Analistas não poupam críticas a esse imposto que tem todas as características de uma nova Contribuição Provisósria sobre Movimentação Financeira (CPMF).


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