Jornal Correio Braziliense

Lula e Ciro trocam farpas

A guerra entre PT e PDT ganhou mais um capítulo ontem, com novo bate-boca entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-governador do Ceará Ciro Gomes. Em entrevista à Rádio Grande FM de Dourados (MS), o petista disse que o desafeto foi “banal” e “grosseiro” nas afirmações que fez contra a ex-presidente Dilma Rousseff. Ciro, por sua vez, publicou um vídeo em suas redes sociais no qual enfatizou ter colocado o dedo “na ferida do PT”.

Ao ser questionado a respeito das declarações do ex-governador sobre Dilma, Lula não mediu palavras. “Às vezes, penso no que Jesus disse na cruz: ‘Pai, perdoai os ignorantes, eles não sabem o que fazem’. Não sei se ele (Ciro) teve covid, mas dizem que quem tem covid tem sequela, problemas no cérebro, algumas sequelas de esquecimento, porque não é possível que um homem que pleiteia a Presidência da República possa falar o que ele falou ontem (quarta).”

Em nota, Ciro afirmou que teve covid em outubro do ano passado e não ficou com sequelas. Disse que o petista, “com esse comentário infame, acaba de agredir milhões de mortos e sobreviventes da covid”. Ele também publicou um vídeo no Twitter no qual refaz os ataques. Acusou o PT de tentar esconder “o pior de sua história” e frisou que “a corrupção do governo Lula e a incompetência do governo Dilma” foram os principais responsáveis pelo surgimento do bolsonarismo.

“Duas pragas (corrupção e incompetência) que o PT semeou porque repetiu o modelo econômico, o tipo de governança, a cumplicidade com os corruptos profissionais, o recrutamento de técnicos incompetentes e pouco criativos de governos anteriores. A mesma coisa, aliás, que está fazendo a cria nojenta e involuntária deles, esta praga chamada bolsonarismo”, disparou. O ex-governador reafirmou que Lula teria atuado pela queda de Dilma. “Repito: Lula, sim, foi o maior fator de desestabilização do mandato de Dilma. Ele fez isso de forma às vezes consciente e de forma às vezes inconsciente. Fez isso tanto no passado remoto como nos momentos finais de agonia dela.”

Na véspera, em reação às acusações do pedetista, Dilma disse que ele “mente de maneira descarada” para ganhar popularidade e lamentou ter “em algum momento, dado a Ciro Gomes a minha amizade”.

Desde o início da pré-campanha, Ciro tem adotado a estratégia de dirigir ataques à candidatura de Lula, que lidera as pesquisas de intenção de votos, numa tentativa de atrair o eleitorado antipetista. Na última manifestação em prol do impeachment de Bolsonaro, que tinha o objetivo de reunir lideranças de esquerda, Ciro foi vaiado e alvo de uma tentativa de agressão por parte de manifestantes.

Após o incidente, o ex-governador sugeriu uma “trégua de Natal” com o PT para temas relativos ao impeachment de Bolsonaro, mas a “trégua” não durou uma semana.

Agressividade
Os ataques de Ciro são vistos por especialistas como tentativas frustradas de marcar posição como terceira via para as eleições de 2022. “Para ir ao segundo turno, ele precisa dessa parte do eleitorado e tende a rivalizar com Lula. Assim, por serem dois candidatos da esquerda, essa campanha do Ciro pode fazer com que Lula tenha maior desgaste com o eleitorado de centro, beneficiando o pedetista. Contudo, os fortes ataques também acabam ajudando (o presidente Jair) Bolsonaro, que ataca Lula e o PT sempre”, afirmou o cientista político Cristiano Noronha, da Arko Advice.

Segundo o cientista político Sérgio Praça, da Fundação Getulio Vargas (FGV), a agressividade do ex-governador acaba por prejudicá-lo. “Quanto mais agressivo ele for, só será ruim para ele. Dessa forma, não vai tirar votos de Lula nem de Bolsonaro. Está numa posição difícil e não consegue se firmar como candidato de esquerda nem de terceira via”, destacou. (Com Agência Estado)