Newton Cruz

Carreira marcada pelas polêmicas

Correio Braziliense
postado em 17/04/2022 00:01
 (crédito:  Ohomi/CB/D.A Press)
(crédito: Ohomi/CB/D.A Press)

O general Newton Cruz, símbolo da linha dura do regime militar, morreu ontem, aos 97 anos, no Hospital Central do Exército, em Benfica, no Rio de Janeiro. Ele foi chefe da Agência Central do Serviço Nacional de Informações (SNI), entre 1977 a 1983, e do Comando Militar do Planalto. O militar deixa quatro filhos.

Cruz será cremado hoje no crematório da Penitência, no cemitério do Caju, na zona portuária do Rio. A morte do general foi confirmada pelo Comando Militar do Leste. "Neste momento de consternação, os integrantes do CML solidarizam-se e rogam a Deus pelo conforto de familiares e amigos do general Newton Cruz", publicou.

O general teve uma carreira marcada pela polêmica. Além da truculência, era um crítico da abertura política levada adiante no governo do então presidente João Figueiredo e foi um dos poucos militares a responder por crimes cometidos durante a ditadura.

O ex-senador e ex-prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, lembrou quando certa vez encontrou Cruz. "Sem ódio, lembro de quando fui deputado federal e o encontrei. Para mim, ele cumpriu seu papel antidemocrático, e eu estava fazendo o meu, de ajudar a instaurar a democracia no Brasil", tuitou.

O general nasceu em 24 de outubro de 1924, no Rio de Janeiro. Entrou no Exército em 1941 e chegou a general-de-brigada em abril de 1976. Naquele ano, Cruz foi nomeado comandante da Artilharia Divisionária, em Pouso Alegre (MG). Um ano depois, deixou o regimento de cavalaria que comandava, em Minas, para assumir o cargo de chefe da Agência Central do SNI, cuja sede ficava em Brasília.

Cruz comandou o órgão entre 1977 e 1983, e foi apontado como participante da tentativa de atentado a bomba no Riocentro em 1981, no show musical em comemoração ao 1º de Maio. Em 2014, o general foi apontado pela Comissão da Verdade como um dos 377 militares que cometeram crimes durante a ditadura. Ele jamais foi condenado pelas acusações que sofreu.

Caso Baumgarten

Em 1983, Cruz foi acusado de envolvimento no assassinato de Alexandre von Baumgarten, ex-diretor da extinta revista O Cruzeiro. O episódio teve início na madrugada de 13 de outubro de 1982, quando o jornalista e a mulher, Jeannete Hansen, foram sequestrados no cais de embarque da Praça XV, no Rio. Sairiam na traineira Mirimi para um dia de pescaria nas ilhas Cagarras.

Semanas depois, o corpo de Baumgarten apareceu na praia da Macumba, no Recreio dos Bandeirantes, com marcas de tiros — o laudo do Instituto Médico Legal, porém, disse que a morte foi por afogamento. Cruz entrou na história depois de ser apontado por Cláudio Werner Polila, suposta testemunha ocular, como tendo acompanhado o sequestro de Baumgarten e de Jeanette. O general sempre negou qualquer envolvimento.

O caso, porém, só começou a ser investigado com profundidade em 1985, quando o delegado Ivan Vasques, da Divisão de Homicídios da Polícia Civil, assumiu o inquérito. Ele indiciou três militares pelo desaparecimento e morte das vítimas, mas, em 1992, todos foram absolvidos.

Cruz também foi um dos seis denunciados à Justiça por participação no atentado do Riocentro, em 1981. Os procuradores pediram uma pena mínima de 36 anos e seis meses de prisão para o ex-chefe do SNI. Na denúncia, ele foi acusado de saber antecipadamente do atentado e de nada ter feito para impedi-lo.

Naquela noite, uma bomba explodiu dentro de um carro Puma, no estacionamento do Riocentro, ferindo o capitão Wilson Luis Chaves Machado e matando o sargento Guilherme Pereira do Rosário. Na mesma noite, outro artefato foi lançado na subestação de eletricidade do complexo para cortar a energia do show musical e causar pânico. O episódio seria atribuído a organizações contrárias à ditadura.

A denúncia foi elaborada pelo Grupo de Justiça de Transição do MPF. Outras ações impetradas entre em 1981 e 1999 foram arquivadas pelo Tribunal Militar e pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Os magistrados entenderam que os acusados se enquadravam na Lei da Anistia.

O general ficou conhecido, também, por dois acontecimentos em Brasília. O primeiro, quando, montado em um cavalo branco, saiu dando chicotadas e chutes em carros, na Esplanada dos Ministérios, irritado com um buzinaço na véspera da votação da emenda Dante de Oliveira, a das Diretas Já. Antes, desfilara à frente de 6 mil militares e mais de 100 tanques e carros de combate.

O segundo, quando ocupava a chefia do Comando Militar do Planalto, ocorreu enquanto executava medidas de emergência decretadas por João Figueiredo. Cruz descontrolou-se durante uma coletiva organizada para prestar contas sobre os dois meses de vigência das medidas no DF e hostilizou o repórter Honório Dantas — chegando a agredi-lo verbal e fisicamente.

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