Entre a agenda conservadora e o desafio da economia

Correio Braziliense
postado em 18/04/2022 00:01
 (crédito: Redes sociais/Reprodução)
(crédito: Redes sociais/Reprodução)

Na avaliação do professor de marketing político da ESPM Marcelo Vitorino, o presidente Jair Bolsonaro (PL) ampliará o diálogo com grupos conservadores para chegar ao segundo turno das eleições. "O caminho, provavelmente, será o de trazer a pauta ideológica contra as ideias progressistas dos adversários, com questões sobre composição de família, amor à pátria, discussão sobre ideologia de gênero nas escolas", elencou. "Ele deve, ainda, ancorar seus posicionamentos mais duros na liberdade de expressão, para que, em caso de extrapolar limites, possa ter um discurso de que foi censurado e de que há uma conspiração para que seus adversários vençam".

Vitorino observou que a situação na área econômica será fator decisivo no pleito deste ano e que a possibilidade de sucesso no tipo de abordagem é menor. "Com uma parte da população, certamente as estratégias funcionarão, até porque são falas que reforçam preconceitos existentes na sociedade", destacou. "Acredito que, com o problema econômico, elas tenham menor índice de sucesso do que 2018, em que a população estava mais alinhada com a ruptura política. Hoje, está mais alinhada na recuperação do poder aquisitivo", acrescentou.

Professor de economia da Universidade de Brasília (UnB), Roberto Ellery lembrou que, em geral, as duas variáveis fundamentais para captar o efeito da economia nas eleições são inflação e desemprego. "A soma delas forma o que os economistas chamam de índice de miséria. Há um padrão nos Estados Unidos em que dificilmente um partido permanece no poder quando esse índice está alto", disse. "Aqui no Brasil, não há um padrão tão claro, até porque não temos a mesma regularidade de eleições democráticas, mas existem sinais de que o índice de miséria pode influenciar fortemente no pleito."

Com o desemprego alto e o risco de uma nova disparada da inflação, o aumento do índice de miséria é inevitável, apontou. "Não creio que seja possível cravar que esse índice vai definir as eleições, mas deve ter um efeito importante. É muito difícil o governo ganhar eleições com inflação fora de controle", acrescentou Ellery.

Já o professor da UnB Lúcio Teles, especializado em comunicação digital, acredita que os ataques aos opositores serão parte fundamental da estratégia de Bolsonaro nas redes. "Eu acho que ele vai tentar fazer os dois: projetar sua visão, mas, ao mesmo tempo, atacar Lula e candidatos que integrarem a terceira via", afirmou.

Teles destacou a defesa que Bolsonaro fez do Telegram quando o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), bloqueou o uso da plataforma no Brasil, em 19 de março, que indica a importância do aplicativo para a campanha eleitoral.

"Essa defesa que ele fez recentemente, que não se pode suspender a plataforma porque viola a liberdade de expressão, já mostra o encaminhamento de que essa e outras ferramentas são essenciais para a estratégia dele. Algumas empresas, como o Facebook, já se comprometeram a evitar mensagens de ódio, fake news, mas o Telegram ainda está ambíguo", avaliou Teles.

O diretor Norte-Nordeste do Clube de Profissionais de Marketing Político (CAMP), Leurinbergue Lima, concordou. "Está muito claro que a estratégia deles passa pelo Telegram, pelo menos em nível de rede social. A plataforma tem grupos ilimitados, não tem o problema do reenvio de mensagens, que o Whatsapp tem agora. O Telegram é meio terra de ninguém", sustentou.

Porém, o especialista não credita às redes sociais a evolução recente de Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto. Com o fim da janela partidária em 2 de abril, por exemplo, o PL foi o partido que conseguiu maior bancada na Câmara, com 73 parlamentares. "Isso não é coisa do Bolsonaro, é coisa do partido. Eles já são bons de redes sociais, e, agora, vão saber usar, também, de forma mais apurada, mais profissional, os veículos tradicionais", avaliou. "Os próprios programas de televisão não foram um fator em 2018 porque Bolsonaro não tinha tempo nem dinheiro, mas agora ele vai ter, e apostou muito na distribuição de verbas para conseguir apoio político", emendou. (IS e VC)

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