Economia

Centrão avança no domínio da pauta econômica e se prepara para abrigar Bolsonaro

A aliança do presidente com o Centrão tende a ficar ainda mais forte. O desembarque do presidente no Progressistas é dado como certo por parte de integrantes da sigla

Ingrid Soares
postado em 01/11/2021 06:00
Bolsonaro entre Ciro Nogueira e Arthur Lira, caciques do PP: aliança no Congresso com interesses para 2022 -  (crédito: Marcos Correa/PR)
Bolsonaro entre Ciro Nogueira e Arthur Lira, caciques do PP: aliança no Congresso com interesses para 2022 - (crédito: Marcos Correa/PR)

Com o país em crise econômica e o ministro Paulo Guedes enfraquecido, os partidos do Centrão atuam para aprovar projetos que, a um só tempo, os beneficiem politicamente e ajudem o presidente Jair Bolsonaro a sair do atoleiro. A leitura é de que o Posto Ipiranga não tem conseguido emplacar grandes feitos sem a ajuda do Congresso ou ainda fazer andar as reformas. Como parte do plano para tirar do papel programas sociais como o Auxílio Brasil, projetos como a reforma do Imposto de Renda e a PEC dos Precatórios são os mais urgentes para o bloco.


A situação de Guedes ficou mais difícil a partir do momento que o Centrão passou a comandar os ministérios da Casa Civil e da Secretaria de Governo, com Ciro Nogueira (PP) e Flávia Arruda (PL). Com esse movimento, o bloco partidário assumiu as articulações com o Congresso, incluindo o controle da destinação das verbas bilionárias de emendas parlamentares.


A partir daí, os embates entre a ala política e a equipe econômica aumentaram. Há pouco, mesmo tendo conseguido sobreviver às investidas do Centrão e reclamando de “pescarias” da ala à procura de um substituto para seu cargo, Guedes teve que ceder sobre a flexibilização do teto de gastos. Em contramão, causou mais uma instabilidade no mercado e assistiu a mais uma debandada de sua equipe.

Aproximação

A aliança de Bolsonaro com o Centrão tende a ficar ainda mais forte. O desembarque do presidente no Progressistas é dado como certo por parte de integrantes da sigla. Em contrapartida, o chefe do Executivo quer indicar os candidatos ao Senado em regiões chave onde tem sofrido revés, como por exemplo, no travamento da indicação de André Mendonça para o cargo de ministro na Suprema Corte. A estratégia é necessária para fazer andar pautas de interesse do governo. Para a sigla, a vinda do presidente se torna benéfica por conta do potencial de crescimento da bancada no Congresso, o que aumentaria as verbas do fundo partidário e eleitoral, além de conquistar mais tempo de propaganda eleitoral da TV e rádio no próximo ano.


Se até pouco tempo o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), não se movia para a filiação de Bolsonaro, o cenário mudou. Junto com o senador e ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP-PI), Lira trabalha para vencer resistências ao nome de Bolsonaro principalmente na região Norte e Nordeste. O partido também é o mesmo que ofereceu meios para que o governo conseguisse construir uma base de sustentação no Parlamento com o Centrão.


Lira tem se empenhado em acelerar pautas de interesse de seu grupo político e do governo. Para isso, vem designando aliados para cargos estratégicos em comissões e relatorias de projetos que podem destravar algumas das principais pautas como alta do preço dos combustíveis, gás de cozinha e Auxílio Brasil.


O deputado Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo Bolsonaro na Câmara, destaca que a filiação de Bolsonaro viabilizará ao PP ser o maior partido em 2023, melhorando a condição de reeleição do presidente. “Como disse nosso presidente em exercício, 90% do partido já está alinhado e chegaremos a 100%. Todos reconhecem que a volta de Bolsonaro ao PP beneficia o partido como um todo”. Barros aponta que “problemas regionais estão sendo ajustados”.


“Ambos terão muitas vantagens. É o grande primeiro passo para que a articulação política da reeleição se consolide. O PP é aliado do presidente e estará com ele na reeleição independente da filiação. O Progressistas entre os maiores partidos é o mais à direita. Com Bolsonaro virão os bolsonaristas e o partido, que já era majoritariamente apoiador da pauta da família e dos costumes, se fortalecerá”, acredita.

Riscos e vantagens de Bolsonaro no PP

O analista político do portal Inteligência Política, Melillo Dinis, ressalta que Bolsonaro é presidente da República com mais tempo sem uma agremiação política. “O principal ganho do Centrão é de tentar aumentar a bancada de deputados federais, chave para a definição dos fundos partidário e eleitoral. Bolsonaro aumenta a tração dos candidatos do PP, melhora a competitividade e ainda traz seus adeptos para aumentar a grade de opções do partido nos Estados. A maior desvantagem que Bolsonaro traz é o seu modelo de presença no partido político, com a tentativa de controle total da máquina e da burocracia. Além disso, a sua presença atrapalha alguns cenários regionais, como a Bahia e o Piauí”.


Alessandro Costa, mestre em Ciência Política, especialista em Direito Eleitoral e professor de pós-graduação do Ibmec ressalta que o PP é uma importante peça do jogo político desenvolvido no parlamento, pois o Centrão representa a maioria dos parlamentares dentro das casas legislativas. “Desde a redemocratização, o PP nunca teve um candidato à Presidência da República para chamar de seu e por conta de não contar com nomes com chances reais de vitória, sempre preferiu se aliar a candidaturas de outros partidos. Ombrear com o presidente é algo que amplia ainda mais o espaço do partido na representação institucional e gera também dividendos políticos nas urnas”.


O namoro entre o PP e Bolsonaro iniciado com o apoio deste à candidatura vitoriosa de Lira à presidência da Câmara, passando pela nomeação de Ricardo Barros a líder do governo na Casa, tende a dar um passo “mais sério”, culminando no “casamento” de ambos com o fim de enfrentarem juntos o processo eleitoral de 2022, analisa Alessandro Costa.


“Ao que parece, a elegibilidade de Lula e o resultado das últimas pesquisas, que o colocam em primeiro lugar na preferência dos eleitores, bem como a queda dos índices de popularidade do presidente, fizeram com que as conversas entre Bolsonaro e o PP sobre uma eventual aliança também na disputa da presidência em 2022, que até então eram acenos, se transformassem em relação mais que estável”, avalia Costa.


Com a eventual filiação de Bolsonaro, além de controlar a Casa Civil, a presidência da Câmara e a liderança do governo na Câmara, o partido terá controle sobre a campanha presidencial e se beneficiará também com as verbas partidárias.


Porém, destaca, essa caminhada conjunta, no entanto, depende de alguns fatores, entre eles o não agravamento dos quadros de impopularidade do presidente frente a avaliação de sua gestão até aqui. “A grave crise econômica, as milhares de mortes causadas pela suposta inação do Presidente podem fazer com que esses planos sejam abandonados. Afinal, o PP carrega o DNA do Centrão, onde a máxima “que seja eterno enquanto dure” é levada bastante a sério. Não esqueçamos que o PP já foi base de apoio de FHC, de Lula e de Dilma no passado”, lembra.


Danilo Morais dos Santos, professor da pós-graduação do Ibmec-DF, observa que a aproximação com Bolsonaro atende ao interesse do PP em aumentar o controle sobre o Orçamento. “O Progressistas tem cada vez mais tentáculos sobre o governo, já exerce certa tutela sobre a Esplanada e chega a militar discretamente, nos bastidores, em prol da substituição de Paulo Guedes, em nome de uma virada de chave eleitoreira em sua fracassada agenda de austeridade”, acredita.


Contudo, ele diz, não é razoável supor que Lira e os caciques da legenda se converterão em neobolsonaristas. “Serão sempre governistas, seja qual for o líder de plantão”, observa.

 

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