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Divisões internas no PSDB, no DEM e no MDB beneficiam Bolsonaro

Rachas em partidos sabotam os planos de uma frente de oposição para encarar o presidente nas eleições de 2022. Com o caminho aparentemente aberto, chefe do Executivo deve reeditar a estratégia de 2018 e polarizar com o PT

Jorge Vasconcellos
postado em 15/02/2021 06:01
 (crédito: Alan Santos/PR)
(crédito: Alan Santos/PR)

As divisões internas no PSDB, no DEM e no MDB, acompanhadas de um processo de distanciamento entre esses partidos, são os reflexos mais imediatos da interferência do governo nas eleições para os comandos da Câmara e do Senado. O cenário que se desenhou após a vitória dos candidatos apoiados pelo Planalto sinaliza que as três siglas de centro-direita deverão disputar separadas a corrida presidencial do ano que vem, sem a sonhada união da oposição para enfrentar o presidente Jair Bolsonaro. Essa conformação permitiria ao chefe do Executivo lançar mão de sua estratégia preferida, a de fazer um embate polarizado com a esquerda, sobretudo com o PT, reeditando o clima da campanha de 2018.

As ações do Planalto para atrair apoio a seus candidatos nas eleições do Congresso incluíram a negociação de verbas e cargos federais e provocaram uma série de traições em diferentes partidos. Na Câmara, dissidentes do DEM, do PSDB e do MDB decidiram votar no postulante de Bolsonaro, Arthur Lira (PP-AL), abandonando a frente de legendas de centro e de esquerda que havia sido criada para sustentar a candidatura de Baleia Rossi (MDB-SP). No Senado, o MDB pulou fora da campanha de Simone Tebet (MS), que representava a sigla, para apoiar Rodrigo Pacheco (DEM-MG). A bancada preferiu um acordo com o então presidente da Casa, Davi Alcolumbre (DEM-AP), que atuou em coordenação com o governo.

Essas dissidências jogaram por terra o projeto dos partidos de centro de, a partir das eleições no Congresso, impulsionar um bloco de oposição para enfrentar Bolsonaro em 2022. Principal mentor dessa ideia, Rodrigo Maia (DEM-RJ) deixou a presidência da Câmara enfraquecido e rompido com a cúpula da sua legenda, que, na véspera da eleição, decidiu adotar a neutralidade, abandonando a frente de apoio a Rossi.

A implosão dessas alianças levou à antecipação de projetos políticos próprios, agravando, ainda mais, as divisões internas. O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), passou a amargar um isolamento no ninho tucano depois de lançar uma ofensiva para assumir o controle da sigla, em maio, e se lançar pré-candidato ao Planalto.

A manobra de Doria foi rechaçada por vários parlamentares do partido, que a consideraram precipitada e desleal. Eles defenderam a prorrogação dos mandatos da Executiva Nacional e conseguiram articular a pré-candidatura do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, à Presidência da República pelo PSDB. Na sexta-feira, a Executiva oficializou a prorrogação do mandato de Bruno Araújo no comando da legenda até maio de 2022, impondo uma grande derrota a Doria.

Adversários

Bolsonaro obteve vários dividendos políticos após se envolver pessoalmente nas eleições no Congresso, sendo um dos ganhos mais importantes o enfraquecimento de Doria e Maia, seus principais adversários. O presidente também reforçou sua blindagem contra os mais de 60 pedidos de impeachment apresentados contra ele na Câmara, a maioria apontando crimes de responsabilidade durante a pandemia da covid-19. Além disso, com a vitória de Lira e Pacheco, o ambiente no Legislativo é mais propício à tramitação das chamadas pautas de costumes, fundamentais para a mobilização das bases bolsonaristas.

O chefe do Executivo está próximo de anunciar o partido pelo qual vai se candidatar à reeleição, tendo iniciado, na sexta-feira, negociações com o Patriota. Enquanto o capitão reformado vai preparando o seu front, os adversários seguem mergulhados em uma série de indefinições, não só na centro-direita como também na esquerda, cujos partidos parecem estar longe de alcançar uma aliança visando as eleições do ano que vem. O ex-ministro Ciro Gomes (PDT); o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB); e o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) são, até o momento, os virtuais candidatos desse espectro político.

Para a eleição do ano que vem, com o enfraquecimento de seus principais adversários de centro, Bolsonaro deve reforçar o discurso contra o PT e a esquerda em geral, o mesmo que surtiu efeito na disputa de 2018. Naquela ocasião, no segundo turno, foi decisivo para a vitória de Bolsonaro sobre Haddad um forte sentimento antipetista entre os eleitores, motivado pelos vários inquéritos e processos em que dirigentes do PT eram acusados de corrupção e outros crimes pela Operação Lava-Jato.

O cientista político André Pereira César, da Hold Assessoria Legislativa, afirma que o antipetismo se mantém forte entre os eleitores e, muito mais do que um sentimento, se transformou em um “partido” político, devendo ter um peso importante, também, no ano que vem.

“Em 2018, a cúpula do PT, os formuladores do PT não entendiam o antipetismo ainda. Talvez, agora, em 2021, eles entendam que o antipetismo é um ‘partido’ forte, que tem peso e capilaridade junto à sociedade. Então, tendo Bolsonaro um eleitorado com esse perfil antipetista, fica mais fácil para ele trabalhar nesse diapasão”, diz o analista. “O PT tem de virar esse jogo, porque o Bolsonaro trabalha o antipetismo muito bem. Por isso que ele bateu forte na centro-direita nas eleições do Congresso.”

 

A pedido de Lula

O PT alimenta esperança de que o Supremo Tribunal Federal (STF) restabeleça os direitos políticos de Lula no julgamento que analisará a suspeição do ex-juiz Sergio Moro para iniciar a campanha do ex-presidente ao Planalto. Mas, o partido teme que essa decisão leve muito tempo. Por isso, Lula decidiu que a legenda não pode ficar à mercê da Corte e que é preciso se movimentar logo para ter chance nas eleições do ano que vem. Assim, em 30 de janeiro, pediu a Fernando Haddad que percorra o país como pré-candidato da legenda.

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