Ataque à China, afago ao general

Presidente diz que não permitirá a compra da CoronaVac e alega existir "um descrédito muito grande" em relação ao país asiático, onde "o vírus teria nascido". Butantan reclama de demora da Anvisa para liberar aquisição de insumos destinados à produção do imunizante

AUGUSTO FERNANDES - BRUNA LIMA - INGRID SOARES
postado em 22/10/2020 23:34

Apesar de a CoronaVac ser considerada uma das vacinas em desenvolvimento contra a covid-19 mais promissoras do mundo, o governo fará jogo duro contra o imunizante elaborado pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac. Temendo que o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), fature politicamente com o episódio, o presidente Jair Bolsonaro já anunciou que não vai aportar recursos para adquirir doses da vacina e distribuí-la gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS).

Após cancelar, na quarta-feira, um acordo assinado no dia anterior pelo Butantan e o Ministério da Saúde, que garantiria a compra de 46 milhões de doses da CoronaVac, Bolsonaro disse que não pode se comprometer em investir dinheiro da União para uma vacina que ainda não está pronta. Além disso, por defender a tese de que o novo coronavírus foi proveniente da China, o presidente afirmou que qualquer vacina produzida pelo país não tem credibilidade.

“A (vacina) da China, nós não compraremos, é decisão minha. Eu não acredito que ela transmita segurança suficiente para a população. Esse é o pensamento nosso. Tenho certeza de que outras vacinas que estão em estudo poderão ser comprovadas cientificamente. A China, lamentavelmente, já existe um descrédito muito grande por parte da população, até porque, como muitos dizem, esse vírus teria nascido por lá”, declarou, em entrevista à Rádio Jovem Pan.

Bolsonaro também subiu o tom contra Doria pelo fato de o governador defender que qualquer vacina contra a covid-19 seja obrigatória para todos os brasileiros. Em live nas redes sociais, o presidente chegou a dizer que o paulista virou “aprendiz de ditador” em meio à crise sanitária e que ele, assim como outros governadores, “são figuras nanicas, hipócritas, idiotas, boçais, que acham que mandam no estado dele”.

“Queriam que eu comprasse 100 milhões de vacinas da China, e ela não está pronta. Ainda não foi reconhecida pelo Ministério da Saúde nem certificada pela Anvisa. Quanto custaria? Não sei, porque aquele governador, de repente, dizer que vai comprar e dizer que vai ser obrigatória... Ou seja, para justificar despesa, vai aplicar. É isso? Não funciona assim. Enquanto eu for presidente da República, não vai ser dessa forma. Isso é democracia. Ninguém vai obrigar ninguém a tomar.”

A politização da vacina foi criticada por Doria. “O presidente da República disse que não vai permitir a compra dessa vacina mesmo se for comprovada pela Anvisa. Se o absurdo já era grande, agora beira a situação criminal. Negar o acesso a uma vacina aprovada pela Anvisa em meio a uma pandemia que já vitimou 155 mil brasileiros é criminoso e desumano”, disparou o governador, ontem, durante cerimônia em São Paulo.

O Butantan teme que a guerra política travada em torno de uma vacina contra a covid-19 crie interferência deliberada para o início das produções. A instituição enviou um pedido formal à Anvisa para que os insumos fossem importados em caráter acelerado, possibilitando a produção do imunizante no Brasil, a fim de cumprir o calendário anunciado de fabricar, até o fim do ano, 40 milhões de doses. No entanto, foi informado que a análise seria feita somente em 11 de novembro.

“O Instituto Butantan aguarda, desde 18 de setembro, parecer da Anvisa ao pedido de importação de matéria-prima para produção da CoronaVac no Brasil. A agência só deve deliberar sobre o tema daqui a três semanas, impactando as perspectivas de produção e disponibilização de vacina contra a covid-19 para a população brasileira”, manifestou-se a instituição.

Diante da repercussão, a agência decidiu protocolar o pedido no circuito deliberativo, uma forma de votação que não depende do encontro presencial para avaliação. “Esse tipo de votação deve apresentar decisão em, no máximo, cinco dias úteis”, informou a Anvisa. “Ainda que o pedido de importação seja autorizado, a vacina não pode ser aplicada na população, tendo em vista que a CoronaVac não possui registro sanitário no Brasil”, emendou a agência.

Pazuello

Afastado dos trabalhos após ter o diagnóstico positivo para a covid-19, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, recupera-se, também, da situação conflitante que a polêmica em torno da vacina chinesa CoronaVac provocou na cúpula do governo. Desautorizado publicamente por Bolsonaro, por ter assinado a compra do imunizante, o general escorou-se no aprendizado militar para sustentar a postura de respeito hierárquico e se afastar das insinuações de que o episódio gerou uma crise. “É simples assim: um manda, e outro obedece”, afirmou Pazuello, em live transmitida, ontem, ao lado do chefe do Executivo.

Bolsonaro colocou panos quentes na situação. “Falavam que estávamos brigados. No meio militar, é comum ocorrer isso aí”, justificou, ontem, o presidente, ao lado do general infectado com a covid-19, ambos sem máscara e não respeitando distanciamento físico. O chefe do Executivo fez elogios, dizendo que o ministro “foi um dos melhores que tivemos na Saúde e que seu trabalho está sendo excepcional”.

 

 

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