CONGRESSO

Troca de comando no Congresso pode ampliar influência do Planalto nas votações

Oposicionistas reafirmam necessidade de independência do Legislativo

» JORGE VASCONCELLOS » WESLEY OLIVEIRA » LUIZ CALCAGNO
postado em 31/01/2021 07:00
 (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)
(crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

Experiência em cargos legislativos não falta aos postulantes das presidências da Câmara e do Senado. Mesmo o demista Rodrigo Pacheco, que disputa o comando do Senado durante seu primeiro mandato na Casa, não é um novato na política. O que marca a atual eleição no Congresso é que ela pode significar uma mudança importante na balança do poder, como mostra a disposição com que o presidente Jair Bolsonaro se lançou no jogo.


A maior atenção está na disputa pela Câmara. O deputado Arthur Lira, apoiado pelo Planalto, é a principal liderança do Centrão, bloco que tem garantido apoio ao governo no parlamento. Num momento em que o presidente é questionado pela sua atuação no combate à pandemia, Lira deixa claro que não vai acolher pedidos de impeachment conta Bolsonaro.


O deputado é também a esperança do chefe do Executivo de fazer avançar projetos com a instituição do voto impresso e a facilitação da compra de armas, que foram barrados pelo atual presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Por conta disso, na Câmara e no Senado, os opositores de Bolsonaro dizem que a independência do Legislativo está em risco. Veja abaixo o perfil dos principais concorrentes nas duas Casas.

Arthur Lira
Político discreto, que sempre atuou nos bastidores, o deputado Arthur Lira (PP-AL) é um dos parlamentares mais poderosos do Congresso. Exímio articulador, ele lidera o chamado Centrão, bloco partidário conhecido por negociar cargos em troca de apoio a governos. Lira é um dos expoentes da chamada “velha política”, que Bolsonaro prometeu abolir, durante a campanha de 2018. À frente do Centrão, esteve ao lado, também, dos governos dos ex-presidentes Michel Temer (MDB) e Dilma Rousseff (PT).


Advogado, pecuarista e empresário, Lira, de 51 anos, iniciou a carreira política em 1993, e foi vereador em Maceió e deputado estadual em Alagoas. Na Câmara, está no terceiro mandato consecutivo de deputado federal. Ele é conhecido como um rigoroso cumpridor de acordos, qualidade apontada por colegas. Além disso, tem boa interlocução tanto com a ala governista quanto com a oposição.


Lira deixou claro que não vai acolher pedidos de impeachment contra Bolsonaro. O deputado também deve colocar em votação projetos defendidos pelo Planalto que não avançaram na gestão de Rodrigo Maia. São matérias que tratam, por exemplo, da instituição do voto impresso nas eleições, da flexibilização do Estatuto do Desarmamento e da “escola sem partido”, entre outros temas.


O parlamentar tem problemas no Judiciário. No STF, é réu em um processo por corrupção. Ele é acusado de ter recebido, em 2012, propina de R$ 106 mil do então presidente da Companhia Brasileira de Transportes Urbanos (CBTU), Francisco Colombo. Segundo denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), Colombo queria apoio político no PP ficar no cargo.

Baleia Rossi
Há 20 anos ocupando cargos no Legislativo, Luiz Felipe Baleia Tenuto Rossi entrou na política em 1992, quando se elegeu vereador em Ribeirão Preto (SP). Militante do antigo PMDB, atual MDB, Rossi teve como principal padrinho político o então deputado Ulysses Guimarães, símbolo do partido e presidente da Assembleia Constituinte.


Rossi também conseguiu espaço no partido devido à influência do pai, o ex-deputado Wagner Rossi. Em 2002, elegeu-se deputado estadual, sendo reeleito em 2006 e 2010. Ainda durante o primeiro mandato de deputado estadual, em 2004, concorreu ao cargo de prefeito de Ribeiro Preto, mas foi derrotado no segundo turno.


Entre 2010 e 2011, final do governo de Lula e começo da gestão de Dilma Rousseff, Baleia Rossi comandou o Ministério da Agricultura. No entanto, após denúncias de irregularidades na pasta, acabou pedindo demissão.


Voltou a Brasília três anos depois, em 2014, ao se eleger deputado federal pela primeira vez. Na Câmara, assumiu a liderança do partido e trabalhou pelo processo de impeachment de Dilma.


Em 2019, já no segundo mandato de deputado federal, Rossi se aproximou de Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara. Apresentou a primeira Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da reforma tributária, que ainda tramita no Congresso. Naquele mesmo ano elegeu-se presidente nacional do MDB, beneficiando-se da influência do ex-presidente Michel Temer na sigla.


Até o momento, o bloco partidário de sustentação da candidatura de Rossi envolve o MDB, DEM, PT, PSDB, PSB, PDT, Solidariedade, Cidadania, PCdoB, PV e Rede, cujas bancadas totalizam 236 parlamentares.

Rodrigo Pacheco

No primeiro mandato como senador, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) é apontado como favorito para ocupar a Presidência da Casa pelos próximos dois anos. Apadrinhado do atual presidente, David Alcolumbre (DEM-AP), ele tem apoio tanto de Bolsonaro, quanto do PT, e conseguiu atrair, ainda, o MDB, principal partido adversário e maior bancada do Senado.


Pacheco se apresenta como um pacificador, e apoia-se em temas como a vacina contra o coronavírus, as reformas econômicas e a geração de emprego como pautas capazes de unir o Senado. Avesso a falar sobre o impeachment de Bolsonaro, assunto que ganhou destaque devido à crise da vacina e ao colapso do sistema de saúde de Manaus (AM), o senador destaca que o posto que ocupará, caso vença a eleição, não é ideológico.


Em relação aos grupos de extrema-direita que promoveram protestos antidemocráticos em 2020, alguns, inclusive, com a participação do chefe do Executivo, o candidato diz que se trata de um grupo minoritário.


Antes de chegar ao Senado, o mineiro foi deputado na legislatura 2014-2018 e presidiu a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara. À frente do colegiado, teve que lidar com temas espinhosos, como as duas denúncias contra o então presidente Michel Temer.


Para obter apoio do PSD, segunda bancada da Casa, o senador fechou um acordo pelo qual se comprometeu a não se candidatar, em 2022, à Prefeitura de Belo Horizonte, cargo que disputou em 2016, perdendo para o atual prefeito, o pessedista Alexandre Kalil.


Especialista em Direito Penal, Pacheco foi o mais jovem Conselheiro Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, entre 2013 e 2015.

Simone Tebet

O MDB escolheu Simone Tebet para disputar a Presidência do Senado depois que outros nomes da sigla não conseguiram avançar nas negociações com as demais bancadas. No entanto, na reta final da campanha, ela acabou sendo abandonada pelo próprio partido. Nesta semana, o líder do MDB no Senado, Eduardo Braga (AM), passou a negociar cargos na Mesa Diretora com o principal adversário de Tebet na disputa, Rodrigo Pacheco (DEM-MG).


Mesmo assim, Simone Tebet resolveu manter sua candidatura de forma independente. Na última quinta-feira, afirmou que a “independência” da Casa está comprometida. De acordo com ela, há um “jogo” para transformar o Senado em “apêndice” do Executivo.


Filha do ex-governador do Mato Grosso do Sul Ramez Tebet, Simone Tebet começou a vida política em 2002, quando se elegeu deputada estadual pelo MDB. Na metade do mandato, em 2004, disputou e venceu a prefeitura da cidade natal, Três Lagoas.


Reeleita em 2008, Tebet renunciou à prefeitura no início de 2010 para ser candidata a vice-governadora na chapa de André Puccinelli (MDB). A dupla foi eleita ao derrotar Zeca do PT no segundo turno. Em 2014, Tebet elegeu-se senadora com mais de 640 mil votos.


A senadora apoiou o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. Favorável à Operação Lava-Jato, travou um embate com o colega de partido, o senador Renan Calheiros (AL), ao votar contra o projeto de Lei de Abuso e Autoridade. Em 2019, voltou a enfrentar Calheiros na disputa pela Presidência do Senado. No entanto, abriu mão da candidatura para apoiar Davi Alcolumbre (DEM-AP), que saiu vitorioso. No mesmo ano, assumiu a presidência da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

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