CORONAVÍRUS

Após embate entre ministros, Supremo vai decidir sobre cultos na pandemia

Com decisões conflitantes de Gilmar Mendes e Nunes Marques sobre funcionamento das igrejas, plenário analisará o impasse na sessão de amanhã. PGR pede que ações sobre o tema fiquem com o mais novo integrante da Corte, favorável à abertura de templos

Renato Souza
postado em 06/04/2021 06:00
 (crédito: Rosinei Coutinho/SCO/STF)
(crédito: Rosinei Coutinho/SCO/STF)

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou pedido do PSD para que as igrejas fossem reabertas em São Paulo. A decisão entra em choque com o entendimento do ministro Kassio Nunes Marques, que, no fim de semana, proibiu o fechamento dos templos em todo o país. Diante do impasse, o presidente da Corte, Luiz Fux, pautou o tema para julgamento na sessão de amanhã. Os 11 magistrados vão se reunir para avaliar se o direito à liberdade religiosa, previsto na Constituição, deve ou não superar o direito à saúde da coletividade em plena pandemia da covid-19.

A tendência é de que a decisão de Nunes Marques seja revertida pelo plenário, em razão da gravidade da crise sanitária. O despacho dele provocou críticas na Corte e preocupações de especialistas e autoridades de saúde.

A Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) — impetrada pelo PSD e analisada por Gilmar Mendes — tem como alvo o decreto do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que proibiu cultos. O partido alega que a medida restringiu o “direito constitucional à liberdade religiosa e de culto das religiões que adotam atividades de caráter coletivo”.

Para o ministro, porém, a decisão do tucano está baseada em dados e evidências, e, mesmo que fosse sem embasamento técnico, o número diário de mortes seria suficiente para entender a importância de manter igrejas fechadas e, assim, evitar aglomerações. Ele destacou que, em 1º de abril, apenas São Paulo tinha 12.961 pessoas em leitos de UTI.

Mendes refutou que restrições a celebrações religiosas, “neste momento de nova escalada da pandemia”, violariam direitos fundamentais. “Quer me parecer que apenas uma postura negacionista autorizaria resposta em sentido afirmativo. Uma ideologia que nega a pandemia que ora assola o país e que nega um conjunto de precedentes lavrados por este tribunal durante a crise sanitária que se coloca”, frisou, destacando, no texto, a palavra “negacionista”. “O decreto que aqui se impugna não foi emitido ‘no éter’, mas, sim, no país que, contendo 3% da população mundial, concentra 33% das mortes diárias por covid-19 no mundo, na data da presente decisão. O mesmo país cujo número de óbitos registrados em março de 2021 supera o quantitativo de 109 países somados.”

No ano passado, o STF entendeu que estados, municípios e a União têm “responsabilidade concorrente” para adotar medidas sanitárias, como o fechamento de estradas e comércio e restrições na circulação de pessoas. A decisão inclui providências em relação às igrejas.

O ministro também negou um pedido semelhante do Conselho Nacional de Pastores do Brasil e mandou um recado: para ele, as entidades da sociedade civil devem ajudar no enfrentamento à covid-19. “Nessa senda, muito ajudaria se, para além do poder estatal, os entes sociais somassem esforços no sentido do efetivo combate ao vírus, numa perspectiva que prestigiasse o interesse coletivo e não objetivos corporativos”, enfatizou.

Crítica

Ao comentar o caso, o ministro Marco Aurélio Mello, decano da Corte, disse que ficou surpreso com a decisão de Nunes Marques. Ele destacou ser necessário reforçar as medidas de isolamento. “Em uma penada única, com uma pressa que eu não entendi, ele implementou essa medida acauteladora. Por que não liberar, então, outros setores? Nós temos de perceber a gravidade da pandemia. A melhor vacina, hoje, é o isolamento”, afirmou, em entrevista à CNN Brasil.

Embora não tenha se manifestado recentemente sobre a situação, desde o ano passado, a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) tem orientado os fiéis a seguir as normas das autoridades sanitárias nos estados e municípios. Já entre os evangélicos não existe uma liderança única, e a divergência é acentuada. Enquanto umas igrejas mantêm as portas fechadas, outras seguem em funcionamento.

Ação de Aras

Em uma iniciativa inesperada, o procurador-geral da República, Augusto Aras, pediu que as ações que tratam da abertura de igreja durante a pandemia saiam das mãos de Gilmar Mendes e fiquem com Nunes Marques. O PGR alega que a ação julgada pelo mais novo integrante da Corte, apresentada pela Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure), é mais antiga e, por isso, deve ficar com ele, devido à chamada “prevenção”.

No STF, o movimento de Aras foi visto como uma tentativa de agradar ao Palácio do Planalto e ser indicado para ocupar a vaga de Marco Aurélio, que se aposenta em julho. A decisão sobre quem ficará com o posto cabe ao presidente Jair Bolsonaro, com chancela do Senado.

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Risco alto de infecção

Segundo cientistas, cultos religiosos reúnem fatores que favorecem a transmissão da covid-19, como juntar muitas pessoas em espaços fechados ou promover atividades que aumentam a disseminação do vírus, como cantar. Pesquisa da Universidade de Stanford (EUA), por exemplo, coloca igrejas na frente de mercados e consultórios médicos como ambientes de maior risco, contrariando o argumento usado pelo vice-presidente Hamilton Mourão para defender a decisão judicial que suspendeu a proibição de cultos presenciais. Na visão dele, “há condições” para realizar cultos e missas, pois as pessoas que vão às igrejas são “mais disciplinadas” do que quem frequenta “balada”. Pelo estudo, igrejas e templos aparecem em sexto lugar em grau de risco, à frente de consultórios médicos (7º) e mercados (8º) e atrás de restaurantes (1º), academias (2º), hotéis e motéis (3º), bares e cafés (4º) e lanchonetes (5º).

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