Racismo

Pretos "por conveniência" se manifestam contra Sérgio Camargo

A ex-senadora Marina Silva, dois deputados do PSol e o ex-parlamentar Jean Wyllys manifestaram repúdio aos atos e declarações de Sérgio Camargo, que os excluiu da lista de personalidades negras. A cantora Preta Gil também foi retirada.

Bruna Lima
postado em 14/10/2020 14:42 / atualizado em 14/10/2020 19:26
 (crédito: Facebook/Reprodução)
(crédito: Facebook/Reprodução)

Após o presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, excluir a ex-ministra do Meio Ambiente e ex-senadora Marina Silva (Rede) da lista de personalidades negras da instituição e criticar outros representantes por considerá-los pretos "por conveniência", os envolvidos se manifestaram e receberam palavras de apoio pelas redes sociais. O episódio causou novo desgaste sobre Camargo. Em polêmicas anteriores, ele teve o cargo questionado nos tribunais.

Na última terça-feira (13/10), Camargo usou as redes sociais para anunciar a exclusão de Marina Silva da lista, porque "não tem contribuição relevante para a população negra do Brasil". "O ambientalismo dela vem sendo questionado e não é o foco das ações da instituição", completou Camargo. O chefe da Fundação Palmares excluiu, ainda, os deputados David Miranda e Talíria Petrone (ambos do PSol/RJ), o ex-deputado Jean Wyllys e a cantora Preta Gil.

"Não é um caso isolado. Jean Willys, Talíria Petrone, David Miranda (branco) e Preta Gil também são pretos por conveniência. Posar de ‘vítima’ e de ‘oprimido’ rende dividendos eleitorais e, em alguns casos, financeiros", disse Camargo.

Em resposta, Marina Silva disse que cabe à sociedade e à "sabedoria da história" julgar o valor da contribuição de uma pessoa. "Ainda que a visão autoritária, antidemocrática, ache que possa determinar a realidade dos fatos, não é assim que acontece. Se fosse assim, Mandela, Gandhi, Luther King não teriam importância nenhuma. Quem mede a contribuição, a relevância para a sociedade é a própria sociedade e a história", disse, em entrevista ao Correio.

No entanto, na visão de Marina, condutas como essa tem o poder de "destruir por dentro a essência das instituições". "O que se quer é deixar a Fundação Palmares menos relevante, do mesmo jeito que querem promover o desmonte do Instituto Chico, da Funai (Fundação Nacional do Índio), do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), do Ibama, e assim vai. Há uma lista enorme. E as pessoas que estão lá para cobrir o mandato institucional agem exatamente ao contrário das atribuições. São verdadeiro sabotadores que ficam derrubando, por dentro. Isso também acontece no Ministério do Meio Ambiente, Educação e no próprio Ministério da Saúde", opinou.

A conduta, para Marina, desmancha "os poucos avanços institucionais que se vinha conseguindo para o combate a racismo estrutural", além de promover um discurso político que ensina às avessas. "Quando você tem uma atitude de desrespeito para com a vida, isso é sabotar a própria promoção do cuidado com a vida. O tempo todo é uma arena em que se dá o pior alimento para aqueles que se sentem famintos por mais violência, mais ataques, mais desconstrução".

A Rede, partido da ex-ministra, também emitiu uma nota de repúdio. Mesmo considerando "irrelevante" a opinião do presidente da fundação, a Rede definiu a conduta como uma "degradação da gestão pública em nosso país, o desmonte de nossas conquistas sociais, culturais e econômicas até aqui, o gasto de nossos impostos com a remuneração de uma condução tão medíocre de instituições que têm papéis muito importante na nossa organização institucional, que pertence a todo o povo brasileiro e não só aos eleitores e seguidores do atual governante", afirmou o partido.

Já o ex-deputado Jean Wyllys referiu-se a Camargo como um "desqualificado", cujas decisões administrativas "não mudam a maneira como me identifico tampouco a etnia de meus antepassados por parte da família de meu pai, fator sobre o qual ele não tem nenhuma autoridade para se manifestar. Eu sigo sendo o que sou", disse.

Pressão por demissão

Além de repudiar os atos de Sérgio Camargo, os dois deputados do Psol renovaram o apelo pela destituição do presidente da fundação. Eles lembram que a entidade é "voltada para promoção e preservação dos valores culturais, históricos, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira", como descreve a própria apresentação da instituição pública.

Para o deputado David Miranda, Sérgio Camargo é "um inimigo da luta antirracista" e, por isso, a permanência no cargo "envergonha todo brasileiro e brasileira consciente da luta do povo negro contra séculos de racismo estrutural e opressão". O parlamentar disse, ainda, que está processando Camargo "pelos reiterados ataques racistas".

Na visão da deputada Talíria Petrone, a manifestação de Camargo teve como objetivo atacar quem diverge de sua política. Ela ainda lembrou episódios polêmicos que provocaram críticas ao atual presidente da fundação. "Desde que assumiu a Fundação Cultural Palmares, desvia a função primordial do órgão que preside. Seu trabalho tem sido atacar a memória dos que vieram antes de nós na luta contra o racismo estrutural, fruto de séculos de escravização e colonialismo. Chamou representantes do movimento negro de escória maldita, atacou a memória de Zumbi", escreveu.

Em uma reunião gravada, em junho, Camargo se referiu a Zumbi dos Palmares, figura histórica das causas negras e que dá nome à fundação, como um "filho da p. que escravizava pretos" e classificou o movimento como "escória maldita". Ainda, criticou o Dia da Consciência Negra, data que defende acabar, por meio de um decreto.

"Está mais do que na hora de devolver a Fundação Cultural Palmares ao povo, ao qual ela deveria servir", defendeu Talíria Petrone.

O tempo todo é uma arena em que se dar o pior alimento para aqueles que se sentem famintos por mais violência, mais ataques mais desconstrução 


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