Eleições

Aliança com Alckmin é 'vacina' contra ideia de que Lula é extremista, diz cientista político

Aliança entre Alckmin e Lula vem sendo costurada pelo PSB, um dos partidos ao qual o ex-tucano poderá se filiar

BBC
Leandro Prazeres - Da BBC News Brasil em Brasília
postado em 20/12/2021 08:59
 (crédito: Agência Brasil/Reuters)
(crédito: Agência Brasil/Reuters)


A possível aliança entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin é uma "vacina" contra a ideia de que o petista seria um extremista de esquerda. A afirmação é do cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Cláudio Couto.

"(Essa aliança) é uma vacina contra a acusação de extremista. Como você vai dizer que Lula é extremista se ele tiver como vice o Geraldo Alckmin?", indaga Couto.

Uma possível chapa com Lula e Alckmin tem sido um dos assuntos mais comentados no cenário político nas últimas semanas.

Grande parte do frisson em torno dessa possibilidade está no fato de que os dois foram adversários políticos durante boa parte de suas carreiras.

Em 2006, por exemplo, Lula e Alckmin disputaram a Presidência da República. Na ocasião, o petista venceu o então tucano no segundo turno.

O contexto atual, no entanto, é outro. Após sobreviver política e juridicamente às acusações e condenações da Operação Lava Jato, Lula aparece como favorito a vencer as eleições presidenciais em 2022, segundo pesquisas de intenção de voto mais recentes. Mesmo assim, enfrenta resistências em setores mais conservadores do eleitorado.

Alckmin, por outro lado, acaba de deixar o PSDB, partido ao qual esteve filiado por 33 anos e do qual era uma das principais lideranças.

Desde 2018, no entanto, quando obteve 4,76% e ficou apenas em quarto lugar na disputa presidencial, o ex-tucano viu sua influência na legenda diminuir ao mesmo tempo em que seu ex-afilhado político, o governador de São Paulo, João Doria, ampliou seu poder sobre o partido.

A aliança entre Lula e Alckmin vem sendo costurada pelo PSB, um dos partidos ao qual, especula-se, o ex-tucano poderá se filiar.

Cláudio Couto em frente a estante de livro
Arquivo pessoal
Para Cláudio Couto, chapa com Alckmin serviria para diminuir resistência a Lula entre conservadores

Sob os holofotes, tanto Lula quanto Alckmin vêm dando sinalizações positivas sobre a possível união. Em viagem à Bélgica, em novembro, Lula teceu elogios ao ex-governador, indicando que o caminho para uma união estaria aberto.

"Eu tenho uma extraordinária relação de respeito com Alckmin. Eu fui presidente quando ele foi governador, nós conversamos muito. Não há nada que aconteceu entre eu e Alckmin que não possa ser reconciliado", afirmou.

Para Cláudio Couto, além de mostrar que Lula é um moderado, a aliança com Alckmin poderia trazer benefícios caso a chapa saia vitoriosa em 2022. Segundo ele, a presença do ex-tucano no governo poderia criar pontes no Congresso Nacional com setores que, normalmente, poderiam fazer oposição a um governo do petista.

Confira os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil - Por que juntar Lula e Alckmin?

Cláudio Couto - Para o Lula, essa aliança sinalizaria muito claramente que ele é um moderado. Assim, aquela acusação de que ele representaria a extrema esquerda cairia por terra. Como é que você vai dizer que alguém como o Alckmin, sendo um político de uma direita moderada, toparia fazer uma chapa com Lula se ele fosse de extrema esquerda? Isso dá uma sinalização para diversos setores dessa moderação do Lula.

Serve tanto para que o eleitor mais ao centro ou à direita perca o medo do Lula, quanto para os setores das elites econômicas e da mídia que poderiam temer um retorno do Lula. Acho que o objetivo é esse: convencer setores que antes rejeitavam Lula de que ele não é nenhum maluco e de que ele seria capaz de compor e fazer um governo amplo.

BBC News Brasil - Mas como explicar isso para o eleitor histórico de Lula e de Alckmin?

Cláudio Couto - Eu explicaria dizendo o seguinte: "Olha! O que temos diante de nós hoje é o desafio de defender a democracia no Brasil e é preciso se juntar a outros democratas, mesmo aqueles que pensam diferente da gente". Esse é o primeiro ponto.

Num segundo momento eu diria: "Ou a gente constrói um governo amplo ou não vamos dar conta da tarefa que é a reconstrução do país. E isso nos obriga a deixar de lado as divergências do passado e juntar forças nesse momento". É preciso dizer aos eleitores que essa união não significa que Lula e Alckmin serão iguais, mas que serão capazes de trabalhar juntos.

BBC News Brasil - Esse discurso é comum quando se fala das relações entre Executivo e Legislativo, por exemplo, mas neste caso, trata-se de uma chapa presidencial. Não seria importante ou necessário que seus integrantes fossem mais "iguais" ou, pelo menos, estarem mais alinhados do que, historicamente, Alckmin e Lula foram?

Cláudio Couto - Acho que há duas coisas a serem levadas em conta. A primeira é que nessa relação com o Legislativo, quando você faz uma coalizão para governar, você necessariamente incorpora essa composição à formação do seu ministério. A diferença, agora, é que você não está falando só dos ministros, mas também do vice-presidente. Mas isso dá um pouco na mesma. Então, ao final, você está dividindo a composição do governo entre aliados.

E o Alckmin poderia representar uma parcela desses aliados. Ainda que ele não esteja dentro de um partido. Ele representa um certo campo político. E acho que, dentro desse ponto de vista, é possível montar um governo com integrantes mesmo que eles estejam em campos políticos diferentes. O segundo ponto é que o PT e PSDB estiveram juntos em vários momentos da história. Se voltarmos à campanha das Diretas Já (1984), veremos que as lideranças do que seria o PSDB e do PT estavam lado a lado.

Em 1989, quando Lula foi pro segundo turno contra o Fernando Collor, essas mesmas pessoas estavam no palanque do Lula. PT e PSDB começaram a se distanciar em 1994, nas eleições vencidas pelo Fernando Henrique Cardoso, mas há uma trajetória de relativa proximidade. Acho que é essa a questão que precisa ser apresentada.

Alckmin e Lula sorriem enquanto apertam a mão
Reuters
Alckmin e Lula foram oponentes na disputa presidencial de 2006

BBC News Brasil - Quem tem mais a ganhar com essa aliança? Lula ou Alckmin?

Cláudio Couto - Em tese, acho que quem teria mais a ganhar seria o Lula porque é ele que tá disputando a Presidência da República e aumenta suas chances com Alckmin na chapa. Mas mesmo que Alckmin não estivesse na chapa, as pesquisas mostram que Lula ainda seria favorito.

Mas tem outra forma de olhar isso que é ver de onde parte cada um deles. De um lado, Lula parte da condição de ser um candidato que, segundo as pesquisas, é favorito a vencer as eleições. O Alckmin, por outro lado, é um político que estava escanteado, inclusive no seu próprio Estado e pelo partido que ajudou a fundar. Mesmo assim, ele tinha algum favoritismo na disputa para o governo de São Paulo, mas sabe que seria uma eleição difícil pois não teria a máquina a seu favor.

Para alguém nessas condições entrar no jogo nacional novamente em uma chapa competitiva, isso é um ganho considerável. Então, penso que é um jogo de ganha-ganha. Não acho que haja um perdedor ou um trouxa.

BBC News Brasil - Apesar de ter governado São Paulo quatro vezes e de ter chegado ao segundo turno nas eleições presidenciais em 2006, Alckmin perdeu o controle do partido em que ele já foi uma das principais lideranças. Qual o peso efetivo dele em termos de atração de apoio ou votos para uma chapa com Lula? O que ele tem a oferecer ao ex-presidente?

Cláudio Couto - O que Alckmin leva para o Lula é uma espécie de selo. Assim como o (ministro da Economia, Paulo) Guedes, que não tinha voto, mas proporcionou um selo do mercado ao Bolsonaro, Alckmin oferece uma espécie de selo de moderação. É um selo de que Lula é um político capaz de compor com divergentes, de montar uma frente ampla. Esse é o ganho imediato.

Esse selo poderia nem ser dado pelo Alckmin, mas por uma figura similar ao que foi dado por José Alencar (empresário e ex-vice-presidente da República, morto em 2011) em 2002. Mas o Alckmin, mesmo com uma votação pequena em 2018 e escanteado pelo próprio partido, ele dá uma visibilidade a esse movimento do Lula em direção ao centro muito maior do que o que Lula fez com José Alencar em 2002. Não é transferência direta de votos, mas a mensagem que isso passa.

BBC News Brasil - O governador de São Paulo, João Doria (PSDB) evitou atacar Alckmin diretamente ao comentar essa possível aliança entre Alckmin e Lula. Na sua avaliação, essa possível união fornece algum tipo de blindagem para o petista contra críticas a corrupção ou ao suposto radicalismo que atribuem ao PT?

Cláudio Couto - Eu acho, sim. Para usar o termo mais na moda, essa aliança serve como uma vacina.

BBC News Brasil - Vacina contra o quê?

Cláudio Couto - É uma vacina contra a acusação de extremista. Como você vai dizer que Lula é extremista se ele tiver como vice o Geraldo Alckmin? Que extremista de esquerda é esse que se alia com um político de direito, católico praticante, de perfil conservador? É uma incongruência. Acho que já não faria sentido algum chamar Lula de extremista só ao olhar a trajetória dele, mas com o Alckmin do lado fica ainda mais complicado fazer uma acusação dessa natureza.

BBC News Brasil - Muita gente na esquerda mostra desconfiança em relação a essa aliança sugerindo que o ex-tucano poderia atuar para uma queda precoce de Lula a exemplo do que, eles afirmam, aconteceu com Michel Temer e Dilma Rousseff. Há risco de Alckmin ser para Lula o que Temer foi para Dilma?

Cláudio Couto - Eu acho que esse risco é muito baixo e por algumas razões. Primeiro porque Alckmin não é Temer. Ele é um político com outro perfil. Foi governador quatro vezes, foi candidato duas vezes à Presidência e é um político que tem uma trajetória que não permite falar em deslealdade. Ele cumpre compromissos.

O segundo ponto é: Lula não é Dilma. Lula é uma raposa da política. Alguém que está fazendo política, negociação e articulação desde os anos 1970. Foi presidente, bem-sucedido na sua negociação com o Congresso. É uma liderança e um político hábil. Dilma estava longe disso. Então, não temos Michel Temer de um lado e nem temos Dilma de outro.

Há um terceiro ponto que é o contexto atual. Não estamos mais na situação de uma queda muito grande da popularidade do PT. Estamos em um contexto em que Lula e o PT estão recuperando espaço. Além disso, o próximo governo, caso Bolsonaro não se reeleja, virá logo após uma verdadeira calamidade. Então, penso que há muito mais espaço para esse governo ganhar fôlego e produzir do que o PT tinha em 2015 e 2016.

Dilma Rousseff e Michel Temer sorriem caminhando em corredor formado por dragões (guardas)
Agência Brasil
Dilma Rousseff e Michel Temer no dia da posse; para Cláudio Couto, eles têm perfil diferente da dupla Lula e Alckmin

BBC News Brasil - Essa aliança entre duas figuras que setores mais radicais chamariam de "velha política" não serve para alimentar o discurso de candidatos que se posicionam como antissistema sob o argumento de que "eles são todos iguais"?

Cláudio Couto - Sim. Acho que essa união pode alimentar esse discurso. Mas é preciso avaliar outros fatores. O primeiro é que a onda antipolítica começou em 2013, passou por 2016, e chegou ao ápice em 2018 na onda bolsonarista.

Em 2020, no entanto, nas eleições municipais, começamos a ver um refluxo nisso. Acho que essa onda perdeu força. Mesmo o tema "corrupção" já não aparece mais como uma grande questão para os eleitores. Além disso, Bolsonaro se abraçou com o Centrão. Aquilo que ele dizia que iria combater, ele não combate mais. Se ele apontar o dedo para o Alckmin e dizer: "Olha com quem o Lula está se aliando. Olha a velha política, aí", alguém vai dizer: "Olha com quem você está se aliando!".

BBC News Brasil - Mas num ambiente de eleição, você acha que Lula, que também já se aliou ao Centrão para governar, faria esse tipo de réplica?

Cláudio Couto - Acho que é mais uma questão de dizer: "Como você vê um problema nisso se você mesmo faz?". A crítica teria de ser nessa linha e não atacando a aliança, em si. Talvez o (Sergio) Moro possa ter espaço para fazer esse tipo de crítica, mas é preciso, também, avaliar quem serão os aliados dele. Afinal, ele também poderá ter suas vulnerabilidades expostas no decorrer desse processo eleitoral.

BBC News Brasil - Você pontuou todas as vantagens que essa aliança traria, mas quais são as desvantagens que essa aliança pode enfrentar na eleição e em um eventual futuro governo fruto desse casamento?

Cláudio Couto - Diante de problemas que governos normalmente têm, acho que essa aliança tende a ser muito mais benéfica do que ruim porque ela amplia o arco de apoios de um eventual governo. Ela cria pontes com setores que poderiam estar na oposição. Há uma possível perda, obviamente, que são os narizes torcidos daqueles que vão fazer reivindicações de purismo ideológico. Vão dizer: "É impossível um esquerdista como Lula se aliar a um direitista como Alckmin. Vamos lançar a candidatura do PSOL".

É possível que haja gente cogitando coisas desse tipo, mas eu imagino que isso é muito pouco comparado ao que se vai ter de ganho do outro lado. Pode haver gente fazendo barulho, inclusive no próprio PT, mas, sinceramente, acho que é residual. Pode ser que algo parecido ocorra do outro lado, no PSDB.

Mas o que é o PSDB hoje? É o PSDB do Doria? Do (Eduardo) Leite? Acho que essa aliança deixa os críticos um pouco desarvorados. Não vejo como algo que pode causar prejuízos sérios. E para alguém como Lula, que já se aliou com Valdemar da Costa Neto (presidente do PL) e Paulo Maluf, é muito melhor ter o Alckmin ao seu lado.


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