ENTREVISTA

Joice Hasselmann desconfia que lesões podem ter sido atentado; confira entrevista

A parlamentar não descarta, porém, que as lesões sejam decorrentes de acidente doméstico

Denise Rothenburg
Pedro Ícaro*
João Vitor Tavares*
postado em 29/07/2021 06:00
 (crédito:                                     )
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A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) desconfia de que as lesões que sofreu — hematomas, fraturas no rosto e na coluna e dentes quebrados — podem ter sido um atentado. Em 18 de julho, ela acordo no apartamento funcional que ocupa, na Asa Norte, com os machucados e sem saber o que aconteceu. “Eu tenho muitos inimigos políticos, isso não é novidade para ninguém. Mas não vou ser leviana de mencionar nomes, porque a polícia está investigando a situação”, afirmou, em entrevista ao programa CB.Poder, parceria entre o Correio e a TV Brasília.

A parlamentar não descarta, porém, que as lesões sejam decorrentes de acidente doméstico. “Lógico que a polícia vai ter de dizer. Estou sempre tomando o cuidado de dizer: ‘Gente, eu não descarto as quedas’”. Veja os principais trechos da entrevista:

As polícias Civil e Legislativa estão investigando esse mistério da madrugada de 18 de julho. Por que a senhora não acionou imediatamente a Polícia Federal? Por que demorou três dias para acionar a polícia?

Todo mundo me pergunta isso. Vamos pensar no óbvio. Acordei de bruços, com sangue. Achei que fosse do nariz. Vi que tinha um corte no queixo. Meu rosto estava completamente branquinho. Não tinha hematoma, tinha um dente quebrado na frente. A minha preocupação era muito mais estética, porque eu estava banguela. O que eu pensei: caí, desmaiei, tive um mal súbito. Pessoas perguntam: ‘Por que você não foi ao hospital?’. O hospital estava na minha casa, meu marido é um dos neurocirurgiões mais bem-conceituados do país. Fez todos os primeiros socorros. Qualquer pessoa normal acharia aquilo que nós achamos: eu caí. Não queria fazer tomografia naquele dia antes de resolver o problema do meu dente: ‘Não vou sair banguela desse jeito’. No outro dia, apareceu um hematoma no rosto. Meu marido falou: ‘Você vai ter de fazer tomografia’. Eu concordei, mas pedi para esperar mais um pouco: ‘Vou ao dentista e, depois, vou fazer a tomografia’. Quando o laudo ficou pronto, o doutor Kalil falou: ‘Que pancada menina, porque você está com cinco fraturas no rosto e uma na coluna’. Imediatamente, comuniquei ao meu marido, Daniel. Começamos a levar em consideração que pudesse ter acontecido alguma coisa, que eu pudesse ter caído várias vezes, mas aí a questão é por que não lembro? Informamos ao Depol (Departamento de Polícia Legislativa), que me escolta, por causa das ameaças de morte.

Suspeito de atentado após o laudo?

É uma desconfiança de que algo poderia ter acontecido. Lógico que a polícia que vai ter de dizer. Estou sempre tomando todo cuidado de dizer ‘gente, eu não descarto as quedas’.

Convulsão está descartada?

Não tenho histórico nem de sonambulismo, nem de convulsão, nem de desmaio, nada. Ontem (terça-feira), a Polícia Civil passou aqui umas 16h/17h, fazendo a reconstituição e, obviamente, o apartamento foi limpo. Ninguém ia deixar sangue no chão, imaginando que se tratava de um acidente doméstico, mas eles têm todos aqueles pós mágicos da polícia, luminol, aquela coisa de CSI, investigação.

Encontraram alguma impressão digital em seu apartamento?

Ainda não. Mas eu fiz uma pergunta ao delegado, pois era uma coisa que estava me incomodando: ‘Delegado, sobre o objeto que nós encontramos aqui, é possível que tenha uma impressão digital, ainda que o item estivesse num tapete de pano e rolado debaixo do tapete?’, questionei. ‘É possível’, ele me respondeu.

Onde e quando esse objeto foi encontrado?

Estava na sala. Foi encontrado um pouco antes da coletiva de imprensa (domingo), quando alguns ajudantes meus encurtaram a parte retrátil do sofá e avistaram o objeto, armazenado em um plástico e, depois, entregue à polícia.

Por que levanta suspeita de atentado por razões políticas?

Eu tenho muitos inimigos políticos, isso não é novidade para ninguém. Mas não vou ser leviana de mencionar nomes, porque a polícia está investigando a situação. O fato é que estamos em apartamento funcional e constatamos, depois, a suspeita de que o caso poderia não ter sido provocado por uma queda ou pancada na cabeça. Mas veja: estou colocando tudo no sentido condicional. Sem querer acusar alguém, relatei à polícia dois fatos recentes envolvendo questões políticas, mas que não vou citá-los pois estaria atrapalhando a investigação da polícia. Uma coisa fica muito clara: a vulnerabilidade dos imóveis funcionais em relação às câmeras de segurança. Nós não temos câmeras de segurança nas escadas nem na frente dos apartamentos. Isso poderia ser resolvido imediatamente, ou descartada qualquer hipótese, ou comprovada invasão no meu apartamento. Então, o fato de ter vários pontos cegos — do qual também pedi análise da Polícia Civil —, deixa especialmente as mulheres bastante apavoradas. Como é que teremos imagens de um local em que não há câmeras? Essa vulnerabilidade fica muito evidente.

A Câmara já deu alguma resposta se vai instalar câmeras?

Até foi um dos argumentos do Depol. Eu perguntei ao delegado o porquê de não ter câmera. Ele me disse ser uma questão de privacidade do parlamentar. Mas isso aqui é uma extensão da Câmara, né? A questão da privacidade não está acima da questão da segurança física e da segurança moral. Inclusive, a bancada feminina, por meio da Procuradoria, fez pedido ao presidente da Câmara, para que sejam instaladas câmeras nos imóveis funcionais.

O que quis dizer com a frase: “Não quero acabar como o PC Farias”?

Quis dizer que quero uma resposta, da investigação, para o que aconteceu comigo. De novo: não é novidade que eu sofro ameaça de morte há bastante tempo. Já chegaram a entregar a cabeça de um porco na minha casa, dizendo que iriam me decapitar. As ameaças são constantes. A própria Polícia Legislativa, junto à polícia de São Paulo, chegou a uma pessoa que tem porte de arma e que fazia ameaças de morte a mim. Só que o crime de ameaça é ridículo, cuja punição é prestar serviços comunitários. Claro que fiquei apavorada com a possibilidade de ter acontecido uma agressão a mim dentro de um imóvel funcional. Então, temos de buscar todas as respostas. Eu confio na Polícia Civil do DF e no Depol para isso.

Fez o exame toxicológico? Houve versões de que a senhora teria se negado.

Claro que eu fiz, gente. Eu não sei de onde que tiram essas ideias (de que teria se recusado). Isso aí é maldade plantada, como também uma maldade plantada de um carro todo quebrado, parecido com o meu, e gente espalhando que eu bati o carro drogada — logo eu, que nunca fumei um cigarro na vida — e que tentei entrar com nome falso em um hospital. Lógico que vou processar todas as pessoas que estão com essa versão. Tanto que pedi que a polícia fizesse uma perícia no meu carro.

Como o seu marido não acordou no dia em que a senhora ficou machucada?

Só lembro de quando estava desacordada no chão. Se alguém entrou no apartamento e me agrediu na cabeça, como é que o meu marido ouviria a três cômodos de distância e com a porta fechada, assim como eu? Tenho hábito de dormir com a porta fechada por conta dos meus gatos.

Acredita mais na Polícia Legislativa do que na Polícia Civil?

Não. O Depol é o foro mais adequado para investigar o caso, porque eu estava (no dia do episódio) em um imóvel que é extensão da Câmara. A Polícia Civil também foi acionada e entrou no caso. Eu pedi que o MP entrasse no caso. É preciso deixar claro: não tenho problemas nenhum com a Polícia Federal. Mas é óbvio, todo mundo sabe, que o presidente da República fez interferência na Polícia Federal, o que motivou a saída de Sergio Moro do governo. Não é que não confio na polícia. Não confio no governo, que me tem como desafeto.

*Estagiários sob a supervisão de Cida Barbosa

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