BOLSA DE VALORES

Mercado está otimista, mas cauteloso, com início da vacinação

De acordo com analistas, o início da vacinação estava precificado nos ativos e, portanto, não haverá empolgação, especialmente, porque a semana é complicada e há muitas incertezas sobre a segunda onda e o sucesso do processo de vacinação no país

Rosana Hessel
postado em 18/01/2021 06:00
 (crédito: Nelson Almeida/AFP)
(crédito: Nelson Almeida/AFP)

Após o Brasil, finalmente, dar a largada no processo de vacinação no país, o mercado financeiro deve abrir a semana em clima de otimismo, mas sem grandes variações na Bolsa de Valores de São Paulo (B3), na avaliação de analistas ouvidos pelo Correio. A palavra de ordem será cautela, porque as incertezas não saíram do radar, principalmente, porque o processo de imunização será lento e os efeitos na economia também.

“O começo da vacinação estava na conta. O mercado já esperava a aprovação das vacinas pela Anvisa. Mas o início da vacinação, ontem, em São Paulo, é que não estava precificado. Isso coloca pressão sobre o governo federal, mas não resolve o problema de não termos vacina e materiais suficientes para acelerar o processo”, explicou o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, que aposta na continuidade da oscilação do mercado interno. “A possível lentidão poderá afetar os mercados nas próximas semanas. Todos correram para tirar a primeira foto, mas não está claro a velocidade dessa vacinação no país. Assim, os mercados tendem a vir positivos nesta segunda-feira, mas pode haver estresse, depois, quando ficar claro que vai ser lento”, acrescentou.

A economista Ana Carla Abrão, sócia da Oliver Wyman no Brasil, reconheceu que a notícia da vacinação “é um alento” que deve fazer o mercado reagir positivamente hoje. “Uma grande euforia, se ocorrer, merece cautela, porque os efeitos do impacto da vacinação só deve ocorrer a partir do segundo semestre”, afirmou. Ela disse, contudo, que ainda será preciso avaliar todo o processo de vacinação, a produção das vacinas e até mesmo a capacidade do governo de vacinar. No caso de São Paulo, a primeira etapa prevê 20% da população vacinada, o que é muito pouco, do ponto de vista de imunidade de rebanho”, acrescentou.

“A B3 deve abrir o dia otimista, em um sinal de esperança com a largada da vacinação. Mas o processo será lento e há muita incerteza para uma verdadeira retomada da economia, especialmente, porque o caos de Manaus ainda não está equacionado e, os números de mortes no Rio de Janeiro e em São Paulo não param de crescer. E, portanto, não podemos descartar riscos de falta de oxigênio em outros estados, o que deverá fazer com que o mercado continue bastante volátil”, destacou a economista Juliana Inhasz, professora do Insper.

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, definiu, ontem, finalmente, o dia D e a Hora H na quarta-feira (20), às 10h, mas analistas não demonstraram muito otimismo com esse agendamento. “É positivo, mas estamos diante de uma maratona e não de uma corrida de 100 metros”, alertou Gabriel Leal de Barros, economista-chefe da RPS Capital.

“Não podemos esquecer que o governo federal deve começar a vacinar um número muito pequeno da população e, portanto, o impacto na atividade ainda será lento e gradual diante do aumento do número de contágios dessa segunda onda, que está se mostrando mais grave do que a primeira lá fora e também no Brasil. Logo, a Bolsa deverá se comportar como uma montanha-russa em torno dessas incertezas”, adicionou a professora do Insper.

Luis Otávio de Souza Leal, economista-chefe do Banco Alfa, tem dúvidas se a Bolsa vai conseguir ficar no positivo hoje, após oscilar bastante na semana passada e encerrar a sexta-feira com queda de 2,54%. “Vai depender do mercado externo, porque a vacinação já estava precificada. Se o mercado dependesse só do noticiário local, eu diria que ele abriria positivo, mas um bom pedaço da oscilação recente da Bolsa está vindo de fora”, complementou.

Semana agitada

Esta semana promete ser bastante agitada no cenário externo, com grandes chances de fortes oscilações na B3, segundo o estrategista da RB Investimentos, Gustavo Cruz. Ele lembrou que os operadores estarão atentos ao resultado do Produto Interno Bruto (PIB) da China do quarto trimestre de 2020, às 23h de hoje, a posse do Joe Biden, na quarta-feira (20), mesmo dia no qual o Comitê de Política Monetária (Copom) deverá manter a taxa básica de juros (Selic), em 2% ao ano. “O mercado está mais interessado nas mensagens de Biden sobre o Brasil e do Copom, que deverá sinalizar quando o BC deverá voltar a aumentar a Selic, o que afetará os juros futuros”, disse.

Na avaliação de Cruz, apesar da oscilação na B3, será possível garimpar algumas ações que podem voltar a registrar alta diante da perspectiva de retomada da normalidade, se a vacinação em massa for bem-sucedida. “As empresas dos setores varejista, de shoppings, de turismo e de companhias aéreas podem começar a se valorizar, mas o processo não será imediato”, afirmou. Ele reconheceu que o início da vacinação em São Paulo é um capítulo muito importante nesse cenário de melhoria. “Saímos da estaca zero. Isso é positivo. Mas o Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes e vai ser desafiador, como os técnicos reconhecem que o efeito prático da vacinação, para derrubar o número de casos, também demora. Mas saímos do pior momento que é não ter vacina no país”, frisou.

O início da vacinação no país gerou polêmicas na área política e manifestações de autoridades e de parlamentares. Juliana Inhasz, do Insper, considerou que o entrevero entre Pazuello e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), ontem, não agrega e gera mais incerteza para a retomada da economia. O ministro disse que o Doria deu um “golpe de marketing” ao dar a largada na vacinação. O tucano rebateu que o governo deu um “golpe de morte”, com o negacionismo. “O país não precisa dessa troca de farpas, quando morrem mais de mil pessoas por dia no país”, lamentou a especialista em finanças.

Nas redes

“A vacinação finalmente começou no Brasil! A ciência venceu! A vacina é o caminho mais seguro para impedir a repetição das cenas de horror que assistimos na última semana em Manaus. Esperamos agora um plano nacional de vacinação para todo o país. #EsperançaDeVolta”
Simone Tebet, senadora (MDB-MS)

“Hoje, a esperança se agiganta no Brasil. Parabéns a Anvisa, pela rápida e histórica decisão e ao competente trabalho realizado pelo Butantan e Fiocruz. Acreditar na ciência é o único caminho sério no combate à pandemia”
Alexandre Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)

“Em meio a uma semana tão dura, a aprovação do uso emergencial de vacinas é um alento. Parabenizo todos os profissionais envolvidos e a Anvisa pela seriedade e rapidez nesse trabalho. Devem agora os governantes estar à altura do desafio de imunizar toda a população”
Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)

“A vida tem pressa. Parabéns São Paulo. Xô trevas. Xô negacionismo. Xô charlatões. A luz da ciência chegando via Butantan e Fiocruz! #VacinaJa”
Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde

“Milhares repetindo que ‘tem que tratar precocemente’, porque o presidente e até o Ministério da Saúde propagam a falsa solução. Atrasam a vacinação por motivos políticos, enquanto assistem à contagem diária de mortes de compatriotas. Afronta clara ao direito fundamental à saúde”
Felipe Santa Cruz, presidente da Organização dos Advogados do Brasil (OAB)

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