COVID-19

Vacinação começa 312 dias depois do início da pandemia no Brasil

São Paulo dá a largada do processo de imunização contra a covid-19 com a aplicação da CoronaVac em profissionais da saúde e indígenas. No Brasil, a campanha terá início na próxima quarta-feira. Doria e Pazuello trocam farpas

Jorge Vasconcellos
Rosana Hessel
postado em 18/01/2021 06:00
 (crédito: Nelson Almeida/AFP)
(crédito: Nelson Almeida/AFP)

Um momento histórico. Uma vitória da ciência. Após 312 dias do início da pandemia da covid-19, a vacinação contra a doença começou no Brasil. A enfermeira Mônica Calazans, de 54 anos, foi a primeira pessoa no país a ser imunizada fora dos estudos clínicos, em ação realizada pelo governo de São Paulo. Ela recebeu uma dose da CoronaVac, momentos depois de a vacina, produzida pelo Instituto Butantan com o laboratório chinês Sinovac, ter o uso emergencial aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O órgão regulador concedeu a mesma autorização para a vacina da Oxford/Astrazeneca, a pedido da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A vacinação da enfermeira foi presenciada pelo governador João Doria (PSDB), que aproveitou para alfinetar o presidente Jair Bolsonaro, afirmando que aquele era o “Dia V” contra o negacionismo e “contra quem gosta do cheiro da morte”.

O governo de São Paulo informou que os vacinados no primeiro dia de aplicação do imunizante no estado são profissionais da saúde e indígenas — a primeira a receber a dose foi Vanuzia Costa Santos, da Aldeia Filhos da Terra. Pouco mais de 100 pessoas já receberam a CoronaVac até agora, no Complexo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

O evento conduzido por Doria foi realizado no mesmo local, ao mesmo tempo em que o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, concedia entrevista coletiva para anunciar que a vacinação nacional contra o novo coronavírus será iniciada na próxima quarta-feira. “Hoje, repito, é o dia V. É o dia da vacina. É o dia da vitória. É o dia da verdade. É o dia da vida”, afirmou o governador paulista, ao lado da enfermeira Mônica Calazans.

Com a voz embargada, o tucano disse que o momento era “uma conquista que fortalece milhões de pessoas que defendem a vida”. Foi uma clara alusão ao discurso de Bolsonaro, que insiste em minimizar a gravidade da pandemia e em recomendar um “tratamento precoce” contra a covid-19, com o uso de cloroquina e de outros medicamentos sem comprovação científica no Brasil e no mundo.

Doria comemorou a decisão da Anvisa como uma vitória da ciência e dedicou o “Dia V” aos 209 mil mortos pela covid-19 e familiares, assim como aos mais de 8 milhões de pessoas que contraíram o vírus e, principalmente, aqueles que estão lutando para vencer a doença. Ele destacou que a CoronVac é a “vacina do Brasil” e só existe porque “o governo de São Paulo agiu”.

O tucano também fez questão de homenagear os profissionais de saúde que trabalham na linha de frente dos hospitais, como médicos e enfermeiras, e também aos pesquisadores que trabalharam no desenvolvimento da CoronaVac. “A vitória de hoje vai salvar milhões”, frisou o tucano, acrescentando que aquele momento era uma homenagem para as pessoas que valorizam a vida. “Ao contrário daqueles que, nos últimos 11 meses, flertaram com a morte”, emendou.

O governador também informou ter determinado que 4,636 milhões de doses da CoronaVac, que foram importadas da China e estão armazenadas no Butantan, fossem entregues ao Ministério da Saúde para distribuição entre os estados e o Distrito Federal. Segundo o governador, São Paulo ficará com as doses determinadas pelo Programa Nacional de Imunização (PNI): 1.357.940 doses da vacina vão permanecer no estado para imunizar os profissionais de saúde.

Doria ainda pediu para que o governo federal pare de recomendar cloroquina para a população. “Eu espero que o comportamento do Ministério da Saúde seja pela vida e peço também que pare de distribuir e recomendar o uso da cloroquina. É criminoso fazer crer a população, sobretudo a mais desvalida, mais simples e mais humilde, que a cloroquina salva. A cloroquina não salva e, em alguns casos, cloroquina mata”, disse.

Ao ser questionado sobre as críticas do ministro Eduardo Pazuello (leia abaixo) de que ele teria dado um golpe de marketing com antecipação da vacinação no estado, o governador rebateu que o governo federal deu “golpe de morte, com seu negacionismo, com suas mentiras”.

Infográfico sobre o início da vacinação no Brasil; covid-19 coronavírus sars-cov-2 coronavac vacina de oxford
Infográfico sobre o início da vacinação no Brasil; covid-19 coronavírus sars-cov-2 coronavac vacina de oxford (foto: Arte/CB/D.A Press)

"Não tenham medo"

Primeira pessoa a ser imunizada contra a covid-19 no país, a enfermeira Mônica Calazans, 54 anos, atua na linha de frente do combate à doença mesmo fazendo parte do grupo de risco do novo coronavírus: ela é obesa, hipertensa e diabética. Apesar de se enquadrar nessas condições, em maio do ano passado, no auge da primeira onda da doença, ela se inscreveu para vagas de contrato por tempo determinado (CTD), escolhendo trabalhar no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, no epicentro do combate à pandemia. Após receber a CoronaVac, ela pediu que os brasileiros acreditem nas vacinas. “Falo com segurança e propriedade, não tenham medo. Quantas pessoas têm receio de chegar próximas às outras? Eu tomo ônibus, metrô, as pessoas têm receio de chegar perto de você. Então, povo brasileiro, é nossa grande chance. Vamos pensar no monte de vidas que nós perdemos, quantas famílias nós perdemos, quantos pais, mães, irmãos. Eu quase perdi um irmão também com covid. E diante disso é que eu tomei coragem e participei da campanha da vacina”, disse. Mônica atuou como auxiliar de enfermagem por 26 anos e só conseguiu o diploma como enfermeira quando tinha 47 anos. “Quem cuida do outro tem que ter determinação e não pode ter medo. É lógico que eu tenho me cuidado muito a pandemia toda. Preciso estar saudável para poder me dedicar. Quem tem um dom de cuidar do outro sabe sentir a dor do outro e jamais o abandona.”

Sem "jogada de marketing"

 (crédito: Mauro Pimentel/AFP)
crédito: Mauro Pimentel/AFP

Com duras críticas ao governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que iniciou a vacinação contra a covid-19 no estado, o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, anunciou que, a partir das 7h de hoje, o ministério distribuirá para todas as unidades da federação as doses da vacina CoronaVac, desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac.

O ministro fez o anúncio ontem, durante coletiva de imprensa, momentos depois de o imunizante ter o uso emergencial no país autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ele reafirmou que a vacinação nacional começará na próxima quarta-feira, a partir das 10h.

Sem citar o nome do governador, Pazuello afirmou que a coordenação do plano de operacionalização da vacinação nacional contra a covid-19 é exclusiva do Ministério da Saúde e acrescentou que a pasta não pretende fazer “uma jogada de marketing”.

“O Ministério da Saúde tem em mãos, nesse instante, as vacinas tanto do Butantan quando da AstraZeneca, e nós poderíamos, num ato simbólico, ou numa jogada de marketing, iniciar a primeira dose em uma pessoa. Mas, em respeito a todos os governadores, prefeitos e todos os brasileiros, o Ministério da Saúde não fará isso. Nós não faremos uma jogada de marketing”, disse o general, embora o governo brasileiro ainda não tenha conseguido importar, da Índia, 2 milhões de doses da vacina da Oxford/AstraZeneca.

Ainda em referência à ação do governo paulista, Pazuello afirmou que nenhuma dose entre as contratadas pelo ministério junto ao Butantan podem ser utilizadas fora do Programa Nacional de Imunização (PNI).

“A contratação de todas as vacinas é exclusividade do Ministério da Saúde, barra SUS, barra PNI, barra população brasileira”, disse o general. “Nenhuma dose pode ser tirada desse contrato”, acrescentou, frisando que “qualquer movimento fora desta linha está em desacordo com a lei”. (JV)

"Um divisor de águas na história"

A Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) foi unânime ao aprovar o uso emergencial das vacinas CoronaVac, desenvolvida pela farmacêutica Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, e Covishield, produzida pela farmacêutica Serum Institute of India e AstraZeneca, Universidade de Oxford e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e também deixou claro que, como não há outra alternativa contra a doença no momento, os imunizantes são indispensáveis para todos os brasileiros.

Ontem, durante a sessão que autorizou a aplicação temporária das duas vacinas no Brasil, os cinco diretores da autarquia pediram que a população confie nos produtos. O cenário da pandemia no país, que já contabiliza quase 8,5 milhões de infectados e aproximadamente 210 mil mortos pela covid-19, foi o bastante para justificar o apelo da Diretoria Colegiada. “A aprovação da vacina é um desejo de todos, uma questão humanitária e de saúde pública. O momento é histórico, de enfrentamento real à pandemia, capaz de reverter esse cenário devastador. Um divisor de águas na história. Daí a importância de uma análise acertada, sempre pautada no equilíbrio e na cientificidade”, disse a diretora Cristiane Jourdan.

A sessão de análise para uso emergencial das vacinas durou quase seis horas. Antes da decisão dos diretores da autarquia, a gerência-geral de medicamentos da Anvisa e outras duas áreas técnicas da agência analisaram os dois pedidos, recomendando a aprovação de ambos. Na Diretoria Colegiada, a relatora do assunto, Meiruze Sousa Freitas, votou a favor da utilização temporária da CoronaVac e da Covishield por entender que os benefícios conhecidos e potenciais dos imunizantes superam os riscos.

“O nosso país atualmente responde por 10% do total das mortes observadas no mundo. Até o momento, não contamos com alternativa terapêutica, aprovada e disponível para prevenir ou tratar a doença causada pelo novo coronavírus”, destacou.

Sobre a CoronaVac, especificamente, a diretora condicionou o uso emergencial da vacina à assinatura e à publicação no Diário Oficial da União de um termo de compromisso a ser firmado entre a Anvisa e o Butantan por conta da falta de dados conclusivos sobre a imunogenicidade (a capacidade que uma vacina tem de estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos) do imunizante — esses resultados terão de ser apresentados até 28 de fevereiro. Entretanto, mesmo sem cumprir essa formalidade, o governo de São Paulo começou a aplicar a CoronaVac ontem, imunizando 112 profissionais de saúde.

Prevenção
Apesar da aprovação das vacinas, os diretores da Anvisa ressaltaram que as medidas de prevenção ao novo coronavírus não podem ser relaxadas. “Esse é um passo importante, mas ainda muito inicial para um amplo programa de vacinação. Até que a vacina chegue à casa das famílias brasileiras, é importante que continuemos a promover o distanciamento social, o uso de máscaras, o hábito simples de lavar as mãos e o uso do álcool em gel, medidas ao nosso alcance que podem salvar vidas”, declarou Alex Machado Campos.

Diretor-presidente da agência, Antonio Barra Torres reforçou o alerta e lembrou que o novo coronavírus é “um inimigo invisível agressivo e insidioso” que trouxe “desamparo, tristeza, desolação”. “Hábitos culturais de um povo por natureza alegre e acolhedor, foram contidos, mutilados e indefinidamente proscritos. Vidas interrompidas, futuros ceifados, promessas perdidas. Que este modesto júbilo, quase calado por tanto pesar e sofrimento, não seja um motivo de relaxamento para as medidas de proteção, individual e coletivas ora em curso. A ameaça ainda está à porta, o lobo ainda ronda o nosso quintal. Nessa contenda, as máscaras são elmos, o álcool gel e a higiene das mãos são luvas e o distanciamento social é a forma de ainda mais nos unirmos, rumo à vitória que virá”, discursou.

Além disso, ele pediu que os brasileiros acreditem na decisão que foi tomada pela Anvisa. “Essas vacinas estão certificadas. Foram analisadas por nós brasileiros em um tempo, o menor e o melhor, estabelecido por nossos especialistas.”

Sputnik V
Nos últimos dias, a Anvisa recebeu o pedido para uso emergencial de uma terceira vacina contra a covid-19, a Sputnik V. No entanto, a autarquia alegou que a União Química Farmacêutica Nacional, responsável pelo imunizante no Brasil, não atendeu os critérios mínimos exigidos pela agência e devolveu o pedido. Por nota, o laboratório informou que os dados serão fornecidos em breve.

“A Anvisa solicitou informações adicionais, que serão fornecidas em breve. Este procedimento é padrão das agências reguladoras e não significa que o registro foi negado. Nossos serviços oficiais de comunicação estão trabalhando arduamente, para que haja total transparência com os brasileiros sobre o andamento dos fatos, que julgamos ser de máxima importância e urgência para todos.”

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