Mudanças no governo

Postura de Bolsonaro liga alerta para autoritarismo, avalia especialista

Presidente trocou o comando de seis ministérios, incluindo o da Defesa. Para especialistas, a busca do presidente por alinhamento nas Forças Armadas pode ser um sinal de alerta

Israel Medeiros
postado em 29/03/2021 23:25
 (crédito: Marcos Correa/PR)
(crédito: Marcos Correa/PR)

O interesse do presidente Jair Bolsonaro em fazer mudanças no comando do Exército, logo após troca no Ministério da Defesa, liga um alerta. Isso porque Bolsonaro já indicou que está interessado em demitir o comandante do Exército, Edson Pujol. O objetivo é alinhar as posições ideológicas das Forças Armadas com o pensamento do governo. O general Fernando Azevedo e Silva, demitido do Ministério da Defesa nesta segunda-feira (29/3), era o último anteparo para a retirada de Pujol do comando do Exército.

A movimentação ocorre às vésperas do aniversário do golpe militar de 1964, em 31 de março, data de início da implementação da ditadura no Brasil e que durou até a redemocratização na década de 1980. Caso essa mudança se confirme e um nome ligado ao radicalismo bolsonarista assuma o comando do Exército, haverá motivos de sobra para se preocupar.

Para o professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Juliano da Silva Cortinhas, uma mudança como essa pode ser encarada como um sinal de alerta. "O comando das Armas está nas mãos das Forças Armadas, não do Ministério da Defesa. Vamos ver se eles vão se sustentar ou se eles vão dar lugar a comandantes mais autoritários. Se isso ocorrer, vamos dar passos perigosos rumo ao autoritarismo", pontua.

A mudança no Ministério da Defesa não foi a única alteração no governo Bolsonaro nesta segunda-feira. Ao todo, seis pastas tiveram ministros trocados. A primeira foi o Ministério das Relações Exteriores, de Ernesto Araújo. A queda do chanceler, para Cortinhas, era uma questão de tempo, uma vez que ele preferiu abraçar sua ideologia conservadora mesmo durante a crise, quando o Brasil precisava construir relações pragmáticas, opina o especialista.

"Quando ele assumiu a chancelaria, ficou claro que ele adotaria uma posição ideológica. Isso por algum tempo não nos custou tão caro. Só que com a entrada da pandemia, o preço passou a ser vidas. Já são mais de 300 mil e nós não temos opções de compras de vacinas porque não fizemos nosso dever de casa no início do processo", pontua.

Cortinhas diz também que as trocas nos ministérios foram "completamente inesperadas". E argumenta que mudanças dessa magnitude, em geral, são feitas com muito estudo, com cuidado na hora de escolher os nomes para as respectivas pastas.

O doutor em ciência política Pedro Feliú Ribeiro, também graduado em Relações Internacionais, ressalta que o Congresso Nacional está em um momento de forte pressão sobre o governo, avaliando cuidadosamente seus passos para intervir politicamente, caso necessário. Foi o que ocorreu na pressão pela saída de Ernesto Araújo.

Ele lembra que o Senado Federal já vetou indicações para embaixadas na gestão Bolsonaro e disse que isso é raro — o que reforça o descontentamento com a política internacional por parte de parlamentares. Ele destacou também os atritos do governo com a China, por influência dos Estados Unidos, que, até o ano passado, era comandado pelo então presidente Donald Trump.

"Considerando os atritos com a China, que é agora uma exportadora de vacinas como a Índia, vai aumentando a sensação de que a política externa do Brasil está horrível. Por causa de ideologia, houve críticas aos chineses por parte dele e de outros membros do governo. Então é surpreendente que ele tenha continuado no cargo por tanto tempo", comenta.

Salles na mira

Ribeiro acredita que a saída do ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, também pode estar próxima. Isso porque o Brasil tem grande pressão internacional para o combate a queimadas e desmatamento, o que é um diferencial para a imagem do país no exterior.

"No âmbito doméstico, Salles agrada, no âmbito externo desagrada. No caso de Araújo, ele ficou isolado, a pressão internacional pela queda do ministro, especificamente, não se deu publicamente. O Salles tem uma questão que no âmbito doméstico defende os interesses do agronegócio, que vê nele uma possibilidade de relaxar regras no setor. Do ponto de vista internacional, a permanência de Salles pode inviabilizar o acordo com a União Europeia, por exemplo. Então, sem dúvida alguma, a troca do Salles vai ser a próxima pauta", alerta.

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