DECISÃO

Planalto bate hoje o martelo sobre a Copa América no Brasil

O governo Bolsonaro demorou meses para providenciar vacinas, mas precisou de menos de um dia para receber a competição esportiva no país. Após a forte repercussão negativa, ministro Luiz Eduardo Ramos afirma que decisão final será conhecida hoje

Augusto Fernandes Luiz Calcagno Sarah Teófilo
postado em 01/06/2021 05:57 / atualizado em 01/06/2021 05:59
 (crédito: Casa Civil/CB/D.A Press)
(crédito: Casa Civil/CB/D.A Press)

Política e futebol não costumam fazer boa tabela. Mas o governo federal decidiu adotar uma jogada de risco contra um adversário implacável: a pandemia de covid-19. Com uma velocidade surpreendente, o Palácio do Planalto se mobilizou para realizar a Copa América no Brasil daqui a menos de duas semanas. O Executivo avaliaser a sede do torneio às portas de uma terceira onda de contaminações por covid-19, com apenas 10% da população integralmente imunizada e uma dificuldade do Ministério da Saúde em adquirir vacinas. Ontem, o Ministério da Saúde registrou um acumulado de 462,7 mil mortes pela doença.

Mas nada disso foi suficiente para demover o governo de atender a uma “demanda” da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a colaborar para a realização de um evento privado nas capitais do país. Entre deputados, senadores e governadores, as opiniões se dividiram, com muitas críticas. No início da noite, o ministro da Casa Civil, general Luiz Eduardo Ramos, disse que o governo ainda não havia tomado uma decisão definitiva sobre a Copa América. Mas argumentou que várias competições do esporte nacional estão em curso no país, desde o ano passado.

O Brasil entrou em campo depois das negativas da Argentina e da Colômbia, que não quiseram promover o evento por conta da crise sanitária e por questões políticas internas. Ramos argumentou que a CBF garantiu “10 delegações com, no máximo, 65 pessoas; todos vacinados e testados e jogos sem público”. Após o anúncio da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) de que o Brasil seria a nova sede do torneio, com agradecimentos especiais ao presidente da República, ministros e representantes da confederação fizeram uma reunião por videoconferência para ajustar os detalhes sobre a realização do evento.

A Copa América está marcada para ocorrer de 13 de junho a 10 de julho. Ainda não é certo quais as cidades que receberão as partidas do torneio. Caberá à CBF entrar em contato com os governos para negociar onde ocorrerão os jogos. “Estamos no meio do processo, mas não vamos nos furtar a uma demanda caso seja possível de atender. Vou fazer ligações com a CBF. Estamos verificando os detalhes. Amanhã (hoje) teremos uma posição final”, disse Luiz Eduardo Ramos. A favor do evento, ele afirmou que a pandemia não é um empecilho, pois a maioria dos torneios nacionais, que contam com mais participantes do que a Copa América, são disputados normalmente em meio à crise.

Pedido no STF
A questão já está no Supremo Tribunal Federal (STF). Ontem, o PT ingressou na Corte com um pedido para que seja proibida a realização do evento no Brasil por contrariar “os esforços engendrados por parte da sociedade brasileira para a contenção da pandemia” de covid-19. A solicitação, apresentada no âmbito de uma Ação por Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) sob relatoria de Ricardo Lewandowski, é para que sejam suspensas todas as tratativas relacionadas ao evento no país.

Entre governadores, o chefe do Executivo do Piauí, Wellington Dias (PT), que é também presidente do Consórcio Nordeste e coordenador da temática de vacinas e enfrentamento da covid-19 no Fórum Nacional de Governadores, criticou a postura do governo federal. “Muito facilmente o governo federal disse sim para que possamos sediar a Copa das Américas. A pergunta que eu faço é: e as vacinas? São as vacinas que nos colocam no patamar seguro, tanto para eventos esportivos como também para a volta às aulas presenciais, o turismo, poder funcionar o comércio, a indústria, todos os setores. Quero ver essa mesma agilidade do Brasil, através de suas autoridades, atrás de mais vacinas”, afirmou.

O governo de São Paulo, por sua vez, informou em nota que não irá se opor à realização do evento em algum estádio do estado. “O governo de São Paulo não fará objeção caso a CBF defina São Paulo como um dos locais de jogos da Copa América, desde que os protocolos do Plano São Paulo sejam obedecidos”, informou.

Na Bahia, o governador Rui Costa (PT) informou que não há possibilidade de flexibilizar regras para que o estado seja sede. “Se a exigência é ter público, aqui na Bahia não terá. O Brasil precisa de mais vacinas e não de Copa América”, afirmou. Outros governadores se posicionaram contra, como o da Paraíba, João Azevêdo (Cidadania). “Não será possível apresentar qualquer proposta do Governo do Estado com relação à Copa América, já refutada por países vizinhos”, pontuou.

Participarão do campeonato as 10 seleções filiadas à Conmebol (Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Chile, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela). Cada país tem direito a convocar 28 atletas, mas apenas 23 poderão ser relacionados para as partidas. Ou seja, pelo menos 230 jogadores participarão do torneio. Pelas regras da Conmebol, cada delegação pode ter no máximo 50 pessoas credenciadas.

A Copa América deste ano terá 28 partidas e será disputada em 28 dias (entre 13 de junho e 10 de julho), pelo planejamento inicial da Conmebol. Na primeira fase, em que os 10 participantes são divididos em dois grupos com cinco seleções, cada país joga quatro vezes. Avançam para a fase final os quatro primeiros colocados. O mata-mata será composto pelas quartas de final, semifinais, disputa de terceiro lugar e final.

CPI critica
Senadores da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da covid-19 criticaram a realização da Copa América no Brasil após o anúncio da Conmebol. O vice-presidente da comissão, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), protocolou a convocação do presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Rogério Caboclo, para dar explicações. Segundo ele, “a CPI precisa ouvir o presidente da CBF para saber que medidas foram tomadas para garantir a segurança sanitária dos brasileiros e das delegações estrangeiras durante a realização do evento”.

Suplente na comissão, Marcos do Val (Podemos-ES) afirmou que a decisão “é totalmente fora de hora”. “Temos que focar em vacinar todo mundo. O Brasil já comprou as doses das vacinas. Agora, precisamos de tempo para aplicar. Mesmo que não se abra os jogos para os torcedores, vai ter muita gente indo e vindo, entrando e saindo do Brasil, uma movimentação que é arriscada. Não é o momento”, afirmou.

O senador Angelo Coronel (PSD-BA), também suplente na CPI, tem uma visão diferente. Ele avalia que, como campeonatos estaduais e o Brasileirão estão sendo realizados, se forem tomadas as mesmas precauções, não há problema. “Se for assim, tem que suspender o Campeonato Brasileiro também”, alegou. Ele ressaltou que a CPI tem prerrogativa de convocar qualquer pessoa, mas não vê necessidade de chamar o presidente da CBF em virtude da controvérsia. “Muita gente está exilada gente dentro de casa. É uma diversão, desde que se tomem as medidas sanitárias”, afirmou Angelo Coronel.

O senador Eduardo Girão (Podemos-CE) também defendeu o evento. “É impressionante o momento de polarização que a gente vive. Chega a ser doentio quando a conquista do Brasil trazendo a Copa América é vista de forma política”, criticou. O parlamentar argumentou que o evento trará dinheiro, gerará empregos e ajudará o setor do turismo. “Hoje em dia, o que está segurando a onda é o futebol. Seja local, regional, Campeonato Brasileiro, isso traz uma alegria que a vida está continuando. São cerca de 300 pessoas dentro do estádio com protocolos rígidos não apenas da CBF, mas internacional. Não há problema nenhum em apresentar um campeonato desses, argumentou o senador. 

 

Opinião 

“O Brasil precisa de mais vacinas e não de Copa América. Não é responsável termos mais uma competição quando nos aproximamos da marca de 500 mil mortes pela Covid-19. A agilidade que o Governo Federal teve para dizer sim à Copa América precisa ser aplicada à compra de vacinas", declarou o governador.

Rui Costa, governador da Bahia

 

"Estão brincando com a saúde do povo brasileiro. Se o ministro da Saúde e o presidente da República tomam essa decisão, é estimular a aglomeração de pessoas que vem de fora com outras variantes. Muito danoso à saúde. Pessoas virão de países que ainda não estão com cobertura vacinal mínima e razoável”

Senador Otto Alencar (PSD-BA), à CNN Brasil

 

“Nós não temos nada para comemorar. Essa cortina de fumaça, nós não vamos aceitar. Copa América? Só se for a seleção dos intubados, dos que estão com covid, dos que morreram... É isso que nós queremos?”

Senadora Kátia Abreu (PP-TO), à GloboNews

 

“É impressionante o momento de polarização que a gente vive. Chega a ser doentio quando a conquista do Brasil trazendo a Copa América é vista de forma política.”

Senador Eduardo Girão (Podemos-CE)

 

“Fazer a Copa América no Brasil e no Rio Grande do Sul agora seria acrescentar um problema ao país”,

Eduardo Leite (PSDB), governador do Rio Grande do Sul

 

“Desde que sejam mantidas as regras de segurança, as pessoas sejam testadas, sem presença de público, não vejo problema nenhum”

Ibaneis Rocha (MDB), governador do Distrito Federal

 

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Deputado quer ouvir opinião de Queiroga

O presidente da Comissão do Esporte da Câmara, Felipe Carreras (PSB-PE), reclama da falta de organização entre as autoridades envolvidas na escolha pelo Brasil para receber os jogos do torneio. Segundo ele, o fato de apenas a Conmebol ter confirmado o país como nova sede é motivo de preocupação e demonstra que o tema ainda não é consenso dentro do governo.

O parlamentar estranha o silêncio sobre o tema, até o momento, do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. Por conta disso, Carreras entrou com um requerimento na Câmara para convocar o chefe da Saúde.

“A falta de posicionamento da maior autoridade de segurança sanitária do país é um problema, em especial porque teremos atletas de várias partes do mundo vindo para o Brasil e nós não sabemos como as coisas estão funcionando nesses países. Estamos em um momento muito sensível, com a população à flor da pele, as redes públicas de saúde em colapso e hospitais com filas para leitos. Por isso, precisamos convocá-lo para que ele dê uma satisfação”, justificou o deputado.

Carreras ainda disse que o ministro da Cidadania, João Roma, e o secretário nacional do Esporte, Marcelo Magalhães, também podem ser convocados a prestar mais informações aos parlamentares. O deputado também comentou que a Comissão do Esporte deve fazer convites para o presidente da CBF, Rogério Caboclo, e o presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez, se explicarem ao colegiado.

“O Brasil aceitar esta competição sem dar as devidas satisfações e explicações, na iminência de uma terceira onda com novas cepas identificadas ao redor do país, é algo sério. Confirmar um evento dessa envergadura a menos de duas semanas da data de início demonstra que a coisa já começou equivocada”, ponderou.

Agilidade do Brasil
O presidente da Conmebol afirma que o governo brasileiro deu garantias para a organização do evento. "O governo brasileiro demonstrou agilidade e capacidade de decisão em um momento fundamental para o futebol sul-americano. O Brasil vive um momento de estabilidade e tem comprovada infraestrutura e experiência acumulada recentemente para organização da competição", destacou Domínguez, após anunciar o Brasil como sede.

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