SETE DE SETEMBRO

Pós-Sete de Setembro: radicalização de manifestantes ficou no discurso

Temor era de que houvesse invasão e depredação do Congresso e do STF, sobretudo depois que os manifestantes furaram o bloqueio da PM, na Esplanada, na 2ª feira. Mas, exceto por um tumulto próximo ao Itamaraty, ato correu tranquilamente debaixo de um sol escaldante

Fábio Grecchi
Pedro Marra
Cristiane Noberto
Rafael Felice
postado em 08/09/2021 06:00
Manifestação dos apoiadores do Presidente Jair Bolsonaro na Esplanada dos Ministerios. O Presidente subiu num carro de som e fez discurso. -  (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)
Manifestação dos apoiadores do Presidente Jair Bolsonaro na Esplanada dos Ministerios. O Presidente subiu num carro de som e fez discurso. - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

O que se previa para ontem, na Praça dos Três Poderes, não era bom. Falava-se na possibilidade de invasão do Congresso e de depredação das instalações do Supremo Tribunal Federal (STF) — e os indícios para isso puderam ser percebidos na noite de segunda-feira, quando a guarnição da Polícia Militar do Distrito Federal opôs pouca resistência aos manifestantes bolsonaristas que furaram o bloqueio que impedia veículos de descerem a Esplanada dos Ministérios. Mas, no final, o que se viu foi um ato de apoio ao governo Bolsonaro em que a radicalização ficou nos discursos e os ânimos exaltados foram percebidos apenas nas palavras de ordem. Por volta do meio-dia, os apoiadores do presidente se dispersaram e o patrimônio público continuou intacto.

Exceto quando tentaram arrancar as barreiras de contenção montadas em torno do Ministério das Relações Exteriores, obrigando os policiais a intervirem e agirem com mais firmeza contra os manifestantes, o ato governista foi pacífico. O sol estava inclemente — 33ºC, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), por volta das 10h, próximo ao Congresso, onde o público se concentrou. A maioria das pessoas estava sem máscara de proteção contra a covid-19 e alguns tocavam buzinas. Fogos de artifício e drones, que teoricamente não seriam permitidos pela PMDF, que afrouxou a fiscalização em vários pontos de acesso à Esplanada, também foram vistos. As autoridades não divulgaram o número de participantes.

Ricardo Ribeiro, 48 anos, veio de Pitangui (MG) de ônibus para se solidarizar com o governo. “Viemos de longe para apoiar mesmo e marcar presença. Esperamos que o rumo da política mude”, comentou, sem definir exatamente o que seria a mudança esperada por ele.

Com uma estátua de Nossa Senhora Aparecida, Sandra Maria Rodrigues Ribeiro, 59, chegou para o protesto às 6h com um grupo de religiosos. Moradora da Asa Norte, disse que “o voto auditável tem que sair porque o sistema eleitoral não é confiável e, muito menos, as instituições”. A PEC 135/19, que propunha a volta do voto impresso, porém, foi sepultada na Câmara dos Deputados por 229 votos contra 218, no último dia 10 de agosto.

Moradores do Cruzeiro Novo, o casal Sandra Mota Rodrigues, 44, e Natalício Mota, 42, disse que foi à manifestação porque “a questão do STF é a mais importante, porque eles estão fazendo o que querem. Eles que são os donos do Brasil”. Só que as recentes prisões determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes foram pedidas pela Procuradoria-Geral da República (PGR), assinadas pela subprocuradora Lindôra Araújo.

Moradora da Asa Norte, Lucélia Fernandes Pinheiro, 62, foi com o marido, Adolvando Pinheiro, 66, ao ato. “O brasileiro está cansado de ficar em casa reclamando desses políticos e do STF. Temos que lutar pela nossa liberdade e pela defesa do voto impresso”, disse. Não definiu, porém, a que “liberdade” se referia, pois o direito de expressão é garantido principalmente nos incisos IV e IX do artigo 5º da Constituição vigente, a de 1988.

Fernando Couto Fontes, 44, e Raquel Alves, 49, definiram o ato de ontem. “A expectativa é de que o presidente tome a atitude de derrubar o sistema corrupto que está aí, com o esquema político, principalmente, aprisionando o povo”, disse ele, desconsiderando que o Centrão — integrado por vários partidos de histórico de adesismo a todos os governos — ocupa, atualmente, generoso espaço na gestão Bolsonaro.

“A manifestação no Brasil todo foi pacífica. A democracia é ruidosa, é barulhenta e tem disputa. Mas não pode usar os ritos democráticos para pedir o fim da democracia”, disse Paulo Baía, cientista político e sociólogo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), analisando as manifestações.

Renda extra

As manifestações também foram uma oportunidade para os ambulantes conseguirem uma renda extra. Patrícia Barreto, 41, veio de Samambaia Norte com o filho e um bom estoque de água mineral. “Como está muito quente, não falta cliente”, exultou ela.

Morador de Águas Lindas (GO), Diogo Sousa, 27, pretendia vender todas as 200 camisetas e cerca de 20 bandeiras. “Está melhor do que Copa do Mundo. Trouxe umas 200 camisas e já vendi 80”, alegrou-se.

Hevelen Vitória, 15, oferecia aos manifestantes açaí e cupuaçu. Do Itapuã, ela costuma vender na Rodoviária do Plano Piloto, entre terça-feira e sábado, mas, com o ato bolsonarista, viu uma oportunidade de aumentar o faturamento. “Vim aqui para aproveitar o grande movimento. E, no calor, o povo acaba comprando sorvete”, explicou, contente com o bom movimento.

Secretaria classifica evento como pacífico

Os protestos contra e a favor do presidente Jair Bolsonaro, respectivamente nas imediações da Torre de TV e na Esplanada dos Ministérios, terminam com o registro de nove furtos de celulares, dois suspeitos detidos e 32 pessoas atendidas pelo Corpo de Bombeiros devido a problemas relacionados ao calor. A Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal classificou os atos do 7 de Setembro como “pacíficos”. Durante os protestos, duas pessoas foram levadas pelos policiais militares, na Esplanada, por porte de drogas. Já os Bombeiros registraram 32 atendimentos, sendo 22 deles relativos às altas temperaturas. Outras 10 pessoas receberam atendimentos pré-hospitalares: três foram levados para o hospital, sendo dois casos de convulsão e um por queimadura solar.

Panelaços fecham o dia de protestos

Várias capitais voltaram a registrar, ontem, panelaços contra o presidente Jair Bolsonaro. Uma convocação para o protesto circulou nas redes sociais ao longo dos últimos 10 dias. Em Brasília, os protestos puderam ser ouvidos com mais intensidade nas asas Sul e Norte, além do Sudoeste e Águas Claras. Os protestos duraram aproximadamente cinco minutos.

Em São Paulo, também foi intensa a manifestação contrária ao governo. Em alguns bairros houve gritos de “Fora, Bolsonaro”, “Fora, fascista”, “genocida” e “miliciano”. Os protestos foram registrados em bairros do centro e zona oeste de São Paulo, como Bela Vista, Vila Buarque, Barra Funda, Pompeia, Perdizes, Santa Cecília e Barra Funda.

No Rio de Janeiro, moradores voltaram a se manifestar também batendo panelas, no começo da noite. As manifestações aconteceram, ao menos, em bairros das zonas sul, como Copacabana, Laranjeiras, Cosme Velho e Botafogo; norte, como Grajaú; oeste, como Barra da Tijuca. Mas, na cidade, também houve manifestações semelhantes enquanto Bolsonaro discursava em Brasília e São Paulo. De manhã, foram ouvidos em Copacabana, Laranjeiras, Cosme Velho e Flamengo, na zona sul, e no Grajaú, na zona norte. À tarde, no Humaitá, no Flamengo e no Cosme Velho, na zona sul.

Durante a manhã, o Rio foi palco de dois atos, um a favor e outro contra Bolsonaro. O protesto governista ocorreu na orla de Copacabana. Houve relatos de buzinaços, panelaços e gritos ao longo de todo o dia.

14 quarteirões ocupados na Paulista

A Avenida Paulista, no coração de São Paulo, foi o palco escolhido pelos manifestantes a favor de Jair Bolsonaro. Com faixas antidemocráticas e muitas delas propondo inconstitucionalidades — como a defesa de um golpe militar —, os apoiadores verberaram contra os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso, e pediram ditadura mantendo o atual presidente no comando do país.

Cerca de 14 quarteirões da Paulista foram ocupados, com maior concentração em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp) e em frente à sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Duas pessoas foram presas por furto de celular, 10 aparelhos foram recuperados, uma pessoa foi ferida por um drone não autorizado, outra foi detida por porte de arma branca e uma terceira por levar sinalizadores e fogos de artifício — que estavam proibidos.

Os bolsonaristas compareceram vestidos com camisetas com nas cores da bandeira do Brasil e da seleção brasileira. A maioria participou do ato sem respeitar as regras de distanciamento social e o uso obrigatório de máscara, determinados pelo governo do estado desde 2020 por conta da pandemia de coronavírus. O governo de São Paulo informou, porém, que fiscalizou o uso da proteção.

Os manifestantes seguravam cartazes com dizeres contra a imprensa, o STF e pediam, entre outras coisas, “o fim do comunismo”. Também houve faixas pedindo a cassação dos ministros do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux e Ricardo Lewandowski.

Logo depois do discurso de Bolsonaro, os manifestantes começaram a se dispersar. Por volta das 18h, a Paulista estava praticamente esvaziada. Não houve registros de violência ou vandalismo, tal como aconteceu nos protestos contra o presidente, em julho. Ao contrário do que foi anunciado pelo governo de São Paulo, praticamente não houve revista dos bolsonaristas pelos policiais militares. Os acessos à Paulista estavam liberados sem barreiras, diferentemente do que ocorreu em outros protestos na cidade. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, houve bloqueios em “pontos estratégicos”.

A pouco mais de quatro quilômetros dali, no Vale do Anhangabaú, houve mais uma edição do Grito dos Excluídos. Os públicos das duas manifestações não se encontraram. A PM não divulgou cálculos da quantidade de pessoas que participaram dos dois atos.

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