ELEIÇÕES

Janela e federações partidárias ajudam a explicar crise dentro do tucanato

Para um dos fundadores do partido, o ex-deputado Fábio Feldmann, que deixou a legenda em 2005, a sigla enfrenta uma crise de identidade e não sabe onde se colocar no momento que o país vive

Deborah Hana Cardoso
postado em 07/03/2022 14:28 / atualizado em 07/03/2022 14:29
Prévias do PSDB oficializaram pré-candidatura de João Doria à Presidência pela sigla -  (crédito:  Carlos Vieira/CB/DA.PRESS)
Prévias do PSDB oficializaram pré-candidatura de João Doria à Presidência pela sigla - (crédito: Carlos Vieira/CB/DA.PRESS)

O PSDB chegou cheio de problemas à janela partidária, período que os parlamentares têm para mudar de partido sem a perda do mandato pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A sigla coleciona perfis que vão de grupos ligados à agenda do presidente Jair Bolsonaro (PL) a outros que fazem oposição ao chefe do Executivo, como os tucanos da velha guarda Aloysio Nunes, José Serra, Tasso Jereissati e José Aníbal. De acordo com um dos fundadores da legenda, o ex-deputado Fábio Feldmann, que deixou o PSDB em 2005, a sigla enfrenta uma crise de identidade e não sabe onde se colocar no momento que o país vive.

Desfiliações foram confirmadas por meio de interlocutores ao Correio, como o ex-líder do partido na Câmara Rodrigo Castro (MG), Rose Modesto (MT) e Mara Rocha (AC) — a última é apontada como alinhada ao governo Bolsonaro e deve sair candidata ao governo de seu estado. A reportagem procurou os três parlamentares e não obteve resposta. Há expectativas de filiações vindas do União Brasil (PSL e DEM) e do Centrão (PP e PL). O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, segue em tratativas com o PSD.

Ainda no âmbito das movimentações deste ano, existem as federações partidárias. Um interlocutor destacou que há negociações sobre uma federação entre PSDB, União Brasil e MDB. “Não é impossível, mas é pouco provável”. PSDB já se federou com Cidadania. Outro interlocutor do União Brasil disse: “É difícil fazer federação com o PSDB. João Doria não empolga no Nordeste e ACM Neto quer ser governador”.

Antecedentes

Um alerta acendeu em 2018, quando o ex-governador paulista Geraldo Alckmin ficou para trás logo no primeiro turno, com 4,76% dos votos — o pior desempenho em uma eleição geral do partido desde o mandato de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). O eleitorado que não votava no PT migrou para Jair Bolsonaro, que ganhou naquele ano.

De acordo com o suplente de senador José Aníbal (SP), naquela eleição, a legenda não conseguiu captar a polarização. “Perdemos o protagonismo à Presidência da República e, em 2019, o parlamento”, disse. Em sua avaliação, há outro fato que se soma a isso: a eleição do governador João Doria. “Ele ia perder para Márcio França e então se agarrou ao BolsoDoria”, afirmou.

Para Feldmann, atribuir à crise do partido a Doria não é razoável, mas ele destacou que “todo governador de São Paulo é um presidenciável”. E completou: “Doria demonstrou uma absoluta incapacidade de ocupar um espaço que seria naturalmente dele por ser governador de São Paulo”. 

Segundo o CEO da consultoria de Risco Político, Dharma Politics, Creomar de Souza, o problema é anterior e começa em 2016, quando Doria se tornou prefeito de São Paulo e “fez um movimento para garantir sua candidatura ao governo paulista, de tomada do diretório estadual”. Os derrotados, apoiadores de Geraldo Alckmin — que acaba de confirmar filiação ao PSB —, foram convidados a se retirar do partido. “Esse intento de Doria de se posicionar como a maior liderança do partido começou um processo de desgaste da sigla”, pontuou Feldmann.

Vale destacar que agora há uma pressão interna no PSDB para que Doria deixe a disputa. Ele admitiu recentemente que poderá retirar sua candidatura ao Palácio do Planalto mais à frente. “O PSDB não ter um candidato à Presidência é um peso para o tamanho e história do partido”, finalizou o ex-tucano.

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