CORONAVÍRUS

CPI da Covid: Planalto prepara armas para enfrentar depoimentos de ex-ministros

Executivo tenta municiar senadores governistas da CPI da Covid para os depoimentos dos ex-ministros Ernesto Araújo e Eduardo Pazuello, que preocupam o presidente Jair Bolsonaro. Ataques à China, erros na compra de vacinas e indicação de cloroquina estão no foco do colegiado

Sarah Teófilo
Jorge Vasconcellos
postado em 18/05/2021 06:00
Depoimento de Araújo está marcado para hoje: atuação da pasta teria criado dificuldades ao Brasil na compra de imunizantes -  (crédito: Evaristo Sa/AFP - 2/3/21 )
Depoimento de Araújo está marcado para hoje: atuação da pasta teria criado dificuldades ao Brasil na compra de imunizantes - (crédito: Evaristo Sa/AFP - 2/3/21 )

Assessores do Palácio do Planalto passaram o fim de semana compilando informações para dar subsídio aos quatro senadores da CPI da Covid que atuam na linha de frente de defesa do governo. A finalidade é municiá-los para dois depoimentos que preocupam o presidente Jair Bolsonaro: do ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, que ocorre hoje, e do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, marcado para amanhã e que causa mais apreensão.

Os senadores que atuam na linha de frente do governo são Ciro Nogueira (PP-PI), Marcos Rogério (DEM-RO), Jorginho Mello (PL-SC) e Eduardo Girão (Podemos-CE). A estratégia é tentar tirar o foco do governo federal e passar para os estados e municípios. Na última quinta-feira, por exemplo, Girão tentou convocar a subprocuradora-geral da República, Lindôra Araújo, responsável por investigações envolvendo os governadores. O procurador-geral, Augusto Aras, interveio, e o parlamentar não obteve sucesso. Também não conseguiu convencer os colegas a convocar o diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Maiurino, para falar sobre apurações envolvendo os governos estaduais.

Essa estratégia vai se estender até para as narrativas. Pazuello será amplamente questionado sobre as orientações do Ministério da Saúde para uso de cloroquina no chamado “tratamento precoce” em pacientes com covid-19. Os parlamentares da base tentaram remeter para os gestores estaduais e municipais a responsabilidade sobre a distribuição e uso do medicamento, como fica claro em declarações de Marcos Rogério.

Marcos Rogério afirmou, ontem, que o uso e a recomendação da cloroquina para combater a covid-19 partiram de estados e municípios, e não do governo federal. “Estão falando na cloroquina só na perspectiva do governo (federal), mas quem usou a cloroquina e quem recomendou foram os estados”, disse ao Correio. O senador pontuou que Bolsonaro era e é, “em certa medida”, um defensor do remédio, “mas a questão é que os estados fizeram uso, distribuíram”. Conforme ele, “quem deu fluxo” à distribuição do chamado ‘kit covid’ foram os entes federativos.

O governo tem tentado se distanciar, há meses, da cloroquina. Em janeiro deste ano, Pazuello chegou a dizer que não autorizou o ministério a produzir protocolos indicando medicamentos contra covid-19. Em maio do ano passado, entretanto, assim que o general assumiu como interino, o ministério elaborou um protocolo que orientava o uso do remédio, que não tem comprovação científica no tratamento da doença. Além de culpar os governos estaduais, os governistas devem explorar a tese de que a cloroquina e outros medicamentos do “kit covid” são recomendados por técnicos e médicos.

Estratégia

Em relação ao depoimento de Ernesto Araújo, uma das estratégias será dizer que não cabia ao Itamaraty a aquisição de vacinas e que a compra estava difícil devido à conjuntura internacional.

Senadores vão questionar o ex-chanceler sobre as ações diplomáticas que foram executadas para assegurar o acesso do Brasil aos imunizantes. Também estão entre os alvos as desavenças públicas que teve com autoridades chinesas. Esses problemas diplomáticos têm sido apontados como obstáculos para o país receber os insumos necessários à produção de vacinas contra a covid-19.

Araújo também deve ser perguntado sobre o posicionamento adotado pelo Brasil, na Organização Mundial do Comércio (OMC), contra a quebra de patentes de imunizantes. Com essa decisão, o país rejeitou a proposta da Índia e da África do Sul, que defendem a quebra de patentes para que mais nações possam produzir vacinas e medicamentos genéricos contra o novo coronavírus — a Índia é uma das principais fontes de matéria-prima de que o Brasil precisa para produzir imunizantes. A postura do Itamaraty nessa questão, que inviabilizou um acordo na OMC, fez parte do alinhamento do atual governo com o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Outro assunto do interesse de senadores da CPI é a viagem que uma comitiva de 10 pessoas, chefiada por Araújo, fez a Israel entre 6 e 10 de março. Oficialmente, o objetivo foi conhecer um spray nasal contra o novo coronavírus, em desenvolvimento naquele país. O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, fez parte da viagem, que ficou conhecida como “Covid Tour”.

Preocupação

Pazuello, que depõe na quarta-feira, terá direito a ficar em silêncio sobre questões que venham a incriminá-lo, conforme o habeas corpus que conseguiu no Supremo Tribunal Federla (STF), mas é obrigado a revelar “tudo o que souber ou tiver ciência” sobre fatos relacionados a terceiros. A preocupação, então, é de que ele seja muito pressionado a fazer relatos que podem implicar Bolsonaro.

A estratégia para não se incriminar e livrar o presidente será culpar a burocracia do Ministério da Saúde, afirmando sempre que é uma pandemia nunca antes enfrentada, que o mundo todo ficou perplexo e sem saber como agir. Em relação ao isolamento social, como o governo já tem feito, o general deve ressaltar a autonomia dos governadores e prefeitos, algo que será respaldado sempre pelos parlamentares da base.

Agenda da CPI

Depoimentos

Hoje

9h Ernesto Araújo, ex-ministro das Relações Exteriores

Foco principal: explicará a condução da diplomacia na crise sanitária. A avaliação é de que a atuação do chanceler prejudicou a compra de vacinas, principalmente pelos ataques à China

Amanhã

9h Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde

Foco principal: foi o titular da pasta que mais tempo ficou no cargo, por 10 meses, e exercia a função quando a Pfizer fez a oferta de 70 milhões de doses de vacina para o Brasil, assim como na crise da falta de oxigênio em Manaus

Quinta-feira

9h Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde

Foco principal: responderá sobre a defesa de medicamentos antivirais durante a crise de oxigênio em Manaus

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