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Bolsonaro radicaliza discurso para tentar esconder inflação, dizem analistas

Para eles, radicalização do discurso contra as instituições é fumaça para dispersar a atenção para mau desempenho da economia. E alertam: se continuar assim, indicadores pioram e afastam o eleitor que quer conquistar para 2022

Apesar da inflação e do desemprego ascendentes, o presidente Jair Bolsonaro se mantém na trilha do confronto com o Poder Judiciário e com os governadores para tentar manter o eleitorado radical cativo e conter a sangria na popularidade devido aos maus sinais da economia. Mesmo anunciando medidas como um aumento na mensalidade do Bolsa Família, principal termômetro do governo junto às classes D e E, especialistas alertam que os programas sociais não serão suficientes para pavimentar a reeleição em 2022.

Gil Castello Branco, diretor-geral da Associação Contas Abertas, lembra que a escolha do eleitor é, antes de mais nada, feita de olho na vantagem que um governo pode trazer para si mesmo. Mas ele salienta que não existe benesse sem prejuízo, pois qualquer concessão dada por um governo implica e algum custo.

“O problema é que as bondades eleitoreiras, quando irresponsáveis, sob o ponto de vista fiscal, têm efeitos curtos. A inflação em alta consome rapidamente os benefícios concedidos e os menos favorecidos são os primeiros a serem afetados. As incertezas econômicas e políticas geradas, em grande parte, pelo próprio comportamento de permanentemente confronto do presidente, não contribuem para a recuperação da economia”.

Castello Branco deixa claro que, nas contas públicas, as mágicas habitualmente vêm acompanhadas de prejuízos. “A mágica para burlar o teto de gastos, abrindo espaço para despesas no ano eleitoral, terá como consequência a alta da inflação e dos juros, a fuga de capitais, a redução dos investimentos e o desemprego. A carruagem rapidamente pode virar abóbora”, prevê.

O analista político do portal Inteligência Política Melillo Dinis também é pouco otimista para a conjugação entre a radicalização e a piora dos indicadores econômicos por parte de Bolsonaro. Para ele, quanto mais os números piorarem — e as estimativas dos principais agentes econômicos apontam para isso —, mais o presidente promoverá cortinas de fumaça para tensionar o Estado Democrático de Direito.

“O ambiente de descontrole na economia, especialmente para os mais pobres, piora a popularidade do Bolsonaro, aumenta a sua rejeição e cria condições muito difíceis para seus apoiadores. Da mesma forma, parte da elite econômica e financeira começa a se afastar do Planalto, buscando alternativas a um quadro que pode deteriorar ainda mais até o fim do ano. O barulho e a fúria não significam nada, nem melhoram a economia”, avisa.

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Piromania

Raquel Borsoi, analista de risco político da Dharma Politics, destaca que a estabilidade econômica é um fator decisivo na hora de o eleitor decidir em quem votará. “Se olharmos para trás, Fernando Henrique Cardoso foi reeleito porque controlou a inflação. Lula foi reeleito porque, além de não deixar que a inflação voltasse, melhorou a qualidade de vida das pessoas”, salienta. Ela lembra que foi por causa também do mau desempenho da economia que abreviaram o governo de Dilma Rousseff.

“Ela foi reeleita com a proposta de manter o que Lula fez, mas a partir do momento que a economia começou a oscilar, caiu. Estabilidade econômica importa para o eleitor. Na véspera de concorrer às eleições, Bolsonaro enfrentará um dilema. Por mais que a população não debata sobre macroeconomia, sente a instabilidade ao comprar arroz, feijão, pagar o transporte, o botijão de gás e a conta de luz. As promessas de crescimento do ministro Paulo Guedes não se consolidaram. Bolsonaro tem que explicar em que a vida da população melhorou nesses últimos quatro anos de mandato”, diz.

 

Negacionismo econômico

» O poder de compra da população vem sendo corroído pela inflação oficial medida pelo IPCA, que acumula alta de 9% em 12 meses. No último dia 18, o presidente Jair Bolsonaro negou a responsabilidade pelo aumento de preços em itens como o gás de cozinha e a gasolina. Na conversa com apoiadores à saída do Palácio da Alvorada, tentou chutar a crise para longe: disse que governo federal “não é o vilão” pela alta dos preços dos derivados de petróleo e alfinetou que a culpa é dos estados, por conta das altas alíquotas de ICMS incidentes sobre os dois produtos.

» Bolsonaro chegou a sugerir, na live do último dia 19, que o consumidor pudesse comprar gás de cozinha diretamente da refinaria. Mas, antes, culpou a suposta ganância dos governadores. “Como eu gostaria que cada governador zerasse o ICMS do estado. Criar um vale-gás. Se zerar o ICMS, vai ser excelente. Logo poderíamos tratar da venda direita do botijão, a exemplo do etanol. Você pode pegar o seu caminhãozinho na tua comunidade e compraria 100 botijões. O frete do caminhãozinho cada um pagaria no condomínio. Margem de lucro seria zero para quem for entregar, já que é um trabalho comunitário”, sugeriu.

» Na live do último dia 12, o presidente se eximiu da responsabilidade pela disparada dos preços no país, mas reconheceu que a inflação é um “número grande” e está ocorrendo “no mundo todo”. A exemplo do que respondera quando indagado, no ano passado, sobre as mortes provocadas pela covid-19 — “Querem que eu faça o que? Eu não sou coveiro!”, devolveu a um jornalista —, disse: “Querem que agora a gente faça milagre?”. Bolsonaro assegura que tem conversado com o ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre o custo de vida. Na última semana, recomendou a compra de fuzil em vez de feijão.