CPI da Covid

Incentivo à cloroquina expõe população à vulnerabilidade, diz médica à CPI

Infectologista que ficou 10 dias no Ministério da Saúde, Luana Araújo afirmou que estudos comprovam relação entre o aumento de mortalidade de covid-19 e o uso de cloroquina

Sarah Teófilo
postado em 02/06/2021 13:20 / atualizado em 02/06/2021 13:24
 (crédito: Jefferson Rudy/Agência Senado)
(crédito: Jefferson Rudy/Agência Senado)

Em depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da covid-19, nesta quarta-feira (2/6), a infectologista Luana Araújo, que ficou apenas 10 dias no Ministério da Saúde antes de ser vetada pelo governo, disse que o incentivo de medicamentos ineficazes contra a covid-19, como cloroquina e hidroxicloroquina, expõem a população à vulnerabilidade, fazendo com que sejam abandonadas medidas não farmacológicas de prevenção à doença, como uso de máscara e distanciamento social.

“Quando qualquer pessoa defende algo que não tem comprovação científica, você expõe as pessoas do seu grupo a uma situação de extrema vulnerabilidade. Todo mundo que diz isso tem responsabilidade sobre o que acontece depois”, disse, ao ser questionada pelo relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), se a defesa do presidente Jair Bolsonaro à cloroquina estimulava a população a abandonar as medidas de prevenção à covid-19.

“Temos estudos que mostram que existe aumento de mortalidade com uso de cloroquina e hidroxicloroquina. Quando você transforma isso numa decisão pessoal, é uma coisa. Quando você transforma isso numa política pública, é outra”, disse. A médica ressaltou a questão da autonomia médica, sempre defendida pelo presidente Jair Bolsonaro e por outros defensores da cloroquina contra covid-19, faz parte da prática médica, “mas não é licença para experimentação".

“Autonomia precisa ser defendida, sim, mas com base em alguns pilares: o da plausibilidade teórica, do volume de conhecimento científico acumulado sobre aquele assunto, pilar da ética e responsabilização. Quando você junta tudo, tem direito a sua autonomia. Você precisa fazer aquilo que é melhor para o paciente, mas não pode abrir mão deles”, disse. E completou: “Não é justo com os médicos brasileiros nesse momento jogar para eles a responsabilidade de responder por uma indicação que o mundo inteiro diz que não funciona”.

De acordo com ela, qualquer pessoa que incentiva o chamado “tratamento precoce”, que não existe no âmbito da covid (diferentemente de um tratamento inicial com celeridade), e o uso de medicamentos ineficazes contra a doença incentiva as pessoas a abandonarem hábitos que ajudam na proteção contra o vírus. Questionada se isso impactou nas mortes, Luana afirmou não ter dados sobre isso. “Mas, a partir do momento que você vulnerabiliza as pessoas com informações incorretas, a gente não pode esperar que o resultado seja positivo”, disse.

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