CONJUNTURA

Falta de insumos pode atrasar cronograma de vacinação no Brasil

Produção depende da chegada de matéria-prima da China, que ainda não tem data definida. Se não vier até o fim deste mês, cronograma de vacinação pode ser adiado

O Instituto Butantan atingiu a capacidade máxima de produção da vacina CoronaVac com a matéria-prima disponível no momento. Para que mais doses sejam disponibilizadas, é necessário que a China autorize a farmacêutica Sinovac — com a qual a instituição brasileira tem contrato — a enviar nova remessa de insumos — o Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA). O Butantan busca ajuda na embaixada do país asiático, em Brasília, para conseguir os produtos. A expectativa é de que a liberação de um novo lote de matéria-prima permita a fabricação de cinco milhões a 11 milhões de novas doses.

De acordo com o diretor do Butantan, Dimas Covas, a instituição tem potencial para a produção de um milhão de doses por dia, e mil litros do imunizante concentrado, vindos da China, são suficientes para fabricar essa quantidade de doses. O contrato entre o Butantan e a Sinovac é para 46 milhões de doses, sendo que, até o momento, o Brasil obteve 6 milhões — 1,4 milhão ficou em São Paulo e outros 4,6 milhões começaram a ser distribuídos, ontem, a outros estados e ao Distrito Federal.

Segundo Covas, há dificuldades de autorização do governo chinês para a exportação do insumo. “Essa matéria-prima já está produzida, já está disponível na Sinovac desde meados deste mês, e aguardamos, agora, essa autorização, que, na minha percepção, após a autorização da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), facilitará a decisão do governo chinês”, disse.

Covas admitiu que a situação causa apreensão e, questionado sobre prazo, afirmou, apenas, que os insumos chegam ao Brasil “assim que possível”. “Preocupa, sim, a chegada da matéria-prima. Essa matéria-prima precisa chegar para não parar o processo de produção, e esperamos que isso aconteça muito rapidamente, porque, se chegar antes do fim do mês, nós manteremos o cronograma de entrega de vacinas”, afirmou.

A escassez de insumos barra a produção, criando riscos de interrupção da campanha vacinal. A Anvisa autorizou o uso emergencial de seis milhões de doses da CoronaVac, que foram importadas prontas da China pelo Butantan. A agência também aprovou o uso da vacina de Oxford/AstraZeneca, que, no Brasil, será produzida em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que está parada, sem previsão de fabricação dos imunizantes.

No caso de ambas as vacinas — como frisou Covas —, o Brasil depende do país asiático para importação de insumos. “As duas matérias-primas virão da China e, portanto, precisam de autorização do governo chinês. Acho que, neste momento, isso iguala, pois as duas vacinas é que serão o suporte do Programa Nacional de Imunização (PNI)”, destacou.

O diretor pontuou que, “sem dúvida, o governo tem de se preocupar com” a relação com a China. O governador de São Paulo, João Doria, aproveitou para alfinetar o chefe do Planalto. “Se o presidente Jair Bolsonaro e seus filhos pararem de falar mal da China, isso já ajuda bastante, pois os insumos da vacina do Butantan e da AstraZeneca são produzidos na China e são as duas únicas vacinas aprovadas pela Anvisa. Pelo menos, se não atrapalhar, já é uma ajuda”, enfatizou.

Novo pedido

O Butantan enviou, ontem, um novo pedido à Anvisa para o uso emergencial de 4,8 milhões de doses que foram produzidas pelo instituto. Covas explicou que essa nova solicitação, se aprovada, valerá para o restante das vacinas que será produzido. Em setembro de 2020, a instituição assinou um acordo de transferência de tecnologia para fabricar a CoronaVac no Brasil.

Caso a Anvisa conceda a autorização, a produção poderá ocorrer em larga escala, pois a concessão vale para futuros lotes. A análise deve ser bem mais célere do que os nove dias usados pelo órgão para avalizar o imunizante. “Entramos com o pedido de uso emergencial, agora, para todas as doses que serão produzidas pelo Butantan. A primeira parte de 4,8 milhões já estará em disponibilidade à medida que for feita essa segunda autorização. Uma vez aprovada, a produção do Butantan será feita de acordo com essa autorização e não haverá necessidade de todo lote ser requisitado”, explicou.