ENTREVISTA

UE está pronta para reforçar sustentabilidade, diz embaixador Ignacio Ybáñez

Diplomata elogia compromisso do Brasil na Cúpula do Clima, mas afirma que é preciso apresentar resultados sobre o meio ambiente

Gabriela Chabalgoity*
postado em 17/06/2021 06:00
 (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

O embaixador da União Europeia no Brasil, Ignacio Ybáñez, disse que os sucessivos recordes de desmatamento brasileiro preocupam o bloco europeu. Entrevistado do programa CB.Poder, parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília, nesta quarta-feira (16/6), o diplomata elogiou a participação do Brasil na Cúpula do Clima, com a afirmação de compromissos em torno da sustentabilidade. Mas, na avaliação dele, é preciso ir além das palavras. “Precisamos de resultados no terreno, que ainda não estão lá”, disse.

Apesar dos entraves ambientais, Ignacio Ybáñez vê pontos positivos no acordo. Cita, por exemplo, o início da operação de um cabo transatlântico que permite a transmissão direta de dados entre a Europa e a América do Sul. Sobre a pandemia da covid-19, o embaixador ratificou a importância de uma cooperação multilateral entre os países, porque o isolamento protecionista acaba por atrapalhar o enfrentamento do vírus. Na visão dele, é importante buscar acordos e promover ações coordenadas. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

O Brasil continua em situação crítica quanto ao desmatamento. É um risco para o acordo entre União Europeia e Mercosul?

Sem dúvidas, é o maior risco, eu diria. É um elemento central para chegar à assinatura e depois a uma ratificação do acordo. Para chegar a uma parceria como a que queremos estabelecer entre a UE e o Mercosul, é preciso se basear em valores, o que inclui a sustentabilidade. No passado, o Brasil foi capaz de reduzir de uma forma consistente. Mas agora isso não acontece. As palavras do presidente na Cúpula do Clima foram muito bem-vindas porque significam esse compromisso do chefe de Estado brasileiro numa oportunidade internacional. Acreditamos que ele vá cumprir, mas precisamos de resultados no terreno, que ainda não estão lá.

Depois da declaração do presidente na Cúpula do Clima, houve algum contato ou avanço com o governo brasileiro?

Contatos regulares. Nós temos um diálogo que eu considero ótimo com as autoridades brasileiras. Acreditamos que os compromissos do governo brasileiro serão respeitados, mas é verdade que estamos esperando os resultados. A União Europeia está preparada para reforçar sua cooperação nos âmbitos da sustentabilidade em outros conceitos. O Mourão e o Bolsonaro sempre falam do conceito de sustentabilidade econômica para gerar riqueza para as pessoas, em particular para a região Amazônica, a sustentabilidade social e ambiental. É um núcleo que tem que se acompanhar.

O governo brasileiro reivindica que o país seja remunerado pela preservação da Amazônia. Concorda com a proposta?

A remuneração do governo brasileiro, caso consiga preservar a Amazônia, vai chegar diretamente pelo próprio país. Se você tem uma atuação favorável, pode influenciar, por exemplo, no agronegócio, que é uma das grandes riquezas do Brasil. Os próprios representantes do agro brasileiro reconhecem que essa situação que está se criando vai ter um efeito muito ruim sobre a atividade. Uma boa ação do governo brasileiro vai ter um primeiro efeito. Logicamente, nós falamos sempre na cooperação. Se o Brasil desenvolver e responder como esperamos, haverá cooperação.

Setores do governo dizem que a Europa devastou suas florestas e se desenvolveu causando muita poluição. Agora, quer impedir o Brasil de progredir. Qual a resposta para essa crítica?

Cada um de nós tem uma responsabilidade diferente. A União Europeia não se esconde em respeito às suas responsabilidades, mas temos um programa chamado Pacto Verde que está com transformações grandíssimas dentro da União Europeia. Está acontecendo uma transformação dentro do nosso setor energético e pretendemos cada vez mais deixar as energias que poluem e vamos atrás de energias mais verdes. Estamos restaurando nossa agricultura, estamos reflorestando grande parte da União Europeia e temos programas ambiciosos de reflorestamento. A UE nunca se escondeu a respeito da responsabilidade.

O Brasil está entrando em um momento delicado, de estiagem. Isso causa dois problemas imediatos: queimadas e geração de energia. Como o senhor vê esse problema?

O ministro Bento Albuquerque (Minas e Energia) apresentou uma grande ambição para apostar cada vez mais em energias renováveis. Isso é uma das grandes preocupações porque é uma área onde a UE tem que fazer grandes transformações. Nossa matriz energética não é tão verde como a brasileira. Estamos trabalhando com os parceiros, e o Brasil tem que ser um deles. Vemos uma conexão com as mudanças climáticas e acreditamos que temos que trabalhar juntos nessas energias do futuro.

UE e Mercosul também colaboram na área de tecnologia.

Sim. A cooperação é muito positiva. O Brasil é um dos países que aproveita melhor os programas de cooperação na área de pesquisa da UE, sobretudo o programa Horizonte Europa. Recentemente começou a operar o cabo submarino que vai unir o Brasil à UE. Essa conexão permitirá uma comunicação direta entre a Europa com o Brasil — antes a conexão era feita através dos EUA. Isso dará, também, mais oportunidades para os negócios.

Que lição a UE pode dividir com o Brasil no combate à pandemia? Quais foram as ações cruciais?

Buscamos unidade na União Europeia, isso foi o início de tudo. No princípio, estava cada um agindo por si, e isso não foi bom, então começamos a trabalhar como sempre trabalhamos, em equipe. Fizemos, por exemplo, uma compra coletiva das vacinas, isso frente às indústrias farmacêuticas. A segunda lição é basear todos os esforços na ciência. E, por fim, a solidariedade. Como falei, ninguém vai sair disso se agir sozinho. Se um país decide se fechar, você pode ter a percepção errônea de enfrentamento. Mas isso é um problema global. Seu vizinho, por exemplo, pode desenvolver variantes para as quais você não está preparado. Por isso é necessária uma cooperação internacional.

* Estagiária sob supervisão de Carlos Alexandre de Souza

 

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