SAÚDE E FUTEBOL

Para desviar foco da CPI da Covid, Bolsonaro encara Copa América como trunfo

Ao autorizar a disputa do torneio no país, em pleno recrudescimento da pandemia, Bolsonaro tenta desviar foco da CPI da Covid e do ritmo lento de vacinação. Depois da reclamação do prefeito de Cuiabá, MP de Goiás também reprova jogos na capital do estado

Ingrid Soares
postado em 04/06/2021 06:00
Bolsonaro participou de missa, em Formosa, com máscara, mas causou aglomeração -  (crédito: Twitter/Reprodução)
Bolsonaro participou de missa, em Formosa, com máscara, mas causou aglomeração - (crédito: Twitter/Reprodução)

Em meio ao desgaste na popularidade, o presidente Jair Bolsonaro tenta desviar o foco da CPI da Covid e do ritmo lento de vacinação no país aprovando a realização da Copa América no Brasil, apesar do posicionamento contrário de cientistas. As capitais escolhidas pelo governo federal para receber os jogos, Brasília, Cuiabá, Goiânia e Rio de Janeiro, passam por dificuldades para conter a pandemia.

Em Goiás, o Ministério Público (MP-GO) recomendou ao governador Ronaldo Caiado (DEM) que não recebesse a Copa América, citando a alta taxa de ocupação dos leitos de unidade de terapia intensiva (UTI) e enfermaria nos hospitais estaduais, municipais e privados de Goiânia destinados a tratar casos de covid-19. O órgão menciona, ainda, os decretos municipais da capital, que restringem uma série de atividades comerciais, com o objetivo de evitar aglomerações. Foi fixado prazo de cinco dias para que o estado informe que providências tomará. O Conselho Estadual de Saúde também emitiu nota de repúdio à realização da competição.

Na quarta-feira, o prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro (MDB), também demonstrou insatisfação com a marcação de jogos para a cidade. Ele pediu ao governo federal que, em contrapartida, a população local seja vacinada contra a covid-19. Já o Executivo estadual defendeu que a proposta foi aceita por seguir protocolos de saúde, como a ausência de torcedores.

Para o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, além de desviar o foco de questões nos quais tem o nome envolvido, Bolsonaro pretende criar uma agenda positiva para o governo. No entanto, apontou ele, a medida pode ter o efeito reverso.

“Não me parece que o Brasil esteja em condições, neste momento, dado ao platô estacionado, de receber um evento internacional. Não há sentido algum. É uma tentativa, entre muitas outras, de desviar a atenção. Há um desgaste da popularidade. Chegou a baixar dos costumeiros 30% de base de apoio que ele tem. Nas projeções para 1º e 2º turnos de 2022, ele já é derrotado especialmente por Lula”, frisou. “Essa tentativa de Copa é para tentar desviar o foco e, na perspectiva dele, trazer uma agenda positiva. A grande questão é que a maioria dos cientistas não entende que será benéfica. O saldo não será positivo, e isso pode, inclusive, inflamar manifestações contra o governo.”

Ontem, Bolsonaro aproveitou a agenda sem compromissos oficiais no feriado de Corpus Christi para andar de moto e visitar uma igreja em Formosa (GO). Durante a missa, o mandatário usou máscara e tirou fotos com apoiadores, provocando aglomeração. Em seguida, retirou o item de segurança e fez um passeio nos arredores do Salto do Itiquira, retornando para o Palácio da Alvorada.

Na terça-feira, o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), deu prazo de cinco dias para Bolsonaro explicar por que circula em público sem usar máscaras e causando aglomerações. O magistrado é o relator de uma ação do PSB que acusa o chefe do Executivo de descumprir medidas sanitárias. Na ação levada à Corte, o partido pede que seja determinado ao presidente que não circule sem a proteção facial, sob pena de multa.

Presidente diz que Brasil "está indo bem"

Enquanto Brasil registra quase 470 mil mortes por covid-19 desde o início da pandemia, o presidente Jair Bolsonaro disse a apoiadores, ontem, que o país “vai bem” e “não tem roubalheira”. “Apesar dos problemas, está indo bem o Brasil, tem gente incomodada com isso”, ressaltou. “É que não tem roubalheira, né? Tem de avisar ao presidente e ao relator da CPI que não está tendo roubalheira”, acrescentou, se referindo aos senadores Omar Aziz (PSD-AM) e Renan Calheiros (MDB-AL), respectivamente, integrantes da comissão parlamentar de inquérito do Senado que investiga a conduta do governo na crise sanitária.

Sobre a CPI, Bolsonaro respondeu perguntas a respeito de uma possível convocação do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB). “O que eu sei é que o MP (Ministério Público) pediu o destino do dinheiro, mas tem governador que não encaminhou ainda. Não vou falar que ele fez mau uso do dinheiro, pode ter enfiado em outro lugar, pode ser legal, mas o dinheiro era para a saúde”, declarou.

Um apoiador disse que o país nunca tinha tido antes de Bolsonaro um presidente patriota. “Teve de 1964 a 1985, teve”, respondeu o chefe do Planalto, citando o período da ditadura militar.

Ele também voltou a criticar a “política do fica em casa”. “Não existe comprovação científica para lockdown. Zero”, sustentou. A medida de isolamento social para evitar a disseminação da covid-19, no entanto, é defendida pela comunidade médica internacional.
A conversa aconteceu na entrada do Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente, após ele retornar de um passeio de moto a Formosa, onde causou aglomeração. Segundo a Prefeitura da cidade, 85% dos leitos de UTI estão ocupadas com pacientes infectados por covid-19.

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