Itamaraty

Pressionado, Ernesto Araújo parte para o ataque e mira Kátia Abreu

Ministro disse que as críticas recebidas da senadora dizem respeito a interesses relacionados ao 5G e não à vacina contra a covid-19

Marina Barbosa
postado em 28/03/2021 18:16 / atualizado em 28/03/2021 21:55
 (crédito: Evaristo Sá/AFP)
(crédito: Evaristo Sá/AFP)

Com a permanência no governo de Jair Bolsonaro ameaçada, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, partiu para o ataque neste domingo (28/3). Ele sugeriu, em uma rede social, que as críticas recebidas da senadora Kátia Abreu (PP-TO) dizem respeito a interesses relacionados ao 5G e não à vacinação contra a covid-19.

"Em 4/3 recebi a Senadora Kátia Abreu para almoçar no MRE. Conversa cortês. Pouco ou nada falou de vacinas. No final, à mesa, disse: 'Ministro, se o senhor fizer um gesto em relação ao 5G, será o rei do Senado.' Não fiz gesto algum", escreveu Araújo, no Twitter. O ministro disse, ainda, que desconsiderou a sugestão "porque o tema 5G depende do Ministério das Comunicações e do próprio Presidente da República, a quem compete a decisão última na matéria".

O comentário de Ernesto Araújo a respeito de Kátia Abreu foi parar nos assuntos mais comentados do Twitter Brasil na tarde deste domingo. Afinal, vem em meio a uma série de críticas à gestão do chanceler brasileiro e de pedidos para que ele deixe o cargo. Porém, só piorou a avaliação do Congresso Nacional em relação ao ministro.

Em nota, Kátia Abreu disse que o chefe do Itamaraty agiu de forma "marginal" e faltou com a verdade em relação à conversa dos dois sobre o 5G. A senadora disse, ainda que, desta forma, Araújo mostrou que "está à margem de qualquer possibilidade de liderar a diplomacia brasileira". Ela reforçou, então, o pedido pela saída do chanceler: "O Brasil não pode mais continuar tendo, perante o mundo, a face de um marginal".

O líder da bancada do PDT no Senado, Weverton Rocha (MA), acrescentou que os senadores não vão aceitar "esse desrespeito". "Encurralado pela péssima gestão à frente da política externa brasileira, principalmente na compra de vacinas, Ernesto Araújo tenta se manter no cargo abrindo uma guerra de fake news contra senadores sérios como Kátia Abreu. Não vamos aceitar mais esse desrespeito contra o Senado Federal e o Congresso Nacional. Táticas de mobilização, com cortinas de fumaça, não funcionarão. Já passou da hora de Ernesto Araujo ser demitido do Itamaraty", reforçou Weverton, no Twitter.

Presidente do PP, o senador Ciro Nogueira (PI) também lamentou o episódio. "No momento em que há um grande esforço para a pacificação e o entendimento, lamento muito que justamente o responsável por nossa diplomacia venha a criar mais um contencioso político para as instituições. O Brasil e o povo brasileiro não merecem isso", disse Nogueira, nas redes sociais.

Senadores pedem saída de Araújo

O desconforto com o trabalho do ministro das Relações Exteriores ficou claro na última quarta-feira (24), em audiência pública realizada pelo Senado Federal - a mesma audiência em que o assessor para Assuntos Internacionais do presidente Jair Bolsonaro, Filipe Martins, foi flagrado fazendo gestos associados a grupos racistas. Na ocasião, senadores afirmaram que o Itamaraty é um dos responsáveis pelo atraso da vacinação no Brasil e pediram a saída de Araújo.

Presidente da Comissão de Relações Exteriores (CRE) do Senado, Kátia Abreu foi uma das críticas. Ela lembrou que a diplomacia é essencial para garantir o avanço da vacinação contra a covid-19 no Brasil, já que a compra de vacinas depende da negociação com outros países. Porém, lembrou que Araújo e a família de Jair Bolsonaro já fizeram diversas críticas aos principais produtores de vacina do mundo - a China e os Estados Unidos.

A senadora lembrou, entre outras outras coisas, que integrantes da família Bolsonaro acusaram a China de espalhar a covid-19 de forma proposital pelo mundo, rejeitaram a Coronavac e também não querem fazer parceria com os chineses na tecnologia 5G, para evitar uma eventual espionagem do Brasil. Por isso, questionou Araújo: "O senhor se sente realmente à vontade, como chanceler do Brasil, para fazer essa interlocução com a China e os Estados Unidos diante desse quadro diplomático desastroso? [...] O senhor se sente à vontade para ter sucesso nessa empreitada, que é a maior que nós temos hoje? Nós precisamos vacinar um terço da população, nós precisamos vacinar 70 milhões de brasileiros para conter a desgraça que estamos vivendo. Nós teremos essa vacina, senhor chanceler?".

Araújo respondeu a senadora dizendo que não hostilizou representantes de outros países e garantindo que nenhum problema diplomático está atrapalhando a compra de vacinas pelo Brasil. Dois dias depois, no entanto, o chanceler ficou incomodado com outro gesto de Kátia Abreu: junto com o deputado Aécio Neves, presidente da CRE da Câmara, a senadora enviou uma carta à Organização Mundial de Saúde (OMS) pedindo o adiantamento da entrega das vacinas a que o Brasil tem direito no consórcio Covax Facility.

As demonstrações de repúdio ao chanceler brasileiro, no entanto, não pararam por aí. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), também pediram melhoria das relações diplomáticas do Brasil, sobretudo neste momento de agravamento da pandemia de covid-19 e urgência pela vacinação.

Neste sábado (27), um grupo de diplomatas divulgou uma carta pedindo a saída de Araújo. A bancada do Psol na Câmara dos Deputados também solicitou o afastamento do ministro de Relações Exteriores à Procuradoria Geral da República (PGR).

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