Obituário

Marco Maciel: o vice leal; morte rende homenagens entre autoridades

Político fundamental na transição do Brasil oprimido para a redemocratização, o vice de Fernando Henrique Cardoso em dois mandatos ficou conhecido, ao longo da trajetória, pela discrição e pela habilidade em construir consensos

Luiz Carlos Azedo
postado em 13/06/2021 06:00
Maciel no Senado: estilo conciliador marcou a trajetória do político -  (crédito: Agencia Senado/Divulgação)
Maciel no Senado: estilo conciliador marcou a trajetória do político - (crédito: Agencia Senado/Divulgação)

Marco Antônio de Oliveira Maciel nasceu no Recife no dia 21 de julho de 1940, filho de José do ex-deputado federal Rego Maciel e de Carmem Sílvia Cavalcanti de Oliveira Maciel. Estudou na Faculdade de Direito da Universidade de Pernambuco, concluindo o curso em 1963. Foi líder estudantil, deputado federal, senador duas vezes, governador e vice-presidente da República por dois mandatos. Era um político conservador, mas se destacou pela capacidade de diálogo. Como vice do presidente Fernando Henrique Cardoso, destacou-se pela discrição com que atuava, quase sempre driblando as perguntas incômodas da imprensa e agindo nos bastidores em missões delicadas. “Se me pedirem uma palavra para caracterizá-lo, diria: lealdade. Viajei muito, sem preocupações: Marco exercia com competência e discrição as funções que lhe competiam. Deixa saudades”, comentou ontem o ex-presidente da República, ao saber da morte do político pernambucano em Brasília.

Marco Maciel acreditava que a política era dialógica — “o pensamento deve preceder a ação” — e valorizava o pluralismo. “Devemos buscar sempre, entre o que nos separa, aquilo que pode nos unir, porque, se queremos viver juntos na divergência, que é o princípio vital da democracia, estamos condenados a nos entender”, dizia. A aparência física lhe valeu o apelido de “Mapa do Chile”. Ao tomar posse como “imortal” na Academia Brasileira de Letras (ABL), porém, o acadêmico Marcos Vilaça comparou-o a Bernard Shaw, assim descrito por Bertold Brecht: “Eis uma pessoa quase sobrenatural... não podia defini-lo melhor, já que se move e fala constantemente. E monstruosamente alto e magro... um ar cavaleiresco de D. Quixote, qualquer coisa de apostólico... sempre transbordante de vida e sempre a contar histórias interessantes...”

Político da antiga Arena, em novembro de 1976, Marco Maciel foi eleito presidente da Câmara dos Deputados para o biênio 1977-1978. Por sua atuação em favor da “distensão lenta e gradual” do regime, acabou indicado pelo presidente Ernesto Geisel para assumir o governo de Pernambuco, que governou até 1982. Elegeu-se então para o Senado, derrotando Cid Sampaio, do MDB, por 90 mil votos.

No final de 1983, porém, começou a ganhar a proposta de restabelecimento das eleições diretas para presidente da República. No Congresso Nacional, o deputado Dante de Oliveira (PMDB-MT) apresentou emenda constitucional que propunha o restabelecimento das eleições presidenciais diretas já para a sucessão de Figueiredo. A campanha das Diretas Já reuniu milhões de pessoas nas praças públicas nos primeiros meses de 1984, mas em janeiro de 1984, levada à votação na Câmara no dia 25 de abril de 1984, a emenda Dante de Oliveira não obteve o quórum mínimo de 2/3 dos votos favoráveis para aprovação. Maciel era a favor das diretas, mas no pleito seguinte. Era pré-candidato no PFL.

A essa altura, a disputa interna no PDS na sucessão do presidente João Baptista Figueiredo caminhava para uma polarização entre as candidaturas de Paulo Maluf e Mário Andreazza. Diante desse quadro, Maciel desistiu de sua pré-candidatura e integrou-se ao grupo dissidente do partido, do qual também fazia parte o vice-presidente Aureliano Chaves, que articulava o apoio a Tancredo Neves (PMDB). Logo depois, rompeu publicamente com o PDS e assumiu, ao lado de José Sarney, Aureliano Chaves e outros pedessistas dissidentes, o trabalho de articulação do movimento da Frente Liberal. Os entendimentos resultaram na formação da Aliança Democrática, frente que oficializou o lançamento do governador mineiro Tancredo Neves à presidência da República, tendo o ex -pedessista José Sarney como vice-presidente. A chapa venceu o pleito presidencial indireto realizado em 15 de janeiro de 1985, derrotando no Colégio Eleitoral o candidato do PDS, Paulo Maluf.

Impeachment

Em março de 1985, pouco antes de sua posse, Tancredo Neves foi acometido por grave problema de saúde que o impediu de assumir a presidência. Em seu lugar, o vice José Sarney foi empossado provisoriamente no dia 15 de março, mantendo a composição do ministério antecipada por Tancredo, com Marco Maciel à frente da pasta da Educação. A reforma ministerial promovida pelo presidente Sarney no início de 1986 resultou em sua ida para a chefia do Gabinete Civil da Presidência da República. Seria, então, o principal articulador do governo com o Congresso Nacional.

Segundo o ex-presidente José Sarney, Marco Maciel desempenhou suas funções com integridade, sobriedade e grande senso de responsabilidade. Em abril de 1987, Maciel deixou o Gabinete Civil e assumiu então a presidência nacional do PFL, retornando ao Senado, onde se incorporou aos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte. “Em sua visão de intelectual, foi responsável por grande contribuição à legislação brasileira desses últimos tempos”, disse Sarney, ontem, ao comentar a morte do amigo. Em outubro de 1990, Maciel foi reeleito senador. No início da nova legislatura, em fevereiro de 1991, assumiu a liderança do governo Collor no Senado.

Em maio de 1992, o governo Collor foi abalado por denúncias feitas pelo irmão do presidente, Pedro Collor de Mello, que apontavam a existência de amplo esquema de corrupção e tráfico de influência no interior da administração federal. Marco Maciel demitiu-se da liderança do governo no Senado e, criticado por Collor, declarou-se impossibilitado de defender o governo por não ter recebido do Palácio do Planalto qualquer prova em contrário ao que tinha sido apurado pela CPI. O pedido de impeachment de Collor foi votado e aprovado na Câmara em 29 de setembro, com 441 votos favoráveis e 38 contrários. Afastado da presidência após a votação na Câmara, Collor renunciou ao mandato em 29 de dezembro de 1992.

Vitórias no 1º turno

O vice Itamar Franco, que já vinha exercendo o cargo interinamente desde 2 de outubro, foi efetivado na presidência da República. Imediatamente, Maciel passou a defender o apoio do PFL ao novo governo. Em fevereiro de 1994, propôs que o PFL desistisse de lançar candidato próprio às eleições presidenciais. Na época, as pesquisas eleitorais indicavam ampla vantagem do candidato do PT, Luís Inácio Lula da Silva. Após negociações, o PFL, o PSDB e o PTB acertaram a composição de uma chapa encabeçada por Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, ministro da Economia do governo Itamar Franco. O bem-sucedido Plano Real, que controlara a inflação, projetara o tucano como alternativa eleitoral.

Pelo acordo, caberia ao PFL a indicação do nome do vice da chapa. O PSDB inicialmente não aceitou a indicação de Maciel, temendo que um nome tão ligado aos governos anteriores pudesse prejudicar a campanha. A escolha do vice pefelista acabou recaindo então sobre o senador alagoano Guilherme Palmeira. No início de agosto, porém, quando o candidato do PSDB já assumia a primeira colocação nas pesquisas de intenção de voto, o nome do senador Guilherme Palmeira foi atingido por denúncias.

Temendo desgastes eleitorais, a direção do PSDB exigiu que o PFL substituísse Palmeira. A cúpula pefelista indicou então o nome de Maciel para o cargo e o PSDB, que dessa vez acatou rapidamente a indicação. Realizada as eleições em outubro, a chapa Fernando Henrique-Marco Maciel recebeu 34.362.726 votos, mais da metade do total dos votos válidos, o que lhe garantiu a vitória já no primeiro turno. Em 1998, a chapa Fernando Henrique/Marco Maciel venceria a disputa novamente no primeiro turno, com 53% dos votos válidos, derrotando o petista, mais uma vez. Em 1º de janeiro de 2003, Maciel deixou a vice-presidência da República e, no mês seguinte, assumiu sua vaga no Senado, onde manteve intensa atuação legislativa, até janeiro de 2011. E stava filiado ao DEM, o antigo PFL.

Marco Maciel morreu na madrugada de ontem. Internado em um hospital particular do Distrito Federal desde o dia 30 de março, faleceu em decorrência de um “quadro infeccioso respiratório”. Seu corpo foi velado por parentes e amigos no Senado Federal e sepultado no final da tarde, no cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul. Em 2014, Maciel foi diagnosticado com mal de Alzheimer, doença que destrói a memória e outras funções. No começo do ano, teve covid-19. Sua esposa, Ana Maria Maciel, com quem teve três filhos, informou que ele havia se tratado em casa, com orientação médica, e se recuperou da infecção. Em maio, Maciel recebeu a segunda dose da vacina contra o novo coronavírus.

Senado reúne as últimas homenagens

 (crédito: Roque de Sá/Agencia Senado)
crédito: Roque de Sá/Agencia Senado

Em cerimônia restrita a amigos próximos e familiares, o ex-vice-presidente da República Marco Maciel foi enterrado no final da tarde de ontem na Ala dos Pioneiros do Cemitério Campo da Esperança. Mais cedo, representantes dos três Poderes acompanharam o velório no Salão Negro do Senado Federal, último local onde o político atuou em sua extensa trajetória. O presidente Jair Bolsonaro decretou luto oficial de três dias “em sinal de pesar pelo falecimento do ex-vice-presidente da República”. Em Pernambuco, o governador Paulo Câmara (PSB), decretou luto de sete dias.

Entre as autoridades presentes no velório no Salão Negro, estava o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. Como representante do Comando do Exército, compareceu o general Richard Fernandez Nunes. O ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda também prestou homenagem. A presença de deputados e senadores também marcou a cerimônia.

Terceiro-secretário da Mesa Diretora, o senador Rogério Carvalho (PT-SE) representou o colegiado. Ao Correio, ele relatou que, em razão da saúde já fragilizada de Maciel, a família estava tranquila, incluindo a viúva, “muito serena e consciente da finitude da vida”. O parlamentar detalhou a importância da participação de Maciel na vida política brasileira. “Ele sempre foi muito discreto, inteligente, com contribuições ao processo de redemocratização do Brasil. Uma pessoa dedicada à vida pública e com uma imagem muito preservada, sempre prezava pela urbanidade e pela civilidade no trato, sem abrir mão das convicções políticas”.

O senador Chico Rodrigues (DEM/RR) definiu Maciel como um dos homens públicos mais respeitados dos últimos tempos. “Era de uma conduta irretocável e deixou um exemplo de vida pública e familiar inesquecível. O Brasil precisa de resgatar várias figuras públicas tão exponencial quanto Marco Maciel”. Também estiveram presentes o senador Izalci Lucas (PSDB/DF) e o deputado Hiran Gonçalves (PP-RR), que representou o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira.

O arcebispo de Brasília, Dom Paulo Cezar Costa, presidiu a cerimônia do velório, que terminou por volta das 16h. Ele destacou o caráter conciliador de Maciel e a importância dessa qualidade nos dias de hoje, em uma sociedade polarizada. “Marco Maciel deixou um legado de diálogo. Era um homem que tinha seu partido, mas era capaz de conversar, com uma visão maior na busca do bem comum. Eu diria que ele deixou o legado de um autêntico político”, disse Dom Paulo à Agência Senado.

Carregado pelos Dragões da Independência, o caixão fechado de Marco Maciel foi levado ao carro funerário pelas rampas principais do Congresso Nacional. O ato representou a despedida de um dos grandes personagens da política brasileira.

 

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