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Aumento de impostos será inevitável, acredita Tony Volpon

O ex-diretor do Banco Central criticou o fato de que o compromisso de um ajuste fiscal por meio de um corte consistente de gastos tenha ficado para depois

Rosana Hessel
postado em 24/03/2021 06:00
 (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
(crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press)

O Brasil não vai escapar de um aumento de impostos. Essa é a avaliação do economista Tony Volpon, ex-diretor do Banco Central e estrategista-chefe da gestora WHG, em relação às perspectivas do cenário fiscal. Para ele, a elevação da carga tributária será inevitável, porque há falta de interesse claro, tanto do governo quanto do Congresso Nacional, na busca de corte de gastos no Orçamento deste ano para reduzir o endividamento público e incluir despesas emergenciais no combate à covid-19. Diante do agravamento da pandemia, serão necessárias fontes de receita para bancar medidas como os R$ 44 bilhões previstos para o novo auxílio emergencial, com previsão para ser pago a partir de abril. E a saída passa necessariamente pela tributação.

O ex-diretor do Banco Central criticou o fato de que o compromisso de um ajuste fiscal por meio de um corte consistente de gastos tenha ficado para depois. Para Volpon, sem aumento de imposto, não será possível manter um Estado inchado e ineficiente, com um nível de despesas no atual patamar atual. “Parece que não há vontade de cortar os gastos. Todos ficam, simplesmente, jogando o problema na dívida pública crescente. Como tem aumento de juros que faz a dívida crescer ainda mais, o país está contratando uma crise futura”, alertou.

O ponto de vista de Volpon foi compartilhado por Alberto Ramos, do Goldman Sachs, e Solange Srour, do Credit Suisse. Eles também alertaram para os riscos do baixo crescimento do país com uma carga tributária, que já é elevada, crescente.

No entender do ex-diretor do BC, o desafio do país pós-pandemia será o crescimento. Para isso, será preciso fazer o dever de casa que está pendente, porque passa justamente pelo ajuste fiscal. Volpon ressaltou que a solução poderia ser combinar aumento de carga tributária com corte de gastos, se “houvesse maturidade e capacidade político institucional para resolver a questão fiscal”. “A solução não é binária. Não é corte de gastos ou aumento de imposto. É possível combinar as saídas”, disse.

Trava do crescimento

Para reforçar o seu ponto de vista, Volpon lembrou alguns dados nacionais. As contas públicas estão no vermelho desde 2014, e, por essa razão, o endividamento público atingiu patamares acima da média relativa a países emergentes. Após um rombo fiscal de R$ 743,1 bilhões, em 2020, por causa do aumento de gastos extraordinários no combate à pandemia, a dívida pública bruta subiu para um nível elevadíssimo, em torno de 90% do Produto Interno Bruto (PIB). Em comparação, a média de países emergentes gira em torno de 50% do PIB.

Um endividamento tão elevado não permite crescimento robusto, de acordo com Volpon. Ele lembrou que, se o crescimento da dívida pública não for contido, o custo disso mais à frente será “uma crise com fortíssimo impacto na inflação”. “Nessa dinâmica de não fazer escolhas, vamos ter uma crise fiscal em algum momento, e será muito pior para todo mundo”, frisou.

Volpon ressaltou ainda que, devido ao recrudescimento da pandemia em 2021, uma retração da atividade é inevitável. Para que a economia cresça na segunda metade do ano, é fundamental aumentar a velocidade do processo de vacinação. “Levando em conta que estamos em um processo contínuo da vacinação, será possível observar uma recuperação no segundo semestre. Mas a economia atingirá um patamar em que não haverá crescimento de fato. As previsões em torno de 3% são basicamente o carry over (carregamento estatístico do PIB de 2020). O mercado já trabalha com queda na margem. Este ano será perdido”, avaliou.

Volpon lembrou, ainda, que o Banco Central iniciou um processo de elevação da taxa básica de juros (Selic), correto devido à pressão inflacionária. Mas reconheceu que uma Selic mais alta terá efeito negativo na retomada. Na opinião do economista, a autoridade monetária errou na avaliação nas reuniões anteriores. “O BC ficou esperando uma notícia positiva que não veio. Ele comprou uma aposta que deu errado”, resumiu.

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